sábado, 19 de março de 2016

1964: O GOLPE QUE CALOU O BRASIL






Cássio Ribeiro

A economia e o cenário político brasileiros desenvolveram-se por meio de ciclos constantes no decurso da  História do Brasil. Sempre, num determinado ciclo, não importa qual tenha sido, uma parcela da sociedade, ou seja, da população, foi privilegiada em detrimento de outras representações populacionais.

Nas ocasiões em que algum governante buscou oferecer uma atenção mais voltada para as camadas da população brasileira menos favorecidas economicamente, foi de alguma forma brecado e derrubado pelas oligarquias dominantes da sociedade.

Trocando em miúdos, sempre que a minoria poderosa que acostumou-se ao longo das décadas com a concentração do poder em suas mãos e com o subjugo das camadas mais pobres da sociedade foi ameaçada, voltou ao poder por meio de um golpe e da derrubada de uma liderança política que chegou ao governo pela vontade soberana da maioria do povo.

Foi assim com as pressões  sobre Getúlio Vargas, que levaram-no ao suicídio com um tiro no peito, em 24 de agosto de 1954, e foi assim com a derrubada do presidente João Goulart, em 1964, que é especificamente o assunto tratado na postagem de hoje deste blog.

O dia 1º de abril é considerado por muitos como o dia da mentira. Essa data, porém, marcou para sempre a História do Brasil, em 1964.

Faltando 12 dias para o golpe  que depôs o presidente João Goulart completar 52 anos, vamos fazer uma viagem pelas causas geradoras dos violentos Anos de Chumbo; 21 anos em que no Brasil foi abolido o direto democrático de pensar, de ter ideologia e de ir e vir.

Todos eram culpados até que se provasse o contrário naqueles tempos sombrios. Qualquer semelhança com o hoje parece não ser mera coincidência.

As articulações que mais tarde resultariam na derrubada do presidente escolhido democraticamente pelo povo tiveram início uma década antes do golpe que foi um movimento político militar que jamais trouxe mudanças para as estruturas sociais e econômicas visando o bem do povo brasileiro mais pobre.

Em fevereiro de 1954, João Goulart era o ministro do trabalho de Getúlio Vargas, e foi afastado por um manifesto assinado por coronéis, depois de aumentar o salário mínimo em 100%.

As atitudes de Jango, como era popularmente conhecido, desagradaram os grandes empresários e os militares conservadores de alta patente.

Os coronéis que assinaram o manifesto em 1954 eram os generais conspiradores, uma década depois, na fria e chuvosa madrugada do dia 1º de abril do outono de 1964.

Com a derrubada da República Velha, em 1930, o crescimento da industrialização brasileira produziu um significativo aumento da classe trabalhadora concentrada nos meios urbanos.

O atendimento das reivindicações dessa massa trabalhadora, visando sua aproximação com o Estado, além do controle, da condução e da manipulação das aspirações dos operários, era o chamado Populismo.

O Populismo foi explorado politicamente por Getúlio Vargas, que o usava principalmente na ideologia de seu segundo mandato (1951-1954), para garantir a simpatia dos trabalhadores, mas também estimulava a oposição dos grandes empresários e dos militares e políticos conservadores, formadores da elite católica conservadora brasileira.

Foi essa Elite que conspirou para derrubar Vargas em 1954 e, como João Goulart era uma espécie de herdeiro político do Populismo getulista, também foi destituído da presidência em 1964 pela mesma elite.

A derrubada de Jango em 1954 e 1964 representava uma interrupção da política populista de Getúlio Vargas pela elite católica dominante e conservadora brasileira



João Goulart chegou à Presidência da República depois que Jânio Quadros renunciou, em 1961, sem que nunca tenha ficado claro o motivo de tal renúncia.


O fato é que o Brasil havia se tornado aliado próximo dos Estados Unidos ao fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, e os comunistas brasileiros passaram a ser perseguidos desde então.


