domingo, 4 de novembro de 2012

A CULTURA RASTAFARI





Por Cássio Ribeiro

“Jah está presente aqui. Jah vive aqui e agora. Jah vive dentro e fora. Já está em tudo, mas nem tudo está em Jah”. O pequeno trecho é uma parte da letra da música Selassie Vive, da banda brasileira de reggae Jah I Ras, cujos integrantes vivem em uma comunidade rastafari localizada em Itapecerica da Serra/SP.


Quem é Jah? Como surgiu a cultura rasta? O porquê das longas tranças (dreads), e a relação com a Maconha. Essas e diversas outras perguntas sobre o rastafarianismo serão respondidas neste trabalho.


Antes de viajarmos para a Jamaica da década de 1930, a fim de entendermos as origens do Rastafari, será necessário começarmos nossa abordagem um pouco antes, na Etiópia, um país pobre do norte da África.



Segundo a antiga tradição etíope, Makeda, a Rainha de Sheba, visitou o Rei Salomão em Israel. Em uma interpretação de 1 Reis 10:13 do Velho Testamento do Judaísmo: "E o Rei Salomão deu para a Rainha de Sheba todo o seu desejo, tudo o que ela perguntou junto a ele. Salomão lhe deu da sua generosidade real. Portanto ela virou e foi ao seu próprio país, ela e os seus empregados."


Os rastafaris interpretam o verso acima como sendo o relato de que o Rei Salomão teria engravidado e tido um filho com a rainha Makeda. Isso seria uma evidência de que o povo africano seria mais um povo originado de uma tribo inicial que era formada por filhos de Israel, ou judeus.



O filho de salomão com Makeda, de acordo com as tradições, era Menelik. A geração 225 depois de Menelik seria O etíope Haile Selassie I (1872 – 1975). Selassie foi coroado pela Igreja Ortodoxa Etiópica como Imperador da Etiópia, em 2 de novembro de 1930. O nome de Selassie antes dele ser coroado já fazia alusão a um pré-reinado. Seu nome antes de tornar-se imperador era Ras Tafari: (ras = cabeça, ou título etíope equivalente a Duque, e Tafari = nome que designava seu futuro reinado). Selassie era o único imperador e governante negro de toda África colonizada daqueles tempos, numa Etiópia independente e livre. Governou a Etiópia de 1930 até 1974. Faleceu em 1975.
 

  


Para a cultura Rastafari, Haile Selassie seria Deus (Jah) encarnado, e lideraria o povo africano de todo o mundo em sua volta à pátria África (Sião ou Paraíso para eles). Selassie é chamado pelos rastafaris de Jah Rastafari, Jah Selassie ou Magestade Imperial







 Bandeira imperial da Etiópia durante o reinado de Haile Selassie, que durou de 1930 até 1974. O leão representa o Leão da Tribo de Judá, numa alusão à ligação de Selassie com a linhagem de imperadores etíopes desde o primeiro filho da rainha Makeda com Salomão, o príncipe  Menelik. O verde da bandeira representa a vegetação e a terra africana, o amarelo simboliza a riqueza do continente e, o vermelho, trata-se do sangue do sofrido povo africano




As bases inspiradoras para o desenvolvimento da cultura Rastafari são as histórias da Etiópia Antiga e a figura de Haile Selassie, apresentas acima.




O Rastafari surge na Jamaica, uma ilha do Caribe bem longe da africana Etiópia. Na década de 1930, o jamaicano Marcus Garvey teria realizado uma revelação profética, segundo a qual era necessário que todos os negros que foram espalhados pelo mundo devido ao comércio dos tempos de escravidão, deveriam voltar para sua pátria natal, a África. "Atrás à África" era o termo empregado.






O jamaicano  Marcus Garvey, autor da profética revelação que originou o Rastafarianismo







 Bandeira da Jamaica, cujo verde e o amarelo tem o mesmo significado da bandeira da Etiópia. Já a cor negra, representa o povo afro-descendente






Essa revelação, associada a uma foto de Haile Selassie I vestido de guerreiro circulou pelas favelas da capital da Jamaica, Kingston, junto com um artigo de jornal que afirmava que Selassie era o mentor da Ordem Nyahbinghi, que seria uma sociedade secreta africana comprometida em acabar com a dominação colonial branca.


Tais acontecimentos foram as causas do surgimento da cultura Rastafari numa Jamaica da década de 30, onde a maioria da população era católica e 98% dos habitantes eram descendentes de escravos negros africanos.


