domingo, 4 de novembro de 2012

A CULTURA RASTAFARI





Por Cássio Ribeiro

“Jah está presente aqui. Jah vive aqui e agora. Jah vive dentro e fora. Já está em tudo, mas nem tudo está em Jah”. O pequeno trecho é uma parte da letra da música Selassie Vive, da banda brasileira de reggae Jah I Ras, cujos integrantes vivem em uma comunidade rastafari localizada em Itapecerica da Serra/SP.


Quem é Jah? Como surgiu a cultura rasta? O porquê das longas tranças (dreads), e a relação com a Maconha. Essas e diversas outras perguntas sobre o rastafarianismo serão respondidas neste trabalho.


Antes de viajarmos para a Jamaica da década de 1930, a fim de entendermos as origens do Rastafari, será necessário começarmos nossa abordagem um pouco antes, na Etiópia, um país pobre do norte da África.



Segundo a antiga tradição etíope, Makeda, a Rainha de Sheba, visitou o Rei Salomão em Israel. Em uma interpretação de 1 Reis 10:13 do Velho Testamento do Judaísmo: "E o Rei Salomão deu para a Rainha de Sheba todo o seu desejo, tudo o que ela perguntou junto a ele. Salomão lhe deu da sua generosidade real. Portanto ela virou e foi ao seu próprio país, ela e os seus empregados."


Os rastafaris interpretam o verso acima como sendo o relato de que o Rei Salomão teria engravidado e tido um filho com a rainha Makeda. Isso seria uma evidência de que o povo africano seria mais um povo originado de uma tribo inicial que era formada por filhos de Israel, ou judeus.



O filho de salomão com Makeda, de acordo com as tradições, era Menelik. A geração 225 depois de Menelik seria O etíope Haile Selassie I (1872 – 1975). Selassie foi coroado pela Igreja Ortodoxa Etiópica como Imperador da Etiópia, em 2 de novembro de 1930. O nome de Selassie antes dele ser coroado já fazia alusão a um pré-reinado. Seu nome antes de tornar-se imperador era Ras Tafari: (ras = cabeça, ou título etíope equivalente a Duque, e Tafari = nome que designava seu futuro reinado). Selassie era o único imperador e governante negro de toda África colonizada daqueles tempos, numa Etiópia independente e livre. Governou a Etiópia de 1930 até 1974. Faleceu em 1975.
 

  


Para a cultura Rastafari, Haile Selassie seria Deus (Jah) encarnado, e lideraria o povo africano de todo o mundo em sua volta à pátria África (Sião ou Paraíso para eles). Selassie é chamado pelos rastafaris de Jah Rastafari, Jah Selassie ou Magestade Imperial







 Bandeira imperial da Etiópia durante o reinado de Haile Selassie, que durou de 1930 até 1974. O leão representa o Leão da Tribo de Judá, numa alusão à ligação de Selassie com a linhagem de imperadores etíopes desde o primeiro filho da rainha Makeda com Salomão, o príncipe  Menelik. O verde da bandeira representa a vegetação e a terra africana, o amarelo simboliza a riqueza do continente e, o vermelho, trata-se do sangue do sofrido povo africano




As bases inspiradoras para o desenvolvimento da cultura Rastafari são as histórias da Etiópia Antiga e a figura de Haile Selassie, apresentas acima.




O Rastafari surge na Jamaica, uma ilha do Caribe bem longe da africana Etiópia. Na década de 1930, o jamaicano Marcus Garvey teria realizado uma revelação profética, segundo a qual era necessário que todos os negros que foram espalhados pelo mundo devido ao comércio dos tempos de escravidão, deveriam voltar para sua pátria natal, a África. "Atrás à África" era o termo empregado.






O jamaicano  Marcus Garvey, autor da profética revelação que originou o Rastafarianismo







 Bandeira da Jamaica, cujo verde e o amarelo tem o mesmo significado da bandeira da Etiópia. Já a cor negra, representa o povo afro-descendente






Essa revelação, associada a uma foto de Haile Selassie I vestido de guerreiro circulou pelas favelas da capital da Jamaica, Kingston, junto com um artigo de jornal que afirmava que Selassie era o mentor da Ordem Nyahbinghi, que seria uma sociedade secreta africana comprometida em acabar com a dominação colonial branca.