O Partido Comunista Brasileiro foi classificado como fora da lei pelo governo brasileiro, que também rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética.


Nos 7 meses do governo de Jânio Quadros, que durou de fevereiro até agosto de 1961, o Brasil reatou suas relações diplomáticas com o bloco comunista internacional da época, ao se reaproximar da União Soviética e do governo de Fidel Castro, em Cuba, o que desencadeou intensos protestos dos Estados Unidos. 


Além disso, a elevação em 50% do imposto sobre as importações dos produtos norte-americanos, e sobre os investimentos dos lucros das companhias locais nos Estados Unidos, bloqueava parte da acumulação de capitais, indo de encontro aos interesses do imperialismo mundial e da classe social rica e dominante brasileira.





 A polêmica figura de Jânio Quadros 


A gota d’água que faltava para as pressões sobre o governo de Jânio Quadros chegarem a níveis insuportáveis foi a condecoração do guerrilheiro Ernesto Che Guevara com a medalha da Ordem Cruzeiro do Sul, oferecida por Jânio. Guevara foi, ao lado de Fidel Castro, o principal nome da Revolução Cubana, em 1959.




Condecoração de Enesto Che Guevara ...



Ato que despertou a ira da oposição conservadora

A condecoração dada ao revolucionário fez desabar uma tempestade oposicionista sobre o governo de Jânio, vinda do Congresso Nacional e da imprensa, liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara, que hoje é a cidade do Rio de Janeiro.

O jornal O Globo também foi ferrenho promotor da oposição a Jânio Quadros após a condecoração. a TV Globo só seria inaugurada um ano mais tarde, em 26 de abril de 1965.

Carlos Lacerda, em rede nacional de TV, acusou Jânio Quadros de estar idealizando um regime igual ao de Cuba para o Brasil. Diante das pressões, Jânio Quadros renunciou na esperança de que, em função de sua popularidade, fosse recolocado no poder pelo povo brasileiro, fato que não aconteceu. 
 
Para aonde vai Jânio Quadros? A famosa foto com o registro do ex-presidente após a renúncia

O sucessor legal de Jânio, previsto pela Constituição, era o vice-presidente João Goulart, que para complicar ainda mais a situação em relação à opinião pública conservadora, estava visitando a República Popular da China Comunista.

A atuação política de Jango, além do cunho populista herdado de Getúlio Vargas, era também identificada como comunista pelas forças conservadoras brasileiras; sendo que, na União Soviética, o nome de Jango era citado de forma simpática pelos jornais.

Alegando motivos de segurança nacional, os ministros militares não aceitavam João Goulart como presidente. Foi então promulgada a Emenda Constitucional número 4, onde o parlamentarismo foi instituído como novo sistema de governo do Brasil, em 2 de setembro de 1961.


No parlamentarismo, Jango seria apenas chefe de estado, e o comando político do governo brasileiro ficaria a cargo de um primeiro-ministro e do Conselho de Ministros. Restava ao presidente apenas uma posição politicamente secundária no sistema parlamentarista adotado.

Jango buscou o apoio da opinião pública para a realização de um plebiscito onde o povo pudesse escolher entre os sistemas presidencialista e parlamentarista.

Em abril de1963, o presidencialismo foi restabelecido pela escolha popular, numa proporção de 5 votos para 1 voto dado ao sistema parlamentarista.

Jango conseguiu finalmente o poder de um presidente da República, e logo pôs em prática as chamadas "Reformas de Base" (reforma administrativa, reforma fiscal, reforma agrária e reforma bancária), que junto com a taxa de inflação na casa dos 73,5%, em 1963, contribuíram para inflamar os ânimos dos que se opunham ao presidente João Goulart.
 
O Presidente João Goulart

As pressões sobre Jango vinham da elite cristã conservadora, a mesma que colocara Getúlio Vargas no centro da crise que o levou ao suicídio, em agosto de 1954.

