domingo, 14 de outubro de 2012

EL NIÑO: ENTENDENDO O FENÔMENO CLIMÁTICO





Por Cássio Ribeiro


O Oceano Pacífico abrange cerca de 180 milhões de quilômetros quadrados da face externa de nosso planeta, o que representa um terço de toda a superfície da Terra. Sendo o maior de todos os oceanos, o Pacífico também reúne quase a metade do volume de água e da superfície de todos os mares, e também possui a marca da maior profundidade já registrada em todos os oceanos, que são os – 10.912 metros das Fossas Marianas, localizadas ao sul do Japão.
Extensão do Oceano Pacífico e a localização das Fossas Marianas, em preto. O Equador é a linha horizontal que divide a esfera em duas metades (hemisférios)


Observando o mapa acima, pode-se notar que a bacia do Oceano Pacífico apresenta um aspecto rusticamente circular. À direita ou a leste, é limitada pelas Américas (do Norte, Central e do Sul). Já à esquerda ou no limite extremo oeste do Pacífico, estão localizados o Japão ao norte, o arquipélago da Indonésia ao centro, e a Austrália mais ao sul.


Na região onde a esfera terrestre é dividida em duas metades ou hemisférios norte e sul, está a linha do Equador, que marca também a região mais quente do Planeta, também chamada de zona tropical.



Nessa região central (Equador) da superfície do imenso Oceano Pacífico, em condições normais, os ventos naturalmente ocorrem na direção da direita (leste) para a esquerda (oeste), ou seja, da costa da América do Sul, onde estão o Peru e o Chile, para a Região do outro extremo do Pacífico, onde fica a Indonésia. Esses Ventos são os chamados Ventos Alíseos.



Os Ventos Alíseos acabam empurrando para o oeste uma grande quantidade da camada de água mais quente localizada na superfície do Oceano Pacífico. Essa água mais quente acaba se concentrando próximo da costa da Indonésia, onde, nessas condições, a superfície do Pacífico fica cerca de meio metro mais elevada do que na outra extremidade do mesmo Oceano, na costa da América do Sul, onde está o Peru e o Chile.



Esse fenômeno natural também ocasiona uma subida ou ressurgência das águas mais frias das profundezas do Pacífico, que acabam aflorando na extremidade direita deste Oceano, próximo à costa da América do Sul. Essas águas mais frias das profundezas possuem grande quantidade de oxigênio dissolvido, e também sobem carregadas de nutrientes e microorganismos, que servem de alimento para os peixes daquela região.


 
A ilustração mostra a ação dos ventos que concentram as águas mais quentes na esquerda ou oeste, e possibilitam o afloramento ou a ressurgência das águas mais frias na extremindade direita ou leste


A costa esquerda da América do Sul é umas das regiões onde há maior abundância de peixes na Terra. A pescaria de anchovas no Chile e no Peru já registrou a impressionante marca de 12 milhões de toneladas capturadas por ano.
 

Como as águas mais quentes do Pacífico ficam localizadas no extremo oeste, junto à Indonésia, ali ocorre maior evaporação e formação de nuvens. O ar quente também sobe nesse processo de evaporação e é formado então um ciclo de interação e movimento compensatório entre a superfície do Pacífico e a região da atmosfera localizada a cerca de 15 quilômetros de altitude.

Os Ventos Alíseos sopram para a esquerda junto a superfície do Pacifico. A água mais quente é concentrada próximo da Indonésia. Ocorre a evaporação e o ar quente sobe. O ar frio, localizado a cerca de 15 mil metros de altitude, se desloca para a direita. 
Numa reação compensatória, o ar frio desce na outra extremidade do Pacífico, onde fica a região que abrange o Peru e o Chile, na costa sul-americana, que por sinal acaba registrando baixa incidência de chuvas nessas condições.


Outra ilustração que mostra a ação dos Ventos Alíseos, que concentram a água mais quente, em vermelho e laranja, na estremidade esquerda ou oeste do Pacífico, onde ocorre intensa evaporação e elevação do ar mais quente. O ar mais frio da atmosfera desloca-se para direita ou leste


Tudo no Planeta fica equilibrado até o fenômeno El Niño entrar em cena. O El Niño é, à grosso modo, o aquecimento acentuado das águas da superfície do gigante Oceano Pacífico, na região ao longo da linha do Equador. Mas como isso ocorre?



Em primeiro lugar, os cientistas garantem que o El Niño é um fenômeno natural, que ocorre em alguns anos e em outros não, num ciclo não definido e que dura entre 2 e 7 anos geralmente.


Embora não haja certeza, alguns cientistas afirmam que em anos de El Niño, o aquecimento das águas também é ocasionado pela atividade dos vulcões submersos no Pacífico. Outros afirmam que os El Niños coincidem com os anos de maior incidência das manchas solares.



