segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ARAL: O MAR QUE AGONIZA






Por Cássio Ribeiro

O Mar de Aral já foi o 4° maior lago ou mar interior do mundo, com uma área inicial de 68 mil quilômetros quadrados.  Assim como o Mar Cáspio e o Mar Negro, sua formação ocorreu há cerca de 5,5 milhões de anos, devido a uma diminuição no nível dos mares.




O Mar de Aral se tratava originalmente de um rico ecossistema que reunia peixes, pássaros e muitos outros animais selvagens, mas começou a encolher e perder seu volume de água a partir de 1960, quando a então União Soviética começou a drenar as águas dos rios que o alimentavam (Rio Syr, ao norte; e Rio Amu, mais ao sul) para a irrigação de imensas plantações de arroz, melões cereais e algodão, chamado pelos soviéticos na ocasião de Ouro Branco.


Como resultado, os níveis de água do Aral cairam rapidamente em 50 anos, e atualmente, a área ocupada pelo Mar já diminuiu 90%, dividindo-o em dois pequenos lagos, chamados Aral do Norte e Aral do Sul. Muitos cientistas afirmam que o ocorrido trata-se da transposição para irrigação mais mal administrada da História.



 Localização do Mar de Aral no mapa da Ásia, com a representação do lago original dentro do retângulo, antes do início da seca registrada


E a mesma representação num mapa em escala maior, onde são observados na Ásia Central os rios que alimentavam o Aral antes das transposições: Rio Syr, ao norte; e Rio Amu, ao sul (clique para ampliar as imagens)



Comparativo com imagens de satélite que mostram a secagem gradativa o Aral entre 1977 e 2006



Seca gradativa representada em tons de azul entre1960 e 2000


Aral do Norte e Aral do Sul atualmente


O encolhimento do Mar de Aral é considerado o maior desastre ecológico causado pelo homem no mundo. Com a seca gradativa e rápida, problemas gravíssimos começaram a surgir. A pesca comercial local, que nos anos 80 sustentava cerca de 60 mil pessoas com a produção de 40 mil toneladas de peixe por ano, está praticamente extinta.









Além do desemprego e das dificuldades econômicas geradas, a região do Aral é extremamente poluida, o que gera gravíssimos problemas de saude pública. A seca do Mar do Mar também já influencia nas mudanças climáticas locais, com verões cada vez mais secos e invernos cada vez mais frios.





A poeira proveniente das tempestades de areia vindas do leito do lago seco, carregada de agrotóxicos e outros produtos químicos, associadas à queima de combustíveis fósseis, tem causado graves problemas respiratórios entre a população da região.
 





Os soviéticos conseguiram irrigar o deserto às custas do desastre ambiental, e hoje, sua ex-república, o Uzbequistão, é um dos maiores exportadores de algodão do mundo.


Muitos dos canais foram mal construídos, permitindo uma evaporação e a consequente perda de até 75% da água transportada.


Em contrapartida, a então União Soviética afirmava que o Aral já estava naturalmente condenado, pois sua extinção ocorreria certamente com o passar do tempo, não sendo o desvio das águas dos rios que o alimentavam o fator determinante para o seu fim. Alguns especialistas soviéticos afirmavam que o Aral era um "erro da natureza", e que era óbvio que a evaporação do lago seria algo inevitável.




No verão de 2003, o sul do Mar de Aral estava desaparecendo mais rápido do que o previsto. Nas partes mais profundas do mar, as águas do fundo eram mais salgadas do que as do topo, e ambas não se misturavam. Assim, apenas a parte superior do mar foi aquecida no verão, e evaporou-se mais rapidamente do que estava ocorrendo até então




Em 2004, a área da superfície do Mar de Aral era de apenas 17.160 quilômetros quadrados, ou 25% de seu tamanho original, havendo ainda  um aumento significativo dos níveis de salinidade.




Em 2007, a área do Aral  já tinha diminuido para 10% do seu tamanho original, e a salinidade já era de 100 gramas por litros de água (a salinidade original antes do desastre ambiental era de 35 gramas por litro). 



Em outubro de 2003, o governo do Cazaquistão anunciou um plano para construir uma barragem de concreto que separa as duas metades do Mar de Aral (norte e sul).



A barragem foi concluída em agosto de 2005 e, desde então, o nível da água do Aral do Norte subiu um pouco e sua salinidade diminuiu. A partir de 2006, uma pequena recuperação do nível do mar foi observada, possibilitando uma modesta volta da atividade pesqueira na região do norte. 
 