Tais acontecimentos foram as causas do surgimento da cultura Rastafari numa Jamaica da década de 30, onde a maioria da população era católica e 98% dos habitantes eram descendentes de escravos negros africanos.


Para os Rastafaris, o Deus do velho testamento do Judaísmo é chamado de Jah. É curioso notar que Jah do Rastafarianismo, Jeová do Velho testamento do Judaísmo e Allah dos muçulmanos são o mesmo Deus, adorado por culturas diferentes e de formas diferentes.


O Rastafarianismo prega que a África (também chamada de Zion) foi o verdadeiro berço da humanidade e que todos os negros deveriam voltar para a sua pátria, o que caracteriza a presença marcante do afrocentrismo e da busca pela criação de uma África formando um só país, na qual o Pan-africanismo seria posto em prática.


A capital desse reino africano único seria a “Nova Jerusalém", e ficaria na Etiópia. Tal teoria se apega aos versos proféticos da Bíblia Hebraica em Sofonias 3:1: "De Além dos rios da Etiópia os meus adoradores, a filha dos meus dispersados, trarão o meu oferecimento."




Rastafari da pequena Ilha de Barbados, que também fica no Caribe






O Rastafari pode ser definido ao mesmo tempo como uma religião, uma ideologia e um movimento. Muitos rastas afirmam que a prática não se trata de uma religião em absoluto, mas um “caminho para a vida”.



Para os rastas, Jah tem a forma da tríade sagrada (Pai, filho e Espírito Sagrado), e está em todo ser humano por meio do Espírito Sagrado. Por isso que os rastas se referem a eles como “Eu e Eu”, no lugar de “nós”, acentuando também dessa forma a igualdade do povo.






No Rastafari, o resto da sociedade de fora do rasta é chamada de Babilônia. Para eles, desde a ascensão de Roma, teria a Babilônia representado a divindade com aspecto racial branco durante séculos para promover sua atividade predatória colonial e, ao mesmo tempo, ser racista, dominando e agredindo o povo africano com o comércio de escravos no Oceano Atlântico.


As comunidades rastafari são muitas vezes chamadas por seus integrantes de Sião, numa alusão ao paraíso apresentado nos textos bíblicos.


Os rastas seguem as leis alimentares do Velho Testamento da Bíblia. Em geral, são vegetarianos e, quando muito, comem apenas carne de peixe como único alimento provido de algo morto. A cozinha rastafari é repleta de verduras naturais e frutas como o coco e a manga, e dispensa os alimentos processados e com conservantes. O álcool também é evitado, pois para eles teria sido uma criação da Babilônia para confundir os rastas.


As longas tranças ou “dreads” que os rastas usam são outra aproximação ideológica com os costumes descritos no Velho Testamento judeu e cristão. O próprio Sansão teria cultivado 7 dreads ou tranças. 




Outra prática marcante na cultura rastafari é o uso espiritual da Maconha na liturgia religiosa. Para eles, a Maconha seria um sacramento que limpa o corpo e a mente, cura a alma, exalta a consciência, facilita o sossego, traz o prazer e os coloca mais perto a Jah.


Sendo assim, para a cultura Rastafari, a Maconha trata-se de uma erva sagrada ou santa, santidade essa que teria sido concedida pelo próprio Jah no momento que criou a Maconha. Os rastas afirmam que a ilegalidade da Maconha em muitos países é uma confirmação da perseguição que a cultura rastafari sofre por parte da Babilônia.




Baseados em Gênesis 1:11:"E o Deus disse, deixado a terra traz adiante a grama, a erva que produz semente, e a árvore de fruto que produz fruto depois da sua espécie, cuja semente é em si mesmo, sobre a terra: e foi assim", os rastas buscam uma legitimação religiosa para o uso sacro da Maconha.




