segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ARAL: O MAR QUE AGONIZA






Por Cássio Ribeiro

O Mar de Aral já foi o 4° maior lago ou mar interior do mundo, com uma área inicial de 68 mil quilômetros quadrados.  Assim como o Mar Cáspio e o Mar Negro, sua formação ocorreu há cerca de 5,5 milhões de anos, devido a uma diminuição no nível dos mares.




O Mar de Aral se tratava originalmente de um rico ecossistema que reunia peixes, pássaros e muitos outros animais selvagens, mas começou a encolher e perder seu volume de água a partir de 1960, quando a então União Soviética começou a drenar as águas dos rios que o alimentavam (Rio Syr, ao norte; e Rio Amu, mais ao sul) para a irrigação de imensas plantações de arroz, melões cereais e algodão, chamado pelos soviéticos na ocasião de Ouro Branco.


Como resultado, os níveis de água do Aral cairam rapidamente em 50 anos, e atualmente, a área ocupada pelo Mar já diminuiu 90%, dividindo-o em dois pequenos lagos, chamados Aral do Norte e Aral do Sul. Muitos cientistas afirmam que o ocorrido trata-se da transposição para irrigação mais mal administrada da História.



 Localização do Mar de Aral no mapa da Ásia, com a representação do lago original dentro do retângulo, antes do início da seca registrada


E a mesma representação num mapa em escala maior, onde são observados na Ásia Central os rios que alimentavam o Aral antes das transposições: Rio Syr, ao norte; e Rio Amu, ao sul (clique para ampliar as imagens)



Comparativo com imagens de satélite que mostram a secagem gradativa o Aral entre 1977 e 2006



Seca gradativa representada em tons de azul entre1960 e 2000


Aral do Norte e Aral do Sul atualmente


O encolhimento do Mar de Aral é considerado o maior desastre ecológico causado pelo homem no mundo. Com a seca gradativa e rápida, problemas gravíssimos começaram a surgir. A pesca comercial local, que nos anos 80 sustentava cerca de 60 mil pessoas com a produção de 40 mil toneladas de peixe por ano, está praticamente extinta.









Além do desemprego e das dificuldades econômicas geradas, a região do Aral é extremamente poluida, o que gera gravíssimos problemas de saude pública. A seca do Mar do Mar também já influencia nas mudanças climáticas locais, com verões cada vez mais secos e invernos cada vez mais frios.





A poeira proveniente das tempestades de areia vindas do leito do lago seco, carregada de agrotóxicos e outros produtos químicos, associadas à queima de combustíveis fósseis, tem causado graves problemas respiratórios entre a população da região.
 





Os soviéticos conseguiram irrigar o deserto às custas do desastre ambiental, e hoje, sua ex-república, o Uzbequistão, é um dos maiores exportadores de algodão do mundo.


Muitos dos canais foram mal construídos, permitindo uma evaporação e a consequente perda de até 75% da água transportada.


Em contrapartida, a então União Soviética afirmava que o Aral já estava naturalmente condenado, pois sua extinção ocorreria certamente com o passar do tempo, não sendo o desvio das águas dos rios que o alimentavam o fator determinante para o seu fim. Alguns especialistas soviéticos afirmavam que o Aral era um "erro da natureza", e que era óbvio que a evaporação do lago seria algo inevitável.




No verão de 2003, o sul do Mar de Aral estava desaparecendo mais rápido do que o previsto. Nas partes mais profundas do mar, as águas do fundo eram mais salgadas do que as do topo, e ambas não se misturavam. Assim, apenas a parte superior do mar foi aquecida no verão, e evaporou-se mais rapidamente do que estava ocorrendo até então




Em 2004, a área da superfície do Mar de Aral era de apenas 17.160 quilômetros quadrados, ou 25% de seu tamanho original, havendo ainda  um aumento significativo dos níveis de salinidade.




Em 2007, a área do Aral  já tinha diminuido para 10% do seu tamanho original, e a salinidade já era de 100 gramas por litros de água (a salinidade original antes do desastre ambiental era de 35 gramas por litro). 



Em outubro de 2003, o governo do Cazaquistão anunciou um plano para construir uma barragem de concreto que separa as duas metades do Mar de Aral (norte e sul).



A barragem foi concluída em agosto de 2005 e, desde então, o nível da água do Aral do Norte subiu um pouco e sua salinidade diminuiu. A partir de 2006, uma pequena recuperação do nível do mar foi observada, possibilitando uma modesta volta da atividade pesqueira na região do norte. 
 