 
Um comparativo entre imagens de satélite mostram uma modesta recuperação no Aral do Norte: na imagem de baixo, o lago do norte em 2005 e antes da construção da barragem; e na imagem de cima, o mesmo lago um ano depois, em 2006, com a barragem já concluída. Nota-se que o processo destrutivo é muito mais rápido do que o observado durante a recuperação




Em 2008, o nível de água no Aral do Norte já havia subido 24 metros, o que representa 50% de aumento em relação ao nível de água observado antes da construção da barragem. O Mar, que havia recuado quase 100 quilômetros ao sul da cidade portuária de Aralsk, está agora a apenas 25 quilómetros da mesma. 


 Já o Aral do Sul, que fica no Uzbequistão, bem mais pobre que o Cazaquistão, ao norte, continua abandonado à própria sorte. Apenas o pequeno excedente de água do Aral do Norte, quando há, é permitido fluir para o Aral do Sul.


O ocorrido com o Mar de Aral deixa claro que obras de transposição como a do Rio São Francisco, no Brasil, embora de extrema importância emergencial para a resolução da seca no Nordeste Brasileiro, devem ser realizadas com minucioso planejamento e, principalmente, com estudos prévios aprofundados sobre as consequências ambientais posteriores, a fim de que não se leve vida e riqueza para uma região em função de impactos ambientais destrutivos e da aniquilação de outra.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ECOS E FLASHS DOS ANOS DE CHUMBO 1





Por Cássio Ribeiro

O dia 1º de abril é considerado por muitos o dia da mentira. Essa data, porém, marcou para sempre a História do Brasil, em 1964. 
Faltando 2 meses para o Golpe Militar que depôs o presidente João Goulart completar 49 anos, este blog fará, em duas edições, uma viagem pelas causas e consequências dos violentos Anos de Chumbo; anos em que no Brasil foi abolido o direto democrático de pensar, de ter ideologia e de ir e vir. Todos eram culpados até que se provasse o contrário naqueles tempos.


As articulações que mais tarde resultariam na derrubada do presidente escolhido democraticamente pelo povo tiveram início uma década antes do golpe que os militares insistem em chamar de revolução, apesar de jamais terem ocorrido mudanças nas estruturas sociais e econômicas visando o bem do povo durante o movimento político-militar que originou a Ditadura Brasileira.


Em fevereiro de 1954, João Goulart era o Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e foi afastado por um manifesto assinado por coroneis, depois de aumentar o salário mínimo em 100%. 
As atitudes de Jango, como era popularmente conhecido, desagradaram os grandes empresários e os militares conservadores de alta patente. Os coroneis que assinaram o manifesto em 1954 eram os generais conspiradores, uma década depois, na fria e chuvosa madrugada do dia 1º de abril do outono de 1964.

Com a derrubada da República Velha, em 1930, o crescimento da industrialização brasileira produziu um significativo aumento da classe trabalhadora concentrada nos meios urbanos. O atendimento das reivindicações dessa massa trabalhadora, visando sua aproximação com o Estado, além do controle, da condução e da manipulação das aspirações dos operários, era o chamado Populismo.


O Populismo foi explorado politicamente por Getúlio Vargas, que o usava principalmente na ideologia de seu segundo mandato (1951-1954), para garantir a simpatia dos trabalhadores, mas também estimulava a oposição dos grandes empresários e dos militares e políticos conservadores, formadores da Elite Católica Conservadora Brasileira. Foi essa Elite que conspirou para derrubar Vargas em 1954 e, como João Goulart era uma espécie de herdeiro político do populismo getulista, também foi destituído da Presidência em 1964 pela mesma Elite.


A derrubada de Jango em 1954 e 1964 representava uma interrupção da política populista de Vargas pela elite dominante e conservadora brasileira



João Goulart chegou à Presidência da República depois que Jânio Quadros renunciou, em 1961, sem que nunca tenha ficado claro o motivo. O fato é que o Brasil havia se tornado aliado próximo dos Estados Unidos ao fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, e os comunistas brasileiros passaram a ser perseguidos desde então.


O Partido Comunista Brasileiro foi classificado como fora da lei pelo governo brasileiro, que também rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética.


Nos 7 meses do governo de Jânio Quadros, que durou de fevereiro até agosto de 1961, o Brasil reatou suas relações diplomáticas com o bloco comunista internacional da época, ao se reaproximar da União Soviética e do governo de Fidel Castro, em Cuba, o que desencadeou intensos protestos do governo norte-americano.


Além disso, a elevação em 50% do imposto sobre as importações dos produtos norte-americanos, e sobre os investimentos dos lucros das companhias locais nos Estados Unidos, bloqueava parte da acumulação de capitais, indo de encontro aos interesses do imperialismo mundial e da classe dominante brasileira.





A polêmica figura de Jânio Quadros


A gota d’água que faltava para as pressões sobre o governo de Jânio Quadros chegarem a níveis insuportáveis foi a condecoração do guerrilheiro Ernesto Che Guevara com a medalha da Ordem Cruzeiro do Sul, oferecida por Jânio. Guevara foi, ao lado de Fidel Castro, o principal nome da Revolução Cubana, em 1959.