No Rastafari, a etimologia da palavra "Maconha" e termos semelhantes usados em todas as línguas do Oriente Próximo podem ser originados no hebreu "qaneh bosm" (נה  שם), que designa uma das ervas que Jah ordenou a Moisés incluir na sua preparação do perfume sagrado que unta em Êxodo 30:23. O termo hebraico "qaneh bosm" também aparece em Isaias 43:24; Jeremias 6:20 e Ezequiel 27:19.

 
Também criado na Jamaica ainda na primeira metade do século passado, o Reggae através de sua música, seu ritmo e seus versos, foi o principal propagador e divulgador da cultura Rastafari em todo o mundo. O cantor jamaicano Bob Marley é até hoje, desde a década de 1970, a mais conhecida figura do Reggae em todo o mundo.


 



 Bob Marley (1945–1981), o principal símbolo artístico do Reggae jamaicano e da divulgação do Rastafari em todo o mundo



Quando o Imperador Haile Selassie morreu, em 1975, a reação dos rastafaris foi melhor expressada na canção Jah Live! (Jah Vivo!) de Bob Marley, que declara: “O Deus não pode morrer”. A canção pode ser ouvida abaixo







 


O Reggae nasceu entre negros pobres de Trenchtown, que é o principal gueto de Kingston, na Jamaica. Na ocasião, muitos músicos rastas locais influenciados pelo Jazz tocado em rádios americanas que eram sintonizadas na Jamaica, misturaram este e alguns outros ritmos de fora com música original jamaicana. Assim nasceu o Reggae.


Outros músicos famosos do Reggae com forte orientação Rastafari presente nas suas músicas são Peter Tosh, Freddie McGregor, Príncipe Lincoln Thompson, Coelho Wailer, Príncipe Adrian Nones, Cornell Campbell, Dennis Brown e muitos outros.



No Brasil, algumas manifestações plenas da cultura Rastafari são marcantes. Em Itapecerica da Serra/SP, há uma comunidade Rastafari chamada Santa Maria de Sião. Nela, vive a banda brasileira de Reggae Jah I Ras, que além de cantar a religião e a cultura Rastafari em suas letras, também vive de acordo com as doutrinas existenciais do rastafarianismo.

Abaixo, o leitor pode conferir com a banda Jah I Ras um pouco da expressão cultural Rastafari praticada no Brasil.
  


 Ao centro, a becking vocal Sistah Palloma e Ras Kahdu, líder da banda Jah I Ras: "Não temos como objetivo estar presentes na mídia ou despertar interesses e ganhar dinheiro. Nossa intenção é mostrar o que é o rastafari", diz a banda.

















 Jah I Ras





Embora a comunidade Rastafari da Banda Jah I Ras fique em Itapecerica da Serra, a primeira igreja Rastafari do Brasil fica na cidade de Americana, no interior de SP, com o pomposo nome de Primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião. No vídeo abaixo, o leitor pode conhecer melhor a congregação.



 

A Igreja Rastafari de Americana já foi invadida algumas vezes. Na última, Ras Geraldinho foi levado pelas autoridades.





Atualmente, o líder Rastafari está preso na Cadeia Pública de Americana. Como é ativista e bem politizado, além de possuir excelente relacionamento social onde se encontra, Ras Geraldinho foi voluntário para dar aulas de informática aos outros presos na Cadeia de Americana. Seu julgamento será realizado no próximo dia 29 de novembro.








 O próprio Ras Geraldinho relata como foi uma das invasões: “Eles vem fazer a batida, eles vem gravando. O cara é policial e vira diretor de cinema. Eu abri o portão da Igreja e fui recebido com uma automática na minha testa velho”, afirma Ras Geraldinho.

 


A lei brasileira ainda não prevê o uso religioso da Maconha. Já o Chá Ayahuasca (Santo Daime) é permitido por lei atualmente, embora já tenha sido proibido pela lei em duas ocasiões no Brasil.


Para saber um pouco mais sobre Geraldinho, o leitor pode acessar dois blogs mantidos pelo Ras, que são:



 e

http://niubinguiviolada.blogspot.com.br/, onde o rastafari brasileiro publicou na íntegra seu depoimento que seria dado à DISE.
  