 
Um comparativo entre imagens de satélite mostram uma modesta recuperação no Aral do Norte: na imagem de baixo, o lago do norte em 2005 e antes da construção da barragem; e na imagem de cima, o mesmo lago um ano depois, em 2006, com a barragem já concluída. Nota-se que o processo destrutivo é muito mais rápido do que o observado durante a recuperação




Em 2008, o nível de água no Aral do Norte já havia subido 24 metros, o que representa 50% de aumento em relação ao nível de água observado antes da construção da barragem. O Mar, que havia recuado quase 100 quilômetros ao sul da cidade portuária de Aralsk, está agora a apenas 25 quilómetros da mesma. 


 Já o Aral do Sul, que fica no Uzbequistão, bem mais pobre que o Cazaquistão, ao norte, continua abandonado à própria sorte. Apenas o pequeno excedente de água do Aral do Norte, quando há, é permitido fluir para o Aral do Sul.


O ocorrido com o Mar de Aral deixa claro que obras de transposição como a do Rio São Francisco, no Brasil, embora de extrema importância emergencial para a resolução da seca no Nordeste Brasileiro, devem ser realizadas com minucioso planejamento e, principalmente, com estudos prévios aprofundados sobre as consequências ambientais posteriores, a fim de que não se leve vida e riqueza para uma região em função de impactos ambientais destrutivos e da aniquilação de outra.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ECOS E FLASHS DOS ANOS DE CHUMBO 1





Por Cássio Ribeiro

O dia 1º de abril é considerado por muitos o dia da mentira. Essa data, porém, marcou para sempre a História do Brasil, em 1964. 
Faltando 2 meses para o Golpe Militar que depôs o presidente João Goulart completar 49 anos, este blog fará, em duas edições, uma viagem pelas causas e consequências dos violentos Anos de Chumbo; anos em que no Brasil foi abolido o direto democrático de pensar, de ter ideologia e de ir e vir. Todos eram culpados até que se provasse o contrário naqueles tempos.


As articulações que mais tarde resultariam na derrubada do presidente escolhido democraticamente pelo povo tiveram início uma década antes do golpe que os militares insistem em chamar de revolução, apesar de jamais terem ocorrido mudanças nas estruturas sociais e econômicas visando o bem do povo durante o movimento político-militar que originou a Ditadura Brasileira.


Em fevereiro de 1954, João Goulart era o Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e foi afastado por um manifesto assinado por coroneis, depois de aumentar o salário mínimo em 100%. 
As atitudes de Jango, como era popularmente conhecido, desagradaram os grandes empresários e os militares conservadores de alta patente. Os coroneis que assinaram o manifesto em 1954 eram os generais conspiradores, uma década depois, na fria e chuvosa madrugada do dia 1º de abril do outono de 1964.

Com a derrubada da República Velha, em 1930, o crescimento da industrialização brasileira produziu um significativo aumento da classe trabalhadora concentrada nos meios urbanos. O atendimento das reivindicações dessa massa trabalhadora, visando sua aproximação com o Estado, além do controle, da condução e da manipulação das aspirações dos operários, era o chamado Populismo.


O Populismo foi explorado politicamente por Getúlio Vargas, que o usava principalmente na ideologia de seu segundo mandato (1951-1954), para garantir a simpatia dos trabalhadores, mas também estimulava a oposição dos grandes empresários e dos militares e políticos conservadores, formadores da Elite Católica Conservadora Brasileira. Foi essa Elite que conspirou para derrubar Vargas em 1954 e, como João Goulart era uma espécie de herdeiro político do populismo getulista, também foi destituído da Presidência em 1964 pela mesma Elite.


A derrubada de Jango em 1954 e 1964 representava uma interrupção da política populista de Vargas pela elite dominante e conservadora brasileira



João Goulart chegou à Presidência da República depois que Jânio Quadros renunciou, em 1961, sem que nunca tenha ficado claro o motivo. O fato é que o Brasil havia se tornado aliado próximo dos Estados Unidos ao fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, e os comunistas brasileiros passaram a ser perseguidos desde então.


O Partido Comunista Brasileiro foi classificado como fora da lei pelo governo brasileiro, que também rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética.


Nos 7 meses do governo de Jânio Quadros, que durou de fevereiro até agosto de 1961, o Brasil reatou suas relações diplomáticas com o bloco comunista internacional da época, ao se reaproximar da União Soviética e do governo de Fidel Castro, em Cuba, o que desencadeou intensos protestos do governo norte-americano.