Condecoração de Enesto Che Guevara ...


Ato que despertou a ira da oposição conservadora


A condecoração dada ao revolucionário fez desabar uma tempestade oposicionista sobre o governo de Jânio, vinda do Congresso Nacional e da imprensa, liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara.
Lacerda, em rede nacional de TV, acusou Jânio Quadros de estar idealizando um regime igual ao de Cuba para o Brasil. Diante das pressões, Jânio Quadros renunciou na esperança de que, em função de sua popularidade, fosse recolocado no poder pelo povo brasileiro, fato que não aconteceu. 
Para aonde vai Jânio Quadros? A famosa foto com o registro do ex-presidente após a renúncia



O sucessor legal de Jânio, previsto pela Constituição, era o vice-presidente João Goulart, que para 'piorar' ainda mais a situação, estava visitando a República Popular da China Comunista. 
 
A atuação política de Jango, além do cunho Populista herdado de Getúlio Vargas, era também identificada como comunista pelas forças conservadoras brasileiras; sendo que, na União Soviética, o nome de Jango era citado de forma simpática pelos jornais.

Alegando motivos de segurança nacional, os ministros militares não aceitavam João Goulart como presidente. Foi então promulgada a Emenda Constitucional número 4, onde o Parlamentarismo foi instituído como novo sistema de governo do Brasil, em 2 de setembro de 1961.
 


No Parlamentarismo, Jango seria apenas chefe de Estado, e o comando político do governo brasileiro ficaria a cargo de um primeiro-ministro e do Conselho de Ministros. Restava ao presidente apenas uma posição politicamente secundária no sistema parlamentarista adotado.


Jango buscou o apoio da opinião pública para a realização de um plebiscito onde o povo pudesse escolher entre os sistemas presidencialista e parlamentarista. Em abril de1963, o presidencialismo foi restabelecido pela escolha popular, numa proporção de 5 votos para 1 voto dado ao sistema parlamentarista.
Jango conseguiu finalmente o poder de um presidente da República, e logo pôs em prática as chamadas "Reformas de Base" (reforma administrativa, reforma fiscal, reforma agrária e reforma bancária), que junto com a taxa de inflação na casa dos 73,5%, em 1963, contribuíram para inflamar os ânimos dos que se opunham a João Goulart.
O Presidente João Goulart

As pressões sobre Jango vinham da Elite Conservadora Católica, a mesma que colocara Getúlio Vargas no centro da crise que o levou ao suicídio, em agosto de 1954, e a mesma Elite Conservadora e neoliberal que vendeu o Brasil por meio de privatizações e, de quebra, ainda explora a massa pobre da população, impedindo por meio da manipulação da opinião pública, através do domínio da grande mídia, a possibilidade de mudanças significativas no sistema econômico, social e educacional do Brasil atualmente.


Os pretextos que faltavam para o golpe contra a democracia brasileira ser deflagrado aconteceram em duas ocasiões bem claras. Primeiro, o comício realizado na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964; ocasião em que Jango assinou decretos de desapropriação de áreas improdutivas localizadas às margens de rodovias e ferrovias, e de nacionalização das refinarias de petróleo, além do monopólio do controle estatal sobre a importação desse produto.
Naquela sexta-feira 13, Jango também deu um ultimato aos militares ultraconservadores: se tentassem deflagrar um golpe de Estado, enfrentariam a esquerda finalmente unida, pronta para o combate e apoiada na vontade do povo.


Jango ao lado da esposa Maria Teresa Goulart, durante o inflamado discurso ... 





no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964

A outra ocasião decisiva para o execução do Golpe Militar aconteceu entre os dias 25 e 27 de março de 1964, quando 1200 marinheiros se reuniram no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, e saíram em passeata com quepes e golas virados para trás, na chamada Revolta dos Marinheiros. O governo de João Goulart apoiou os marinheiros e foi duramente criticado por oficiais das três forças armadas.


Em 30 de março, João Goulart discursou no Automóvel Clube do Rio de Janeiro para uma platéia de 2 mil sargentos; entre eles, muitos dos marinheiros revoltosos de alguns dias antes. Na ocasião, Jango também respondeu às críticas dos oficiais. O então senador Amaral Peixoto acompanhava as cenas pela TV de seu apartamento e disse em tom profético: "O Jango já não é presidente da República."


No dia seguinte, já na noite de 31 de março de 1964, o Golpe Militar começou em Juiz de Fora, Minas Gerais, sob o rótulo de movimento democrático contrário às ameaças comunistas.
Os militares de Minas logo receberam apoio dos comandos do Exército em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio grande do Sul. Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, a "procissão" de tanques veio às ruas. O barulho das velhas lagartas que giravam movimentando os carros de combate se confundia com o som dos motores dos tanques e jipes verdes ocupados por soldados armados com grossos calibres.
Parte da força naval dos Estados Unidos deslocou-se para a costa brasileira, a fim de apoiar os golpistas caso houvesse guerra civíl. Em caso de conflito, os americanos também estavam prontos para reconhecerem imediatamente o novo governo militar golpista.