Na própria Jamaica, a cultura Rastafari em seu início já foi discriminada. Os Rastas eram vistos sem qualquer status social, até porque em sua maioria viviam em condições paupérrimas nas favelas jamaicanas.



Só em 1960, a Universidade de West Indies patrocinou uma reportagem sobre o movimento Rastafari e sua relação com a sociedade jamaicana em geral. Tal reportagem foi o resultado de um pedido por parte da comunidade Rasta que se queixava da perseguição policial e da desinformação pública sobre o movimento.




Embora tal reportagem tenha divulgado o Rasta e ajudado a  diminuir o preconceito jamaicano com relação a tal cultura, a maioria da população da Jamaica ainda é cristã.




Em 1997, chegou-se a estimativa de que 1 milhão de rastafaris vivessem no mundo inteiro. No censo jamaicano de 2001, foram contabilizados cerca de 24020 rastafaris no país, menos de 1% da população na época. Outras fontes afirmam que nos anos 2000 os rastafaris formassem 5% da população jamaicana. Outra estimativa é a de que há pelo menos 100 mil rastafaris naquele país caribenho no qual o Rastafari teve origem.
 





terça-feira, 30 de outubro de 2012

ÚLTIMA EDIÇÃO DO JORNAL DA TARDE É PUBLICADA






Por Cássio Ribeiro


A edição impressa do Jornal da Tarde circulou pela última vez em 31 de outubro. A empresa de comunicação Grupo Estado pretende investir mais em seu principal veículo, o jornal O Estado de São Paulo.

Os investimentos, que até 31 de outubro eram canalizados ao Jornal da Tarde, passarão a ser direcionados para a mídia virtual, ou seja, as páginas do Estadão na Internet (digital, áudio, vídeo e mobile). Os classificados que eram publicados no encarte Jornal do Carro continuarão sendo publicados como um caderno especial no jornal Estadão versão impressa.

Podemos dizer que há algum tempo observamos uma sucessão na liderança das mídias, da mesma forma como aconteceu com a mudança da liderança que era do rádio para a TV

O jornal impresso, com suas capas nas bancas às segundas-feiras exibindo a foto do gol de domingo, dá lugar a uma publicação na Internet alguns segundos depois do lance. Nem a TV consegue ser tão rápida e tão abrangente ao mesmo tempo.

A Internet representa um mundo único, e total, pois seu alcance não tem limites na superfície da Terra em termos de agilidade da informação. Sai o Jornal da Tarde de circulação; entra ele para a história da Comunicação Brasileira.


JT >>>>> UM MARCO NA RESISTÊNCIA À CENSURA DA DITADURA MILITAR BRASILEIRA (1964-1985). A primeira briga com o governo veio já no primeiro ano de vida do Jornal, que culminou com uma manchete que escancarava uma ameaça de censura, em 23 de dezembro de 1966: "Ditador quer calar a Imprensa". Dois anos depois o governo quis impedir o jornal de publicar matéria sobre a crise no Congresso Nacional que culminaria no AI-5, o que foi rechaçado por telefone pelo diretor Ruy Mesquita, gerando reação da Polícia Federal, que bloqueou a saída do jornal pela Rua Major Quedinho. O jornal seguia sendo impresso, mas os agentes diziam: "Pode rodar, mas distribuir não vai." Pouco depois eles descobriram que o jornal estava nas bancas, e o próprio general Sílvio Corrêa de Andrade, chefe da DPF, saiu para recolher nas bancas os exemplares, que estavam saindo pela Rua Martins Fontes, oposta à Major Quedinho, por outra esteira. (FONTE Wikipédia).
 

domingo, 28 de outubro de 2012

A ÚLTIMA VIAGEM DO ZEPPELIN HINDENBURG






Por Cássio Ribeiro


Depois de seu primeiro capítulo, em 23 de outubro de 1906, quando nosso Santos Dumond realizou o primeiro vôo com o 14-Bis nos Campos de Bagatelle, na França, a história da aviação sempre foi pontuada por episódios catastróficos.