Trata-se da mesma elite conservadora e neoliberal que vendeu o Brasil por meio de privatizações e, de quebra, ainda explora a massa pobre da população, impedindo por meio da manipulação da opinião pública, através do domínio da grande imprensa, a possibilidade de mudanças significativas no sistema econômico, social e educacional do Brasil atualmente. A mesma que hoje opera as pressões diárias contra o governo brasileiro em 2016; sempre a mesma.

Os pretextos que faltavam para o golpe contra a democracia brasileira ser deflagrado aconteceram em duas ocasiões bem claras.

Primeiro, o comício realizado na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, ocasião em que Jango assinou decretos de desapropriação de áreas improdutivas localizadas às margens de rodovias e ferrovias, e de nacionalização das refinarias de petróleo, além do monopólio do controle estatal sobre a importação desse produto.


Naquela sexta-feira 13, Jango também deu um ultimato aos militares ultraconservadores: se tentassem deflagrar um golpe de estado, enfrentariam a esquerda finalmente unida, pronta para o combate e apoiada na vontade do povo.

Jango ao lado da esposa Maria Thereza Goulart, durante o inflamado discurso ... 

no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964


A outra ocasião decisiva para o execução do Golpe Militar aconteceu entre os dias 25 e 27 de março de 1964, quando 1200 marinheiros se reuniram no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, e saíram em passeata com quepes e golas virados para trás, na chamada Revolta dos Marinheiros. O governo de João Goulart apoiou os marinheiros e foi duramente criticado por oficiais das três forças armadas.


Em 30 de março, João Goulart discursou no Automóvel Clube do Rio de Janeiro para uma plateia de 2 mil sargentos; entre eles, muitos dos marinheiros revoltosos de alguns dias antes. Na ocasião, Jango também respondeu às críticas dos oficiais. O então senador Amaral Peixoto acompanhava as cenas pela TV de seu apartamento e disse em tom profético: "O Jango já não é mais presidente da República."


No dia seguinte, já na noite de 31 de março de 1964, o Golpe Militar começou em Juiz de Fora, Minas Gerais, sob o rótulo de movimento democrático contrário às ameaças comunistas. Hoje, diante da democracia, vemos um mesmo movimento com o rótulo de ética e moralização contra a corrupção; há sempre um rótulo justificador para os golpes no Brasil.




Os militares de Minas logo receberam apoio dos comandos do Exército em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio grande do Sul. Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, a "procissão" de tanques veio às ruas.
 
O barulho das velhas lagartas que giravam movimentando os carros de combate se confundia com o som dos motores dos tanques e jipes verdes ocupados por soldados armados com grossos calibres.

Parte da força naval dos Estados Unidos deslocou-se para a costa brasileira, a fim de apoiar os golpistas caso houvesse guerra civil. Em caso de conflito, os americanos também estavam prontos para reconhecerem imediatamente o novo governo militar golpista.

Na noite do dia 31 de março e madrugada do dia 1º de abril de 1964, os tanques tomaram as ruas e ...
 

Na manhã do dia 1º de abril, o cenário das capitais brasileiras ...


era preenchido por carros de combate do Exército

No dia 1º de abril, João Goulart fugiu de Brasília para Porto Alegre, na tentativa de articular a resistência que jamais aconteceu. Jango percebeu como seus conselheiros militares e as chamadas esquerdas radicais estavam equivocados nas previsões relativas ao potencial de resistência.

O povo brasileiro assistiu a tudo passivamente. A greve geral convocada pelo CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) no dia 30 de março não teve nenhuma adesão; trens e ônibus trafegaram normalmente durante todo o dia 31 de março. Ninguém esboçou a mínima resistência.

Não havia Internet, mídias sociais e nem os movimentos Catraca Livre e Jornalistas Livres como hoje. A grande imprensa a serviço da elite cristã dominante ditava as regras de forma soberana e sem oposições.