Na noite do dia 31 de março e madrugada do dia 1º de abril de 1964, os tanques tomaram as ruas e ...

na manhã do dia 1º de abril, o cenário das capitais brasileiras ...


era preenchido por carros de combate do Exército




No dia 1º de abril, João Goulart fugiu de Brasília para Porto Alegre, na tentativa de articular a resistência que jamais aconteceu. Jango percebeu como seus conselheiros militares e as chamadas "esquerdas radicais" estavam equivocados nas previsões relativas ao potencial de resistência.
 

O povo brasileiro assistiu a tudo passivamente. A greve geral convocada pelo CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) no dia 30 de março não teve nenhuma adesão; trens e ônibus trafegaram normalmente durante todo o dia 31 de março. Ninguém esboçou a mínima resistência.


Jango estava sozinho e, já no dia 2 de abril de 1964, fugiu para o interior do Rio Grande do Sul, onde se refugiou em uma fazenda perto da fronteira com o Uruguai. Em 4 de abril, o já Ex-Presidente João Goulart pedia asilo político naquele país. Começavam assim, os Anos de Chumbo: duas décadas em que o cenário político brasileiro foi ocupado por uma das mais violentas e repressoras ditaduras militares da América Latina.
 

Segue o trecho de uma carta enviada do exílio por João Goulart aos brasileiros:


Dirijo-me ao povo brasileiro nesta hora de angústias e sofrimentos. Deposto por um golpe de força, observo, entristecido, cair a máscara do grupo militar que assaltou o poder. Instalaram um governo ficticiamente constitucional e, desde a quartelada, nenhuma medida a favor do país foi posta em prática, nenhuma perspectiva foi aberta pela ditadura para a solução dos graves e complexos problemas com que vem lutando o Brasil. Tudo o que tem feito parece revelar o deliberado propósito de agravar o sofrimento do povo. (...)



Os grupos estrangeiros possuidores de moeda forte gravitam em torno das empresas nacionais para adquiri-las a preços vis. E os industriais brasileiros acabam cedendo, com a agravante de deslocar para o exterior o fruto daquelas vendas, à falta de condições para nossos investimentos no Brasil. Temos, desse modo, o quadro desolador de desnacionalização e descapitalização do país .(...)


As reformas de base, preconizadas pelo meu governo e indispensáveis à demarragem de um país subdesenvolvido, são hoje apresentadas de forma caricatural por homens superados política e historicamente e que tentam empulhar a opinião pública brasileira, suficientemente esclarecida e politizada para não aceitar tais mistificações. (...)



Jango sendo fotografado pela esposa Maria Teresa, durante o isolamento político do exílio no Uruguai




Do exílio no Uruguai, Jango tentou inutilmente articular sua resistência política, até morrer de enfarte na Argentina, em 1976. Existem rumores de que Jango tenha sido assassinado por agentes da Operação Condor, que foi um intercâmbio entre ditaduras militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai), apoiadas pela CIA (Agência Central de Inteligência do Estados Unidos), para aniquilarem seus opositores.



Na edição do jornal Folha de São Paulo, publicada em 27 de janeiro de 2008, foi publicada uma matéria com a declaração do ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro, onde ele afirma que João Goulart foi envenenado por ordem do então delegado do DOPS (Departamento da Ordem Política e Social), Sérgio Fleury. A autorização, segundo Neira, teria partido do presidente brasileiro na época, General Ernesto Geisel (1908-1996).

domingo, 27 de janeiro de 2013

ECOS E FLASHS DOS ANOS DE CHUMBO 2





Por Cássio Ribeiro

João Goulart já estava fora da presidência do Brasil no dia 1º de abril de 1964. O cargo foi assumido pelo líder da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, mas para o Golpe Militar ficar "completo", e fazer jus ao nome, era preciso preencher a presidência da República com um general. Uma semana depois, o comando do Golpe decretou o primeiro de uma série de atos institucionais que seriam os principais instrumentos de repressão e imposição da ditadura militar brasileira.


O Ato Institucional Número 1 (AI-1) cerceou o direito do povo votar para eleger o novo presidente. Coube ao Congresso Nacional, coagido é claro, escolher no dia 15 de abril de 1964, o chefe do Estado-maior do Exército, General Castello Branco, para ocupar o lugar que João Goulart deixou ao ser deposto.


No mesmo "pacote" de medidas do (AI 1), ocorreram cassações de mandato e o fechamento de instituições consideradas "subversivas", como o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), as Ligas Camponesas e a UNE (União Nacional dos Estudantes). Os líderes dessas organizações foram presos e mandados para o exílio.