No meio da década de 1930, a corrida espacial que hoje é configurada por uma ‘maratona’ rumo a Marte, era representada pela competição da indústria de construção de balões dirigíveis. Nessa disputa, a Alemanha Nazista de Adolf Hitler levava a melhor graças à companhia Zeppelin, que ficava localizada na cidade de Frankfurt, e garantia à Alemanha daqueles tempos total supremacia na tecnologia do uso de gases mais leves que o ar.

Neste contexto, o dirigível Zeppelin Hindenburg era o principal representante da excelência do desenvolvimento científico do Terceiro Reich Alemão. Com 245 metros de comprimento, 30 metros de diâmetro e capacidade para transportar 112 toneladas, o Hindenburg era o maior de todos os dirigíveis já construídos, e a primeira aeronave transatlântica para transporte de passageiros.


 O imponente Hindenburg ...







representava a supremacia do trasporte aéreo alemão na década de 1930




Comparação entre o Hindenburg e um Boeing 747 atual




 Hangar construído no Rio de Janeiro para abrigar o Hindenburg em suas viagens ao Brasil na década de 30. Com 274 metros de comprimento, 58 metros de altura e 58 metros de largura, a construção seguiu as instruções de um imenso kit enviado pelos alemães ao Brasil ...





 Atualmente, a gigantesca construção pertence à Base Aérea de Santa Cruz, no RJ, e abriga os aviões do 1º Grupo de Aviação de Caça, o tradicional Esquadrão 'Senta A Pua!' da Força Aérea Brasileira, que, curiosanmente, lutou junto aos aliados em batalhas aéreas contra a Alemanha Nazista no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O hangar é o único exemplar para dirigíveis ainda existente no mundo. Os outros dois hangares construídos para o Hindenburg ficavam na Alemanha e nos Estados Unidos, mas já foram demolidos.




O Hindenburg inaugurou o serviço de viagem aérea transatlântica em 1936, fazendo 10 vôos de ida e volta entre a Alemanha e os Estados Unidos. Em 1937, a temporada de transporte de passageiros sobre o Atlântico começou na noite de 3 de maio, com a decolagem do Hindenburg em Frankfurt. 



Na ocasião, embarcaram 61 tripulantes e 36 passageiros que pagaram 400 dólares, cada um, pela luxuosa viagem com previsão de término 3 dias depois, em Nova Jersey, Estados Unidos, na manhã do dia 6 de maio.



  Em plena década de 1930, os passageiros podiam usufruir ...



do grande luxo oferecido nas dependências do Hindenburg ...



 além de poderem contemplar a explendorosa vista durante as viagens



A viagem foi tranquila até que o Hindenburg, já no meio da travessia do Oceano Atlântico a caminho dos Estado Unidos, começou a enfrentar ventos fortes e contrários vindos do oeste para o leste.

 A tripulação precisou desviar a rota mais para o norte, voando agora sobre as geladas águas do Atlântico repletas de icebergs naquela região, o mesmo cenário que fez o desventurado navio Titanic sucumbir e repousar a cerca de 3 mil metros, naquelas frias profundezas do Atlântico.

 
Além da semelhança das rotas percorridas, o Hindenburg, com o tamanho de cerca de dois campos de futebol, apresentava quase a mesma envergadura que o Titanic. A diferença estava na locomoção pelo ar, que possibilitava aos passageiros um espetáculo de contemplação dos enormes icebergs.



O Sol projetava a sombra do Zeppelin no mar. Tal sombra parecia ir direto de encontro aos icebergs. A impressão era a de que o Hindenburg colidiria de frente, assim como o Titanic, com os imensos e pontiagudos blocos de gelo.

 
O desvio da rota pelo norte atrasou a viagem em 8 horas, e o Hindenburg, mesmo a uma velocidade média de 110km/h, não chegaria mais aos Estados Unidos naquela manhã de 6 de maio de 1937.