Além disso, a elevação em 50% do imposto sobre as importações dos produtos norte-americanos, e sobre os investimentos dos lucros das companhias locais nos Estados Unidos, bloqueava parte da acumulação de capitais, indo de encontro aos interesses do imperialismo mundial e da classe dominante brasileira.





A polêmica figura de Jânio Quadros


A gota d’água que faltava para as pressões sobre o governo de Jânio Quadros chegarem a níveis insuportáveis foi a condecoração do guerrilheiro Ernesto Che Guevara com a medalha da Ordem Cruzeiro do Sul, oferecida por Jânio. Guevara foi, ao lado de Fidel Castro, o principal nome da Revolução Cubana, em 1959.



Condecoração de Enesto Che Guevara ...


Ato que despertou a ira da oposição conservadora


A condecoração dada ao revolucionário fez desabar uma tempestade oposicionista sobre o governo de Jânio, vinda do Congresso Nacional e da imprensa, liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara.
Lacerda, em rede nacional de TV, acusou Jânio Quadros de estar idealizando um regime igual ao de Cuba para o Brasil. Diante das pressões, Jânio Quadros renunciou na esperança de que, em função de sua popularidade, fosse recolocado no poder pelo povo brasileiro, fato que não aconteceu. 
Para aonde vai Jânio Quadros? A famosa foto com o registro do ex-presidente após a renúncia



O sucessor legal de Jânio, previsto pela Constituição, era o vice-presidente João Goulart, que para 'piorar' ainda mais a situação, estava visitando a República Popular da China Comunista. 
 
A atuação política de Jango, além do cunho Populista herdado de Getúlio Vargas, era também identificada como comunista pelas forças conservadoras brasileiras; sendo que, na União Soviética, o nome de Jango era citado de forma simpática pelos jornais.

Alegando motivos de segurança nacional, os ministros militares não aceitavam João Goulart como presidente. Foi então promulgada a Emenda Constitucional número 4, onde o Parlamentarismo foi instituído como novo sistema de governo do Brasil, em 2 de setembro de 1961.
 


No Parlamentarismo, Jango seria apenas chefe de Estado, e o comando político do governo brasileiro ficaria a cargo de um primeiro-ministro e do Conselho de Ministros. Restava ao presidente apenas uma posição politicamente secundária no sistema parlamentarista adotado.


Jango buscou o apoio da opinião pública para a realização de um plebiscito onde o povo pudesse escolher entre os sistemas presidencialista e parlamentarista. Em abril de1963, o presidencialismo foi restabelecido pela escolha popular, numa proporção de 5 votos para 1 voto dado ao sistema parlamentarista.
Jango conseguiu finalmente o poder de um presidente da República, e logo pôs em prática as chamadas "Reformas de Base" (reforma administrativa, reforma fiscal, reforma agrária e reforma bancária), que junto com a taxa de inflação na casa dos 73,5%, em 1963, contribuíram para inflamar os ânimos dos que se opunham a João Goulart.
O Presidente João Goulart

As pressões sobre Jango vinham da Elite Conservadora Católica, a mesma que colocara Getúlio Vargas no centro da crise que o levou ao suicídio, em agosto de 1954, e a mesma Elite Conservadora e neoliberal que vendeu o Brasil por meio de privatizações e, de quebra, ainda explora a massa pobre da população, impedindo por meio da manipulação da opinião pública, através do domínio da grande mídia, a possibilidade de mudanças significativas no sistema econômico, social e educacional do Brasil atualmente.


Os pretextos que faltavam para o golpe contra a democracia brasileira ser deflagrado aconteceram em duas ocasiões bem claras. Primeiro, o comício realizado na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964; ocasião em que Jango assinou decretos de desapropriação de áreas improdutivas localizadas às margens de rodovias e ferrovias, e de nacionalização das refinarias de petróleo, além do monopólio do controle estatal sobre a importação desse produto.
Naquela sexta-feira 13, Jango também deu um ultimato aos militares ultraconservadores: se tentassem deflagrar um golpe de Estado, enfrentariam a esquerda finalmente unida, pronta para o combate e apoiada na vontade do povo.


Jango ao lado da esposa Maria Teresa Goulart, durante o inflamado discurso ... 





no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964

A outra ocasião decisiva para o execução do Golpe Militar aconteceu entre os dias 25 e 27 de março de 1964, quando 1200 marinheiros se reuniram no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, e saíram em passeata com quepes e golas virados para trás, na chamada Revolta dos Marinheiros. O governo de João Goulart apoiou os marinheiros e foi duramente criticado por oficiais das três forças armadas.