Curiosamente, o ex-presidente Juscelino Kubitskchek, que governou o Brasil entre 1956 e 1961, apoiou a escolha de Castello Branco para a presidência. Por ter promovido Castello ao posto de general-de-divisão quando governava o Brasil, Juscelino acreditava que o General o apoiaria nas eleições presidenciais que estavam previstas para 1965. Porém, dois meses depois de ser escolhido como novo presidente, Castello Branco cassou os direitos políticos de Juscelino Kubitskchek, que foram suspensos por 10 anos.



General Castello Branco: primeiro presidente da Ditadura Militar

O mandato do general Castello Branco deveria durar de 15 de abril de 1964 até 20 de janeiro de 1966, mas foi estendido até 15 de março de 1967. Estava garantido assim, o poder nas mãos da chamada Linha Dura, que defendia a manutenção inabalável das características da "Revolução", além de acabar com qualquer vestígio remanescente da ideologia do regime democrático deposto.
 

Em 27 de outubro de 1965, foi promulgado o Ato Institucional número 2 (AI-2), que deu poderes excepcionais ao presidente, como cassar mandatos políticos e decretar estado de sítio sem autorização do congresso. Alem disso, o AI-2 acabou com os partidos políticos existentes e formalizou o modelo de eleição indireta para presidente, sem participação do povo na escolha. No lugar dos antigos partidos, nasceram apenas dois com a permissão da Ditadura Militar: A Arena (Aliança Renovadora Nacional), que apoiava o governo, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição à Ditadura.
 

No dia 3 de outubro de 1966, foi realizada eleição indireta no Congresso Nacional para a escolha do sucessor de Castello Branco. Sem a presença de nenhum integrante do MDB, que boicotou a escolha já definida antes mesmo da votação, os representantes da ARENA elegeram o general Costa e Silva como novo presidente do Brasil.


Costa e Silva: segundo general-presidente, que pôs em vigor o AI-5

Costa e Silva assumiu em 15 de março de 1967, ano em que também entrou em vigor uma nova Constituição, na qual figurava a Lei de Segurança Nacional e a Lei de Imprensa, além da garantia de poderes praticamente ilimitados ao novo presidente. Com isso, a oposição passou a questionar a Constituição, que afirmava ser a "formalização da Ditadura".



Surgiram então vários protestos em diversas partes do Brasil. O Centro da cidade do Rio de Janeiro foi o cenário de vários desses protestos. Na tarde de 28 de março de 1968, policiais militares foram chamados para reprimir um protesto de estudantes perto do aeroporto Santos Dumont. Os manifestantes reagiram com pedradas. No meio da confusão generalizada, o estudante Edson Luiz de Lima Souto foi baleado no peito por um tiro disparado por um dos policiais que agiam contra os manifestantes. 
 


O corpo de Edson Luiz foi levado para a Câmara dos Vereadores e colocado sobre uma mesa. 50 mil pessoas acompanharam o enterro no dia seguinte. No dia 4 de abril de 1968, depois de uma missa em memória do estudante morto, foi organizada a chamada Passeata dos Cem Mil, que foi liderada por personalidades como Chico Buarque, Tonia Carrero e Clarice Lispector.




Passeata dos Cem Mil: as manifestações ...



e a resistência contra o regime acabaram desencadeando o aumento da violência por parte da repressão




Na mesma proporção da grandiosa passeata dos Cem Mil, crescia a violência policial do regime. Tornaram-se rotina as invasões de universidades e as prisões de estudantes. Em outubro de 1968, foi organizado um congresso para a reestruturação da extinta União Nacional do Estudantes (UNE). Porém, a repressão mostrou seu poder outra vez ao acabar com o congresso, prendendo seus participantes.


Qualquer manifestação contrária ao regime significava espancamento e prisão


O clima de instabilidade pública levou a linha dura da Ditadura ao ponto de optar pelas articulações de atitudes repressivas extremas, expressas, por exemplo, pela atitude do brigadeiro João Paulo Burnier de tentar transformar o Para-Sar, que é uma instituição da Aeronáutica responsável por salvamentos e resgates, num instrumento terrorista para eliminar pessoas contrárias ao Regime Militar. (Fonte: Jornal do Brasil).


A esquerda também se organizava, representada pela ala radical do Movimento Estudantil. Apesar de o Partido Comunista Brasileiro ter sido contra a luta armada, surgiram diversas organizações de resistência cujas ideologias eram norteadas pela socialização comum dos mecanismos públicos, políticos e habitacionais.