Para os Rastafaris, o Deus do velho testamento do Judaísmo é chamado de Jah. É curioso notar que Jah do Rastafarianismo, Jeová do Velho testamento do Judaísmo e Allah dos muçulmanos são o mesmo Deus, adorado por culturas diferentes e de formas diferentes.


O Rastafarianismo prega que a África (também chamada de Zion) foi o verdadeiro berço da humanidade e que todos os negros deveriam voltar para a sua pátria, o que caracteriza a presença marcante do afrocentrismo e da busca pela criação de uma África formando um só país, na qual o Pan-africanismo seria posto em prática.


A capital desse reino africano único seria a “Nova Jerusalém", e ficaria na Etiópia. Tal teoria se apega aos versos proféticos da Bíblia Hebraica em Sofonias 3:1: "De Além dos rios da Etiópia os meus adoradores, a filha dos meus dispersados, trarão o meu oferecimento."




Rastafari da pequena Ilha de Barbados, que também fica no Caribe






O Rastafari pode ser definido ao mesmo tempo como uma religião, uma ideologia e um movimento. Muitos rastas afirmam que a prática não se trata de uma religião em absoluto, mas um “caminho para a vida”.



Para os rastas, Jah tem a forma da tríade sagrada (Pai, filho e Espírito Sagrado), e está em todo ser humano por meio do Espírito Sagrado. Por isso que os rastas se referem a eles como “Eu e Eu”, no lugar de “nós”, acentuando também dessa forma a igualdade do povo.






No Rastafari, o resto da sociedade de fora do rasta é chamada de Babilônia. Para eles, desde a ascensão de Roma, teria a Babilônia representado a divindade com aspecto racial branco durante séculos para promover sua atividade predatória colonial e, ao mesmo tempo, ser racista, dominando e agredindo o povo africano com o comércio de escravos no Oceano Atlântico.


As comunidades rastafari são muitas vezes chamadas por seus integrantes de Sião, numa alusão ao paraíso apresentado nos textos bíblicos.


Os rastas seguem as leis alimentares do Velho Testamento da Bíblia. Em geral, são vegetarianos e, quando muito, comem apenas carne de peixe como único alimento provido de algo morto. A cozinha rastafari é repleta de verduras naturais e frutas como o coco e a manga, e dispensa os alimentos processados e com conservantes. O álcool também é evitado, pois para eles teria sido uma criação da Babilônia para confundir os rastas.


As longas tranças ou “dreads” que os rastas usam são outra aproximação ideológica com os costumes descritos no Velho Testamento judeu e cristão. O próprio Sansão teria cultivado 7 dreads ou tranças. 




Outra prática marcante na cultura rastafari é o uso espiritual da Maconha na liturgia religiosa. Para eles, a Maconha seria um sacramento que limpa o corpo e a mente, cura a alma, exalta a consciência, facilita o sossego, traz o prazer e os coloca mais perto a Jah.


Sendo assim, para a cultura Rastafari, a Maconha trata-se de uma erva sagrada ou santa, santidade essa que teria sido concedida pelo próprio Jah no momento que criou a Maconha. Os rastas afirmam que a ilegalidade da Maconha em muitos países é uma confirmação da perseguição que a cultura rastafari sofre por parte da Babilônia.




Baseados em Gênesis 1:11:"E o Deus disse, deixado a terra traz adiante a grama, a erva que produz semente, e a árvore de fruto que produz fruto depois da sua espécie, cuja semente é em si mesmo, sobre a terra: e foi assim", os rastas buscam uma legitimação religiosa para o uso sacro da Maconha.




No Rastafari, a etimologia da palavra "Maconha" e termos semelhantes usados em todas as línguas do Oriente Próximo podem ser originados no hebreu "qaneh bosm" (נה  שם), que designa uma das ervas que Jah ordenou a Moisés incluir na sua preparação do perfume sagrado que unta em Êxodo 30:23. O termo hebraico "qaneh bosm" também aparece em Isaias 43:24; Jeremias 6:20 e Ezequiel 27:19.

 
Também criado na Jamaica ainda na primeira metade do século passado, o Reggae através de sua música, seu ritmo e seus versos, foi o principal propagador e divulgador da cultura Rastafari em todo o mundo. O cantor jamaicano Bob Marley é até hoje, desde a década de 1970, a mais conhecida figura do Reggae em todo o mundo.