A grande mídia era a senhora suprema da manipulação da opinião pública por meio do direcionamento da informação de acordo com os seus interesses e dos interesses da classe social dominante que sempre representou e representa até os dias de hoje.
 
Jango estava sozinho e, já no dia 2 de abril de 1964, fugiu para o interior do Rio Grande do Sul, onde se refugiou em uma fazenda perto da fronteira com o Uruguai.

Em 4 de abril, o já ex-presidente João Goulart pedia asilo político naquele país. Começavam assim, os Anos de Chumbo: duas décadas em que o cenário político brasileiro foi ocupado por uma das mais violentas e repressoras ditaduras militares da América Latina.

Segue o trecho de uma carta enviada do exílio por João Goulart aos brasileiros:

"Dirijo-me ao povo brasileiro nesta hora de angústias e sofrimentos. Deposto por um golpe de força, observo, entristecido, cair a máscara do grupo militar que assaltou o poder. Instalaram um governo ficticiamente constitucional e, desde a quartelada, nenhuma medida a favor do país foi posta em prática, nenhuma perspectiva foi aberta pela ditadura para a solução dos graves e complexos problemas com que vem lutando o Brasil. Tudo o que tem feito parece revelar o deliberado propósito de agravar o sofrimento do povo. (...)

Os grupos estrangeiros possuidores de moeda forte gravitam em torno das empresas nacionais para adquiri-las a preços vis. E os industriais brasileiros acabam cedendo, com a agravante de deslocar para o exterior o fruto daquelas vendas, à falta de condições para nossos investimentos no Brasil. Temos, desse modo, o quadro desolador de desnacionalização e descapitalização do país .(...)

As reformas de base, preconizadas pelo meu governo e indispensáveis à demarragem de um país subdesenvolvido, são hoje apresentadas de forma caricatural por homens superados política e historicamente e que tentam empulhar a opinião pública brasileira, suficientemente esclarecida e politizada para não aceitar tais mistificações. (...)"

Jango sendo fotografado pela esposa Maria Thereza, durante o isolamento político do exílio no Uruguai



Do exílio no Uruguai, Jango tentou inutilmente articular sua resistência política, até morrer de enfarte na Argentina, em 1976.
Existem rumores de que Jango tenha sido assassinado por agentes da Operação Condor, que foi um intercâmbio entre ditaduras militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai), apoiadas pela CIA (Agência Central de Inteligência do Estados Unidos), para aniquilarem seus opositores.
 
Na edição do jornal Folha de São Paulo, que circulou em 27 de janeiro de 2008, foi publicada uma matéria com a declaração do ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro, onde ele afirma que João Goulart foi envenenado por ordem do então delegado do DOPS (Departamento da Ordem Política e Social), Sérgio Fleury.

A autorização, segundo Neira, teria partido do presidente brasileiro na época, General Ernesto Geisel (1908-1996).

quarta-feira, 9 de março de 2016

CHARRETES DE APARECIDA: EXPLORAÇÃO ANIMAL, SOFRIMENTO E DOR ENDOSSADOS PELA COMUNIDADE CATÓLICA





Rosangela Vegana Coelho

Cássio Ribeiro 

Impressões de uma pessoa:

Sentada em uma charrete. À minha frente, um cavalo atrelado, preso, subjugado.

Sentar na charrete foi a forma de conseguir mais informações com um charreteiro na católica cidade de Aparecida do Norte, no Vale do Paraíba paulista, a chamada Terra da Padroeira.  

 



A expressão de sofrimento desse sensível animal esconde sua imponência. Expressão de um ser conformado com sua condição de escravo.

Roubamos seu descanso em verdes pastos, suas brincadeiras de rolar e relinchar com seus irmãos.


E ele tenta se abrigar do sol sob a sombra da árvore, buscando piedade.

Roubamos seu sonho e sua identidade. E roubamos sua esperança.