Em setembro de 1968, o deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB, fez um discurso pedindo ao povo que não fosse às festividades do Dia da Independência, num ato de protesto ao Regime Militar. Ofendidos, os militares pediram ao governo para processar o deputado, porém, o pedido foi negado pelo congresso, em 12 de dezembro de 1968. No dia seguinte, era entregue ao Conselho Nacional de Segurança, o texto do Ato Institucional número 5 (AI-5), que é considerado o golpe dentro do golpe.



No AI-5, o Congresso Nacional foi dissolvido e posto em recesso por tempo indeterminado. A liberdade de qualquer pessoa podia ser vigiada, havia a proibição de determinados lugares serem frequentados, a suspensão de direitos políticos, a proibição de qualquer direito público ou privado. Ir e vir perdeu o sentido prático. Toda e qualquer manifestação de oposição ao Regime Militar estava severamente proibida. A imunidade parlamentar foi extinta, e entraram em vigor a prisão perpétua e a pena de morte.




A prática da tortura e do assassinato de opositores foi regulamentada e institucionalizada. O Exército criou a Operação Bandeirante (Oban), chamada depois pelo temido nome de DOI-Codi, localizada na rua Tutóia, em São Paulo. No Rio de Janeiro, o endereço das torturas e dos assassinatos ficava no quartel da Polícia do Exército (PE), à rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Militares do Exército e policiais comuns se uniam para a prática da tortura, sendo pendurando suas vítimas no pau-de-arara, sendo desferindo-lhes potentes choques por todo o corpo, incluindo regiões genitais.
 

O general Emílio Garrastazu Médici assumiu a presidência em 30 de outubro de 1969, num cenário em que não havia mais as manifestações públicas estudantis, e nem a oposição dos políticos do MDB. A oposição ao Regime Militar, seja ela radical ou moderada, estava severa e totalmente proibida.




Na contra mão do radicalismo das torturas e proibições ocorridas a partir do AI-5, surgiram organizações de guerrilha da Esquerda, cuja prática da luta armada, ou sua tentativa, foi a principal característica.



Sob influência do romantismo da Revolução Cubana (1959), que tangia a figura do guerrilheiro com uma aura mística, surgiram as primeiras organizações brasileiras de guerrilha urbana: A ALN (Aliança Libertadora Nacional), liderada por Carlos Marighela, o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), dia da morte de Che Guevara na Bolívia, e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), liderada pelo ex-capitão do Exército, Carlos Lamarca. Para essas organizações, quase totalmente formadas por jovens estudantes, a luta armada era a única forma de derrubar a Ditadura Militar.






 
Carlos Lamarca ainda como capitão do Exércido, dando instruções de tiro para funcionárias bancárias. Curiosamente, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), liderada por Lamarca, executaria posteriormente assaltos bancários para financiar suas ações de combate armado à ditadura militar. Lamarca também desviava fuzis do Exército Brasileiro para serem usados nas atividades de guerrilha da VPR




"LAMARCA, O CAPITÃO DA GUERRILHA"  ( FILME COMPLETO) 





TERRORISTA LAMARCA PROMOVIDO A GENERAL - DEP JAIR BOLSONARO NA TV CÂMARA 
 


Os grandes erros dessas instituições de oposição à Ditadura foram a fragmentação das forças, sem uma unidade e um comando nacional forte, e a falta de experiência de seus integrantes com as armas de fogo, tão familiares e usadas de forma costumeira pelos integrantes da Ditadura Militar e seus soldados defensores.



A principal ação da Guerrilha urbana foi o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, realizado em 1969, pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). O embaixador foi trocado pela soltura de 70 presos políticos, relacionados numa lista publicada nos veículos de comunicação da época.


70 presos políticos prestes a deixarem o Brasil em janeiro de 1971


A incisiva violência da Ditadura Militar foi o bastante para acabar com a luta armada contra o regime. Os chefes das organizações revolucionárias foram caçados e mortos um a um. Carlos Marighela foi eliminado em 1969, além de Lamarca, o último líder guerrilheiro de expressão nacional, morto no sertão baiano em setembro de 1971.



Para o jornalista e Ex-Deputado Federal Fernando Gabeira, que integrava o MR-8 e participou da ação de sequestro do embaixador norte-americano, a concentração das organizações armadas no meio urbano foi um erro:


"A revolução chinesa, que influenciou a guerrilha do Araguaia, via no camponês um sujeito revolucionário e propunha o cerco das cidades pelo campo. O correto, então, era sacudir o interior do país, formar um autêntico exército revolucionário, que cercaria as cidades. Estas, envoltas em sua crise, e com a ajuda de pequenas insurreições, acabariam caindo de maduras.

A esquerda brasileira era, na sua esmagadora maioria, composta de quadros urbanos. Sua grande e quase impossível tarefa era instalar-se no interior, adaptar-se ao terreno e conquistar corações e mentes. Algumas ações urbanas foram realizadas com êxito, mas a passagem mesmo da cidade para o campo, que era o sonho de muitos, nunca se consumou de todo.