 
Apesar de serem os mais eficientes dirigíveis daqueles tempos, os Zeppelins alemães apresentavam uma significativa e perigosa falha de segurança, pois dependiam do explosivo gás hidrogênio para flutuarem. 


Já os Norte-americanos, embora bem atrás dos alemães na eficiência da fabricação de dirigíveis, faziam uso e monopolizavam a tecnologia de fabricação do gás hélio, não tão perigoso como o hidrogênio usado pelos alemães, por não ser inflamável. Uma lei norte-americana de 1925 proibia a venda de gás hélio para as potências estrangeiras.


 
Acima e em volta da cabeça dos tripulantes e dos passageiros do Hindenburg, havia 200 mil metros cúbicos do perigoso gás hidrogênio. O Zeppelim na verdade era uma imensa bomba voadora.

 
Um dos passageiros abordo do Hindenburg na viagem de maio de 1937 era o alemão Fritz Erdman, oficial e espião da Luft Waffe (Força Aérea da Alemanha Nazista). Fritz estava apreensivo durante a viagem, pois pouco antes do início do vôo, o embaixador alemão nos Estados Unidos recebeu uma carta que afirmava haver um plano para destruir o Zepelim Hindenburg. Eis o texto da carta:
 


"Por favor, avisem à Companhia Zeppelin em Frankfurt para abrir e verificar toda a correspondência antes de embarcá-la no próximo vôo do Zeppelin Hindenburg. O Zeppelin será destruído por uma bomba-relógio".


A carta foi escrita por uma psicótica da cidade americana de Milwaukee, mas a ameaça de sabotagem foi levada a sério, já que o Hindenburg, por ser o símbolo da supremacia aérea alemã naqueles tempos, e o orgulho da frota de dirigíveis germânicos, era também um alvo potencial para os sabotadores que se opunham ao Terceiro Reich Alemão.

 

Na manhã do dia 6 de maio de 1937, dia da chegada do Hindenburg nos Estados Unidos, o comandante da base aérea da marinha americana em Lakehurst, Nova Jersey, rebebeu a notícia de que uma forte tempestade com trovões e raios havia começado no norte. A previsão era de que o mau tempo continuaria por todo o dia.


No Hindenburg, o almoço foi servido mais cedo, a fim de que a chegada aos Estados Unidos pudesse ser apreciada pelos passageiros. O Zeppelin causava tremendo alvoroço onde quer que chegasse, pois sendo o primeiro dirigível transatlântico já fabricado, sua presença envolvia enorme publicidade e interesse do público.


Eram exatamente 15h, e o Hindenburg começava a sobrevoar o céu de Nova Iorque. Lojas e escritórios ficaram vazios e o trânsito parado; a tripulação conduziu o Hindenburg rumo a Times Square, onde uma multidão se aglomerava na rua. Pequenos aviões com observadores e repórteres voavam próximos ao Zeppelin.


Registro da chegada a Nova Iorque ...
 



e ilustração com o Hindenburg no céu dos Estados Unidos

Na base aérea em Nova Jersey, local do pouso, relâmpagos eram vistos não muito longe. O céu estava fechado e o tempo continuavam ruim. O perigo das condições eletrostáticas desfavoráveis obrigaram o fechamento das fábricas de pneu próximas a Nova Jersey.


 
Depois de quase meia hora sobrevoando Nova Iorque sob a mira de olhares e flashs fotográficos, o Hindenburg atravessou o Rio Hudson e seguiu para seu destino final, em Nova Jersey.


 
A aterrissagem de um dirigível era o momento mais perigoso do vôo e, preferencialmente, acontecia ao amanhecer, quando os ventos são geralmente mais calmos. Um pouso do Hindenburg necessitava de centenas de pessoas em terra, na chamada equipe de solo.


Os cabos de aterrissagem eram jogados do dirigível para a equipe de solo, que os puxava até a presilha localizada no bico do dirigível ser conectada e fixada ao mastro de atracação. Um vento lateral repentino podia fazer o Zeppelin subir novamente.