E aqui está, impossibilitado de reconhecer-se como cavalo e, paradoxalmente, a mesma dor que lhe faz mover, a dor causada pelos freios, pela chicotada, é a mesma que lhe põe imóvel, conformado de ter sua alma aprisionada e sua liberdade roubada.


Sua beleza e “força” são, agora, atração turística.





Constatação de uma ativista:




Debaixo do manto sangra e chora uma alma. A pata traseira direita erguida indica cansaço.

A respiração anormal e ofegante confirma. Mas logo um cavalo cansado? Sim, de ser explorado! E olha que para chegar a esse estado tem que sofrer um bocado; e ser demais, bem demais da conta judiado.



E se tem sofrimento e tormento que seja intensificado. A charrete na sombra e ao sol o sofrido cavalo. Ninguém se preocupa para que o pobre do bicho, do sol, seja retirado.

 Num sol de quase 10 e meia da manhã, ...

lá está exposto o pobre cavalo. Não há água, capim ou ração por perto. Mas o chicote, esse, em cada charrete é fácil encontrá-lo. Ninguém esquece o algoz acelerador do cavalo. A pata esquerda traseira erguida indica incômodo e cansaço



É a alma de uma espécie historicamente explorada por homens e mulheres “de boa vontade” que vêm oferecer uma prece para uma santa que chamam de Aparecida.



A casa é grande. É a Basílica que acolhe santos fiéis que, movidos pela devoção por aquela que dizem ser a Mãe dos Oprimidos,  percorrem distâncias imensas para ali estar.





E de oprimidos a opressores! Basta pagar 20 reais, sentar-se com mais 7 santos fiéis, apreciar a chicotada inicial, o vento roçando o rosto debaixo da sombra da carruagem da fé.




Que aprazível! São 7 quilômetros entre ida e volta, correndo entre os carros, debaixo de um céu azul e temperatura de quase 40 graus.


Enquanto isso segue a feira e, de rostos virados, pensando em comprar, ninguém se atina para os donos das crinas  bem perto dali, por dentro a chorar.

As lonas da feira garantem a sombra com os picos da Serra da Mantiqueira, ao longe, tudo a velar.


Quem sabe num belo dia, com esse lindo cenário ao fundo, o sofrimento dos cavalos cessará.

Mas, como o trabalho continua, de vez em quando, o puxador  da carruagem da fé faz menção de querer parar, preguiçoso que é, não aguenta tracionar até míseros 350 quilos, reclama de lesões nos pulmões causadas pelos gases emitidos pelos carros.


Criatura sem fé! Não aguenta carregar pessoas santas por apenas 10 horas diárias, fazendo e refazendo o sacro percurso sob o som de risadas e festejos, numa espécie de pós-moderna via-sacra diária e silenciosamente sofrida por que não pode falar, muito menos reivindicar um desesperado socorro.

Um pouco mais de chicotada, uma puxada nas rédeas e tudo volta para a tão admirada normalidade. E o condutor de santos segue resignado pela dor que lhe edificará, afinal, está servindo. A dor é causada pelos freios na boca, a desidratação e músculos exauridos, tudo junto.





Após 10 horas de serviço sacro, sob o Manto Sagrado de Nossa Senhora Aparecida, ele recebe sua remuneração: um bocado de água e uma porção de ração.
 

E vem o esperado repouso noturno mas ele não conseguirá ter um sono tranquilo, pois as cãibras lhes são companhia.

As dores em seus músculos, as dores das articulações atrofiadas,  os nervos em situação de farrapos. Dor em toda parte do corpo.  Dor naquilo que ainda restou de alma.





Não haverá remédios para aliviar e o condutor de santos passará a noite sentindo todas essas dores.


E os santos romeiros devotos...


Eles estarão em suas casas ou em algum quarto de hotel no “sono dos justos”, repousando, para no dia seguinte fazerem novamente o "Percurso da Fé."




Ativistas da causa dos direitos animais marcaram uma manifestação para o dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, no ano passado (2015).