Talvez seja por isso que um documento da época tenha concluído, com entusiasmo religioso, que a morte de Carlos Lamarca no interior da Bahia tinha um aspecto positivo: pelo menos já estamos morrendo no campo", Disse Gabeira.




 Fernando Gabeira



Outra ação característica da Ditadura Brasileira após o AI-5 foi a censura imposta aos veículos de comunicação. Em toda redação de jornal era comum a figura do censor, que trabalhava para a repressão, e analisava cada matéria antes da publicação da edição do dia seguinte. Muitas verdades não podiam sair e, jornais como O Estado de São Paulo publicavam receitas nos lugares das matérias censuradas, como forma de protesto diante das proibições que ceifavam a liberdade de imprensa e o dever de publicação da verdade.




Receitas de doces e salgados nos lugares das matérias censuradas

Ainda em 1968, numa famosa e inesquecível primeira página do Jornal do Brasil, o editor Alberto Dines usou um certo jogo de cintura para não chamar a atenção dos censores ainda inexperientes. O espaço dedicado às informações do clima na primeira página apresentou turbulências e temporais de bom tamanho como previsão do tempo.



Outros jornais da época publicavam figuras de monstros nos lugares das páginas que deveriam ter sido ocupados por matérias censuradas. Peças de teatro, músicas, filmes e todos os tipos de manifestações culturais sofreram intensa censura nos Anos de Chumbo. O filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", do cineasta Bruno Barreto, foi acusado de fazer parte de uma estratégia comunista para abalar os costumes morais da sociedade e da família brasileira.


No campo econômico, político e social, a Ditadura Militar Brasileira foi caracterizada pela exclusão da maioria. A má distribuição de renda e sua concentração nas mãos de poucos foi o retrato administrativo da Ditadura. O golpe militar de 1964 e as administrações posteriores da Ditadura foram um ajuste político e econômico do Brasil no jogo dos novos interesses do capitalismo internacional.




Isso é bem caracterizado pela escolha dos primeiros ministros da área econômica da ditadura militar, todos eles vinculados ao capital internacional ou às empresas multinacionais: Roberto Campos e Otávio Golveia de Bulhões, respectivamente ministros do Planejamento e da Fazenda do governo Castello Branco por exemplo.






As medidas adotadas pelos ministros de Castello Branco foram tomadas como se no Brasil houvesse apenas grandes empresas. As pequenas e médias, geralmente de propriedade de brasileiros, quebraram economicamente ou se mantiveram com extrema dificuldade.






Para os trabalhadores, o FGTS (Fundo de Garantia Sobre Tempo de Serviço) substituiu a estabilidade no emprego que era adquirida por um trabalhador depois de dez anos trabalhando no mesmo lugar. O FGTS promoveu a "rotatividade da mão de obra", onde os mecanismos de dispensa de trabalhadores e a contratação de outros com salários menores foi facilitada.


O chamado "milagre econômico" da Ditadura Militar foi baseado no aumento vertiginoso da Dívida Externa para a obtenção de tecnologia estrangeira, e na concentração desigual para promover o consumo de produtos industrializados.






Numa comparação do aumento da dívida externa entre 1940 e 1964, que passou de 2 para 2,5 bilhões de dólares, num crescimento de 25%, é alarmante o aumento da mesma dívida verificado entre 1964 e 1978, que passou de 2,5 para 40 bilhões de dólares, num crescimento de 1500%.




Rodovia Transamazônica: faraônico projeto da Ditadura que ficou famoso por ligar o "nada ao lugar nenhum".




Já o mercado de consumo dos produtos industrializados produzidos no Brasil (televisões, rádios, geladeiras e automóveis) era formado por cerca de 5 milhões de pessoas de altíssima renda (a chamada elite burguesa), e mais 15 milhões de pessoas que puderam participar do "consumismo" mediante extremo sacrifício, graças à expansão do crédito ao consumidor. Esse mercado de consumo excluiu o restante da população, cerca de 80 milhões de brasileiros das classes menos favorecidas.



O modelo econômico da Ditadura Militar Brasileira pode ser definido então como uma "industrialização excludente" que endividou o Brasil no exterior de forma nunca antes observada na história do País.



O general Ernesto Geisel assumiu a presidência em 15 de março de 1974, época em que o "Milagre Econômico" da ditadura entrou em declínio devido aos esgotamentos internos dos limites de crescimento, e às mudanças do mercado internacional. 



A crise econômica do regime se somou às pressões pela abertura política e pela anistia aos exilados no exterior. Um triste fato foi marcante na guinada que levou o Brasil, de forma lenta e gradativa é claro, de volta aos moldes democráticos de liberdade.