Em 30 de março, João Goulart discursou no Automóvel Clube do Rio de Janeiro para uma platéia de 2 mil sargentos; entre eles, muitos dos marinheiros revoltosos de alguns dias antes. Na ocasião, Jango também respondeu às críticas dos oficiais. O então senador Amaral Peixoto acompanhava as cenas pela TV de seu apartamento e disse em tom profético: "O Jango já não é presidente da República."


No dia seguinte, já na noite de 31 de março de 1964, o Golpe Militar começou em Juiz de Fora, Minas Gerais, sob o rótulo de movimento democrático contrário às ameaças comunistas.
Os militares de Minas logo receberam apoio dos comandos do Exército em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio grande do Sul. Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, a "procissão" de tanques veio às ruas. O barulho das velhas lagartas que giravam movimentando os carros de combate se confundia com o som dos motores dos tanques e jipes verdes ocupados por soldados armados com grossos calibres.
Parte da força naval dos Estados Unidos deslocou-se para a costa brasileira, a fim de apoiar os golpistas caso houvesse guerra civíl. Em caso de conflito, os americanos também estavam prontos para reconhecerem imediatamente o novo governo militar golpista.





Na noite do dia 31 de março e madrugada do dia 1º de abril de 1964, os tanques tomaram as ruas e ...

na manhã do dia 1º de abril, o cenário das capitais brasileiras ...


era preenchido por carros de combate do Exército




No dia 1º de abril, João Goulart fugiu de Brasília para Porto Alegre, na tentativa de articular a resistência que jamais aconteceu. Jango percebeu como seus conselheiros militares e as chamadas "esquerdas radicais" estavam equivocados nas previsões relativas ao potencial de resistência.
 

O povo brasileiro assistiu a tudo passivamente. A greve geral convocada pelo CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) no dia 30 de março não teve nenhuma adesão; trens e ônibus trafegaram normalmente durante todo o dia 31 de março. Ninguém esboçou a mínima resistência.


Jango estava sozinho e, já no dia 2 de abril de 1964, fugiu para o interior do Rio Grande do Sul, onde se refugiou em uma fazenda perto da fronteira com o Uruguai. Em 4 de abril, o já Ex-Presidente João Goulart pedia asilo político naquele país. Começavam assim, os Anos de Chumbo: duas décadas em que o cenário político brasileiro foi ocupado por uma das mais violentas e repressoras ditaduras militares da América Latina.
 

Segue o trecho de uma carta enviada do exílio por João Goulart aos brasileiros:


Dirijo-me ao povo brasileiro nesta hora de angústias e sofrimentos. Deposto por um golpe de força, observo, entristecido, cair a máscara do grupo militar que assaltou o poder. Instalaram um governo ficticiamente constitucional e, desde a quartelada, nenhuma medida a favor do país foi posta em prática, nenhuma perspectiva foi aberta pela ditadura para a solução dos graves e complexos problemas com que vem lutando o Brasil. Tudo o que tem feito parece revelar o deliberado propósito de agravar o sofrimento do povo. (...)



Os grupos estrangeiros possuidores de moeda forte gravitam em torno das empresas nacionais para adquiri-las a preços vis. E os industriais brasileiros acabam cedendo, com a agravante de deslocar para o exterior o fruto daquelas vendas, à falta de condições para nossos investimentos no Brasil. Temos, desse modo, o quadro desolador de desnacionalização e descapitalização do país .(...)


As reformas de base, preconizadas pelo meu governo e indispensáveis à demarragem de um país subdesenvolvido, são hoje apresentadas de forma caricatural por homens superados política e historicamente e que tentam empulhar a opinião pública brasileira, suficientemente esclarecida e politizada para não aceitar tais mistificações. (...)



Jango sendo fotografado pela esposa Maria Teresa, durante o isolamento político do exílio no Uruguai




Do exílio no Uruguai, Jango tentou inutilmente articular sua resistência política, até morrer de enfarte na Argentina, em 1976. Existem rumores de que Jango tenha sido assassinado por agentes da Operação Condor, que foi um intercâmbio entre ditaduras militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai), apoiadas pela CIA (Agência Central de Inteligência do Estados Unidos), para aniquilarem seus opositores.



Na edição do jornal Folha de São Paulo, publicada em 27 de janeiro de 2008, foi publicada uma matéria com a declaração do ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro, onde ele afirma que João Goulart foi envenenado por ordem do então delegado do DOPS (Departamento da Ordem Política e Social), Sérgio Fleury. A autorização, segundo Neira, teria partido do presidente brasileiro na época, General Ernesto Geisel (1908-1996).