O reitor da Basílica na ocasião, Padre João Batista, agendou uma reunião para dias depois do dia 12, tendo sido por esse motivo a manifestação cancelada. 

A reunião, que seria realizada com a presença de, além de ativistas, uma veterinária e uma advogada especializada na causa dos direitos animais, foi cancelada pela direção da Basílica às vésperas de sua realização.

Atualmente, tenta-se marcar outra reunião e os ativistas aguardam retorno da secretária da reitoria da Basílica, o que deve ocorrer após a Semana Santa.

A Lei Federal 9.605/98 - art.32 é clara ao dizer que é crime MALTRATAR ou ABANDONAR qualquer animal. Porque então ninguém atenta para tanto sofrimento em Aparecida à vista de todos?

Abaixo, uma reprodução relevante do trecho de um texto produzido pela filósofa, escritora e ativista dos direitos animais, Dra. Phil Sônia T. Felipe. O título do texto é DOÍDA TRAÇÃO, DOLOROSA ATRAÇÃO: 

O que é preciso fazer para transformar em atração turística uma carroça destinada a puxar turistas desavisados por uma ilha, cidade ou estância mineral?


É preciso atrelar um animal a essa carroça. Uma égua, um cavalo. Ou dois. Um animal que tenha uma constituição apropriada para tracionar cargas, pensa a maioria das pessoas. Concluímos, por termos sido desinformados sobre a real natureza da musculatura equina, que os músculos e o esqueleto da égua e do cavalo são uma espécie de força motricional natural para resolver nossos problemas de arrastar pesos inertes pelos campos ou cidades, sejam eles luxo ou lixo.

O que não sabemos, porque isso não é revelado por ninguém  que diz “amar os cavalos”, excetuando-se os equinólogos da Haute École Nevzorov (Alexander Nevzorov e Lydia Nevzorova), é que um cavalo só pode ser mantido atrelado a um objeto com espaço para qualquer tipo de carga, humana ou residual, usando-se a boca do animal para infligir-lhe dores intensas, que repercutem como choques nos nervos craniais que por ali passam, sem os quais o animal não se moveria.
 
 O freio na boca do cavalo agride violentamente os tecidos da mucosa bucal, pressiona, de tal modo, a língua, que chega a atrofiá-la, impacta as parótidas a ponto de a saliva produzida ter o aspecto de uma baba espumosa, levando a uma alteração no pH do estômago que causará úlceras, cólicas e a morte do animal.

Cada travada da carroça, para diminuir a velocidade ou parar de todo, custa ao cavalo uma dor lancinante, pela pressão dos ferros instalados dentro de sua boca. Uma carroça, seja ela tracionando lixo ou luxo, só pode ser parada com dor. Para fazer com que uma carroça retome o movimento, é preciso infligir dor, não a ela, obviamente, mas ao animal atrelado a ela, àquele que a traciona. Simples assim. É assim que as coisas funcionam no mundo da “tração equina”.

No comando da sessão de tortura de fazer uma carroça carregada de turistas ou de entulho mover-se, ou parar, é preciso ter alguém disposto a produzir dores lancinantes na boca do animal, quer o saiba, quer não. Sem essa dor, o cavalo não se move. E, para isso, ele tem uma boa razão....

....A sessão de tortura é completa. Praticamente, não há uma área do corpo de um cavalo usado para tração e atração turística, ou para tracionar carga inerte, monta, lixo, luxo ou entulhos, que não esteja lesada. Ao atrelarmos esse animal e privarmos seu espírito da liberdade de mover-se de modo a preservar-se saudável, infligimos a ele as lesões dolorosas que jamais chegamos a ver quando o olhamos trotando pelas ruas com a carroça cheia de turistas aboletados em seus assentos ou nas cavalgadas, com dezenas de sedentários aboletados sobre o lombo ferido deles.