 

O jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, então diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi preso e levado às masmorras de tortura do DOI-Codi, na Rua Tutóia, em São Paulo, onde foi cruelmente assassinado sob acusações de ser militante comunista, e porque o telejornal da TV Cultura era o único que veiculava matérias com assuntos verdadeiros sobre os fracassos econômicos e sociais da Ditadura Militar.

 

O comandante do II Exército, general Ednardo D’ávilla Mello, representante da Linha Dura, divulgou uma nota um dia após a morte de Vlado, em 26 de outubro de 1975, afirmando que o jornalista havia se suicidado. Numa das fotos da cena da morte, publicada posteriormente, o corpo enforcado encontra-se de joelhos, indício que reforçou a comprovação de uma suposta armação da cena do suicídio, depois que Vlado foi assassinado durante as sessões de tortura.




O cinto usado no suposto "enforcamento suicida" não podia ser portado por nenhum prisioneiro do DOI-Codi. Foram observadas também duas marcas de enforcamento, o que remete à hipótese mais provável de estrangulamento.





Dois momentos de Vlado no DOI-Codi: primeiro atordoado pela humilhação e pela tortura ...

e no suposto "enforcamento suicida"
 




O quinto e último presidente da Ditadura Militar, General João Baptista Figueiredo, assumiu a Presidência em 15 de março de 1979 e, até 15 de março de 1985, pôs em prática a lenta conclusão da abertura política iniciada pelo General Geisel, no governo anterior.




General João Baptista Figueiredo



Figueiredo teve que enfrentar o grupo de militares da Linha Dura, que se opunham ao processo de abertura. Esses militares executaram o chamado "Terrorismo de Direita", a fim de culpar uma suposta esquerda perigosa, que ameaçaria tomar o poder em caso de abertura. Esses militares da linha dura também temiam revanchismo contra eles, depois que o Estado de direito e a democracia fossem restaurados no Brasil.



Os atos terroristas tiveram início em 1980, quando em São Paulo e Minas Gerais bancas de jornal e revista foram incendiadas. Em julho de 1980, durante a visita do papa João Paulo II ao Brasil, O jurista Dalmo Dallari, que discursaria na presença do papa, foi sequestrado e espancado por desconhecidos.



Em 30 de abril de 1981, ocorreu a mais violenta ação terrorista da Direita. Enquanto 20 mil pessoas assistiam quietas a um show musical promovido pelo Centro Brasil Democrático (Cebrade), uma potente bomba detonou no estacionamento, sobre o colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. O capitão Wilson Machado, que dirigia o automóvel Puma de chapa "fria" em que ambos se encontravam, foi gravemente ferido mas sobreviveu. Uma segunda bomba foi colocada na casa de força do estacionamento, mas não explodiu.



O carro em que os dois militares estavam ficou completamente destruído, mas o atentado do Rio Centro jamais foi totalmente esclarecido



Apesar da notória evidência de que os militares vitimados pela bomba eram os terroristas, um relatório oficial divulgado pelo Exército apresentou os dois como vítimas de terroristas desconhecidos. O caso foi encerrado sem que os responsáveis jamais fossem punidos.



Em 1984, a campanha pelas eleições diretas para a escolha do novo presidente reuniu 1 milhão de pessoas no dia 10 de abril, no Rio de Janeiro, e 1 milhão de pessoas em 16 de abril, em São Paulo. Toda essa mobilização era em prol da aprovação da emenda Dante de Oliveira pelo Congresso, que restabeleceria a eleição direta para presidente da República.




1 milhão de pessoas reunidas na Candelária, no Rio de Janeiro, em 1984, durante o Comício das Diretas



Em 25 de abril de 1984, o PDS, presidido por José Sarney, foi fiel à ditadura e a emenda Dante de Oliveira acabou rejeitada pelo Congresso Nacional. Em novembro de 1984, a eleição indireta para presidente, realizada por meio de votação interna no Colégio Eleitoral, escolheu o civil Tancredo Neves, do PMDB, como novo presidente do Brasil.


Tancredo derrotou o candidato do PDS, Paulo Maluf, na disputa. Em 14 de março de 1985, um dia antes de sua posse, Tancredo foi submetido a uma operação às pressas no Hospital de Base de Brasília. Complicações se sucederam e o presidente foi operado 7 vezes. Depois de 39 dias internado, Tancredo Neves faleceu em 21 de abril de 1985.


Tancredo Neves



José Sarney



Ironicamente, a "Nova" República", como Tancredo Neves chamou o período que teria início com seu mandato, acabou tendo o vice de Tancredo, José Sarney, como seu primeiro presidente. O mesmo Sarney que liderou, em abril de 1984, a rejeição da emenda que propunha a escolha do novo presidente pelo povo.

Começava ai, de forma curiosa e inesperada, uma nova fase da História do Brasil, com seus mensalões, propinas e getons; um Brasil do literalmente "Você Sabe Quem Eu Sou!"