Em algumas ocasiões, componentes da equipe de solo permaneciam agarrados às cordas e eram arrastados para cima. Quando não agüentavam mais, soltavam as cordas e despencavam dezenas de metros numa queda fatal.

Eram 16h e o Hindenburg finalmente chegava à Base Aérea Lakehurst. Fez um rápido sobrevôo e tomou o rumo do mar para evitar a tempestade. Agora, são 17h, e uma multidão está reunida ao redor da Base. A equipe de solo está pronta no local de atracação, mas o Hindenburg, a alguns quilômetros dali, sobrevoa o mar perto de Atlantic City, como que se esquivando da tempestade.

O relógio já marca 17h55 e começa a chover forte sobre a Base. O aguaceiro dura cerca de 15 minutos e vai embora de repente, da mesma forma como havia chegado. A equipe de solo e os espectadores estão encharcados.


Apesar das condições de pouso serem desfavoráveis, a direção do vento estar instável e trovões serem ouvidos ao longe; às 18h20, o comandante da Base Aérea de Lakehurst, Charles Rosental, toma uma decisão e dá a seguinte ordem: "Recomendação de pouso imediato!"

O Hindenburg estava a 22 quilômetros da Base Aérea de Lakehurst quando recebeu o aviso para pousar, e rumou novamente para o local de sua chegada. O operador de rádio do Zeppelin enviou então uma mensagem para a Alemanha: "Preparar para o pouso. Tempo ruim". A mensagem chegou a Hamburgo e foi passada de forma equivocada para Frankfurt: "O Hindenburg Aterrissou".


Agora já são 19h20 e o Dirigível está novamente sobrevoando a Base. Vem do norte e, imponente, aproxima-se do mastro de atracação. A expectativa é grande entre os presentes e o Hindenburg vem sereno, diminuindo sua velocidade.


Os cabos de atracação são lançados do Hindenburg de uma altura de 60 metros para a equipe de solo, que se posiciona e segura os cabos, começando a conduzir o bico do dirigível na direção do mastro de atracação.

Começa a chover forte novamente. A equipe de solo recolhe o Dirigível enfrentando muita dificuldade para equilibrar-se no terreno encharcado. De repente, um vento forte faz o Hindenburg subir novamente sem controle, e o Zeppelin fica solto no céu.

 
Num instante, algumas labaredas são avistadas na parte traseira esquerda do dirigível, que parece estar mais pesada que a frente. Há uma explosão e os 200 mil metros cúbicos de hidrogênio do Hindenburg começam a inflamar terrivelmente. As chamas vão aumentando e aumentando cada vez mais, e já consomem a metade traseira do Zeppelin.

 Instantes após a explosão, as chamas começaram a consumir o Hindenburg rapidamente. Abaixo, à direita do plano da foto, o mastro de atracação pode ser observado bem longe do Dirigível

A pressão do hidrogênio vazando inflamado impulsionou o Zepelim à frente, como um foguete sobre a multidão que corria apavorada e em desespero. O Hindenburg se manteve aprumado até o momento em que as chamas chegaram ao bico. O dirigível finalmente caiu longe do mastro de atracação, com a cauda atingindo primeiro o solo, e o bico ainda erguido em chamas.

 A queda final do Hindenburg



Já no chão, o Hindenburg emitia muita fumaça negra e ainda havia chamas em vários pontos. A equipe de salvamento se apressou para socorrer as pessoas abordo do Zeppelin, que ainda fumegava sobre suas cabeças, reduzido apenas a ferros retorcidos que sobraram de sua grandiosa estrutura.




 Momentos finais do imponente dirigível ...



 e os restos de sua estrurura metálica ainda fumegando




Das 97 pessoas que estavam a bordo, 35 morreram. O espião nazista Fritz Erdman foi uma delas. Um integrante da equipe de solo também morreu. Sob rumores de sabotagem, três investigações foram iniciadas mas nada foi provado. Chegava ao fim, dessa trágica forma, os tempos áureos das luxuosas viagens em dirigíveis. Os aviões roubariam a cena a partir de então.



No vídeo abaixo, o leitor pode ver como foram os momentos finais do Hindenburg.