 
As lesões são tantas que chegam a matar o animal, ainda atado à carroça. Estranhamente, para quem não tem acesso às informações sobre a fisiologia e a psicologia equina, o cavalo morre esgotado, amarrado ao artefato de tortura que lhe sugou a força, a saúde e a vida. E, pensam as pessoas desavisadas, ele não “parecia” doente, “ele não dava sinal de dor ou doença”! É que a gente está muito acostumada a gemer, gritar por socorro e a pedir que nos ajudem, quando sofremos dores estranhas lancinantes, ou quando somos torturadas. 

Na natureza, o desenho da mente de um equino, como o da mente de um bovino, não foi projetado para fazer o animal manifestar a dor através de sons ou vocalizações. Isso atrairia os predadores para o animal ferido, dorente ou sofrente (na expressão de Sir Dr. Richard D. Ryder, que cunhou os termos painism e painient em 1990, em seu livro Painism).

Esses animais estão morrendo de dor e não soltam um relincho. Eles têm medo de relinchar de dor. Medo de serem mortos pelos predadores. O que eles fazem, quando estão dorentes e sofrentes? Eles ficam parados e não emitem som algum. Essa é a linguagem equina de expressão da dor,  análoga à bovina. 


A dor na boca é intensa, com aquele ferro enfiado lá dentro. Os cavalos o mastigam sem parar. E há quem explique que essa “mastigação” do freio é “vício”. Dois erros não fazem um acerto. Colocar o freio na boca de um cavalo é machucá-la na certa. Explicar que ele mastiga esse ferro que o machuca por vício é humilhá-lo. Sem mãos para arrancar da própria boca o instrumento de tortura, o animal o mastiga, desesperadamente, na expectativa de o expulsar dali.

Se alguém quer ter uma provinha do tormento do cavalo com freio na boca, coloque agora uma caneta atravessada sobre sua língua, enquanto lê o texto até o final. Apare a baba com um guardanapo, porque engolir direito será impossível.

Se quiser saber o que é o dia de um cavalo, passe suas oito horas de trabalho com a caneta atravessada sobre a língua. Melhor mesmo seria uma barra de metal, para sentir o gosto dele na boca o dia todo. Ah! Peça para alguém travar a barra com um cadeado atrás de sua nuca, para que não possa arrancar esse troço dali com as mãos. O jeito será passar o dia “mastigando” viciosamente o objeto.


Não bastasse a dor na boca, as fraturas nos dentes molares (justamente os que o animal precisa para mastigar a comida), causadas pelo puxão do freio, seja quando a carroça está se movendo muito rapidamente, seja quando o cavalo se recusa a dar partida (a linguagem equina para dizer ao “inteligente humano” que ele está dorente), o cavalo leva umas chibatadas que atritam os tecidos de seu lombo ou flancos a ponto de os “incendiar” ou inflamar." CONTINUA....

 O TEXTO COMPLETO PODE SER LIDO EM: http://justificando.com/2015/03/17/doida-tracao-dolorosa-atracao/ 

É importante deixar claro, saber e reconhecer que trabalhadores tiram seu sustento e o de suas famílias por meio do trabalho com os cavalos.


A solução necessária para pôr fim ao sofrimento dos equinos em Aparecida sem acabar com o emprego e o sustento dos trabalhadores é a alternativa da adoção do cavalo de lata.



Com o cavalo de lata, a tração animal é substituída pela tração de motores elétricos. Não é uma alternativa muito barata, e o preço chega a passar dos 10 mil reais por cada unidade implantada no turismo, mas, em se tratando da administração financeira da Basílica Nacional de Aparecida, com sua vultosa arrecadação mensal por meio dos bens que incluem lojas no Shopping do Romeiro,  espaços na feira, lojas espalhadas no polo turístico da cidade, impostos, doações, um canal de TV e uma rede de rádio, além de diversas outras formas de arrecadação, não é nenhum sacrifício financeiro para a administração da Basílica Nacional adquirir  as versões de charretes movidas à tração elétrica dos Cavalos de Lata. 