 



 Bob Marley (1945–1981), o principal símbolo artístico do Reggae jamaicano e da divulgação do Rastafari em todo o mundo



Quando o Imperador Haile Selassie morreu, em 1975, a reação dos rastafaris foi melhor expressada na canção Jah Live! (Jah Vivo!) de Bob Marley, que declara: “O Deus não pode morrer”. A canção pode ser ouvida abaixo







 


O Reggae nasceu entre negros pobres de Trenchtown, que é o principal gueto de Kingston, na Jamaica. Na ocasião, muitos músicos rastas locais influenciados pelo Jazz tocado em rádios americanas que eram sintonizadas na Jamaica, misturaram este e alguns outros ritmos de fora com música original jamaicana. Assim nasceu o Reggae.


Outros músicos famosos do Reggae com forte orientação Rastafari presente nas suas músicas são Peter Tosh, Freddie McGregor, Príncipe Lincoln Thompson, Coelho Wailer, Príncipe Adrian Nones, Cornell Campbell, Dennis Brown e muitos outros.



No Brasil, algumas manifestações plenas da cultura Rastafari são marcantes. Em Itapecerica da Serra/SP, há uma comunidade Rastafari chamada Santa Maria de Sião. Nela, vive a banda brasileira de Reggae Jah I Ras, que além de cantar a religião e a cultura Rastafari em suas letras, também vive de acordo com as doutrinas existenciais do rastafarianismo.

Abaixo, o leitor pode conferir com a banda Jah I Ras um pouco da expressão cultural Rastafari praticada no Brasil.
  


 Ao centro, a becking vocal Sistah Palloma e Ras Kahdu, líder da banda Jah I Ras: "Não temos como objetivo estar presentes na mídia ou despertar interesses e ganhar dinheiro. Nossa intenção é mostrar o que é o rastafari", diz a banda.

















 Jah I Ras





Embora a comunidade Rastafari da Banda Jah I Ras fique em Itapecerica da Serra, a primeira igreja Rastafari do Brasil fica na cidade de Americana, no interior de SP, com o pomposo nome de Primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião. No vídeo abaixo, o leitor pode conhecer melhor a congregação.



 

A Igreja Rastafari de Americana já foi invadida algumas vezes. Na última, Ras Geraldinho foi levado pelas autoridades.





Atualmente, o líder Rastafari está preso na Cadeia Pública de Americana. Como é ativista e bem politizado, além de possuir excelente relacionamento social onde se encontra, Ras Geraldinho foi voluntário para dar aulas de informática aos outros presos na Cadeia de Americana. Seu julgamento será realizado no próximo dia 29 de novembro.








 O próprio Ras Geraldinho relata como foi uma das invasões: “Eles vem fazer a batida, eles vem gravando. O cara é policial e vira diretor de cinema. Eu abri o portão da Igreja e fui recebido com uma automática na minha testa velho”, afirma Ras Geraldinho.

 


A lei brasileira ainda não prevê o uso religioso da Maconha. Já o Chá Ayahuasca (Santo Daime) é permitido por lei atualmente, embora já tenha sido proibido pela lei em duas ocasiões no Brasil.


Para saber um pouco mais sobre Geraldinho, o leitor pode acessar dois blogs mantidos pelo Ras, que são:



 e

http://niubinguiviolada.blogspot.com.br/, onde o rastafari brasileiro publicou na íntegra seu depoimento que seria dado à DISE.
  



Na própria Jamaica, a cultura Rastafari em seu início já foi discriminada. Os Rastas eram vistos sem qualquer status social, até porque em sua maioria viviam em condições paupérrimas nas favelas jamaicanas.



Só em 1960, a Universidade de West Indies patrocinou uma reportagem sobre o movimento Rastafari e sua relação com a sociedade jamaicana em geral. Tal reportagem foi o resultado de um pedido por parte da comunidade Rasta que se queixava da perseguição policial e da desinformação pública sobre o movimento.




Embora tal reportagem tenha divulgado o Rasta e ajudado a  diminuir o preconceito jamaicano com relação a tal cultura, a maioria da população da Jamaica ainda é cristã.




Em 1997, chegou-se a estimativa de que 1 milhão de rastafaris vivessem no mundo inteiro. No censo jamaicano de 2001, foram contabilizados cerca de 24020 rastafaris no país, menos de 1% da população na época. Outras fontes afirmam que nos anos 2000 os rastafaris formassem 5% da população jamaicana. Outra estimativa é a de que há pelo menos 100 mil rastafaris naquele país caribenho no qual o Rastafari teve origem.
 





Nenhum comentário:

Postar um comentário