São várias empresas no Brasil que fabricam esse tipo de veículo. A cessação do sofrimento sem que trabalhadores fiquem sem seu emprego é uma responsabilidade direta da administração da Basílica,  tanto em termos financeiros quanto em termos cristãos em si no que tange à compaixão pelos cavalos que sofrem.



Essa transição entre a tração animal e a adoção do Cavalo de Lata como  tração para o transporte de carga ou para o turismo já é bem comum no Brasil, e exemplos de sua prática não faltam


Na capital baiana, Salvador, a câmara dos vereadores aprovou por unanimidade, em 2013, a implantação do projeto Cavalo de Lata para substituir as corroças de coleta de material reciclável puxadas por animais.



O autor da proposta em Salvador foi o vereador Marcell Moraes (PV), que na ocasião buscou parceria com cooperativas de coleta seletiva de Salvador: "São muitos os casos de animais que morrem ou ficam inválidos devido ao peso das cargas. Além disso, a ideia é possibilitar uma coleta de material reciclável mais eficiente, colaborar com o trânsito da cidade, valorizar os profissionais catadores e entidades, além de evitar transmissão de doenças que são provocadas pelas fezes e urinas dos animais nas ruas.Trata-se de uma ideia sustentável, de proteção aos animais e de responsabilidade social e econômica”, explica o vereador.
 
Em Porto Alegre-RS, desde o dia 03 de março desse ano (2016), começou a implantação da substituição das carroças da cidade por cavalos de lata.


A previsão da prefeitura de Porto Alegre é de que até setembro desse ano todas as carroças da cidade já tenham sido substituídas pelos cavalos de lata.

Outro ótimo exemplo da transição para o uso do cavalo de lata, só que no campo de atividade turística como ocorre em Aparecida, é o observado na Ilha de Paquetá, que fica localizada na Baía de Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro.



Lá, já está em andamento o processo de licitação para aquisição dos cavalos de lata que serão usados nos passeios turísticos pela Ilha.



Percebe-se que não seria nenhum sacrifício financeiro para a administração da Basílica Nacional de Aparecida implantar tal projeto e finalizar o sofrimento e a exploração animal naquela cidade religiosa. Basta simplesmente querer. É sempre importante reforçar que os trabalhadores também não podem, em hipótese alguma, ficar sem seu trabalho e seu sustento com o fim das charretes.

Toda essa reivindicação se justifica basicamente por um simples motivo:

Já se vão mais de cinco séculos que observou-se o fim da Idade Média da existência humana.

 
A tração animal em transporte público, como a adotada nesse bonde acima, terminou na segunda década do século passado (Século 20), portanto 100 anos ou há um século.

Hoje, em pleno correr do século 21, não se justifica mais em nenhum aspecto a utilização de uma sofrida e dolorosa tração como a animal, a não ser por simples e irrelevantes "caprichos românticos" de exemplares de uma espécie, o homem, que insiste em ser dominadora sobre as outras em função do seu prazer; de fato uma espécie de sadismo secular

Logo, quando se fala em caprichos, nada nesse sentido poderia ou poderá ser a sombra de algo que venha a se sobrepor e ser mais importante do que a cessação do sofrimento de vidas sencientes.

Um cavalo criado de forma saudável e correta consome cerca de 80 quilos de ração por mês, além de cenouras, frutas, vitaminas e capim. Um custo mensal que varia entre 200500 reais todo mês. Esse é mais um fator que justifica a adoção da tração elétrica do cavalo de lata, seguramente bem mais barata do que a tração animal, além de que, com a adoção da tração elétrica, acaba-se com qualquer tipo de sofrimento; só isso já é a principal justificativa para a substituição.  

Diante de tantas justificativas e motivos, fica claríssimo que já basta de sofrimento com a tração animal em Aparecida e em todos os outros lugares onde ela ainda é usada; já passou do tempo, há tempos, de cessar o sofrimento.