Atualmente, pelo fato de ser um fenômeno natural, os estudiosos só sabem ao certo prever quando um novo El Niño irá começar, o que irá causar, e quando irá terminar.

Sem que possa ser explicado o motivo certo, um El Niño ocorre quando os Ventos Alíseos ficam mais fracos e até, em certas ocasiões, sopram no sentido contrário ao observado em anos que não há El Niño. Essa mudança interrompe o deslocamento das águas quentes para o oeste, onde está a Indonésia.



Com a diminuição da intensidade dos Ventos Alíseos, as águas mais quentes voltam para o leste, ficando distribuídas por toda a região central do Pacífico, sobre a linha do Equador







A superfície do Pacífico fica mais estável e as águas quentes se distribuem por toda região ao longo da linha do Equador. As águas frias não sobem com nutrientes e oxigênio, o que obriga os peixes a migrarem da costa sul-americana esquerda. Muitos morrem.

  

A evaporação ocorre em grande escala na superfície central ou equatorial do Pacífico, o que gera intensa subida do ar quente para a atmosfera. Pela lei compensatória, na região que fica a cerca de 15 quilômetros de altitude, o ar frio é empurrado para os lados e acaba descendo já não tão frio, na região da Indonésia, no norte e leste da Amazônia, e no norte da Região Nordeste Brasileira.





Com o El Niño, o Pacífico fica mais quente (região vermelha e laranja). A evaporação ocorre ao longo da linha do Equador, e as águas mais frias, em azul, não emergem mais na costa da América do Sul, à direita, no leste








Ao contrário do que ocorre com a evaporação das águas quentes, esses ares que descem das regiões superiores da atmosfera em anos de ocorrência do El Niño, acabam inibindo a formação de nuvens, o que explica a intensa seca registrada na Amazônia, na Indonésia e no Nordeste Brasileiro em anos de El Niño.



Nos anos de 1982/83 e 1997/98, o fenômeno El Niño ocorreu com maior intensidade em todo o século 20. Em 1997/98, a Indonésia registrou uma das maiores secas de sua história. Muitas pessoas precisaram usar máscaras para suportarem os altos índices de poluição provocada pelas queimadas e pelos gases emitidos nas grandes cidades.



No Brasil, em 1998, foi registrada grande seca em Roraima, o que ocasionou uma das piores queimadas já ocorrida em todos os tempos na região. No mesmo ano, a seca espalhou fome e miséria na região do semi-árido nordestino brasileiro.









No gráfico que mostra as temperaturas do Pacífico em 1997, ano em que foi registrada a incidência do El Niño com maior intensidade em todo o século 20, as águas mais quentes, em marrom e vermelho, estão distribuídas por toda a região equatorial do Oceano





O El Niño é um fenômeno natural e sempre existiu. Os cientistas pesquisam se o El Niño teria relação com o aquecimento global, mas é necessário separar a variação climática natural ocasionada pelo El Niño, e o aquecimento gerado pelas atividades humanas, diretamente relacionadas com o efeito estufa.



O mestre em Meteorologia, Gilvan Sampaio de Oliveira, responsável pela Operação Meteorológica do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em Cachoeira Paulista/SP, esclarece no livro "O El Niño e Você, O Fenômeno Climático", publicado em 1999, alguns tópicos curiosos sobre o El Niño:



"...Muitas vezes durante o episódio de 1997/98, fenômenos que ocorreram como chuvas excessivas que provocaram enchentes foram atribuídas ao El Niño, quando em muitos casos não era verdade. É aquela velha história: já que ele está ai, vamos colocar a culpa nele ... Bastava acontecer algum evento meteorológico extremo para botarem a culpa no pobre El Niño ... Demonizar o El Niño ou achar que ele é uma catástrofe enviada pelos deuses, ou ainda achar que ele é uma das desavenças de final de século ou de final de milênio, não !!!! Ele é um fenômeno natural que sempre existiu e que vai sempre existir. Não é causado pelo efeito estufa ou pelo aumento de partículas sólidas na atmosfera, como por exemplo a poluição das grandes cidades. Também não é ocasionado pelo chamado buraco na camada de ozônio..." Explica Gilvan Sampaio, nas páginas 1,2 e 3 do livro.



O El Niño já foi observado desde anos remotos, por volta de 622 depois de Cristo (D.C), quando foram verificadas fracas cheias do Rio Nilo, o que prejudicava severamente a atividade agrícola no antigo Egito.



O navegador espanhol Francisco Pizarro registrou uma contracorrente oceânica que vinha do norte para o sul, na costa esquerda da América do Sul, em 1525.



No final do século 19, marinheiros que percorriam em pequenas embarcações a costa do Peru e do Chile, no oeste da América do Sul, observaram a mesma corrente que surgia só em alguns anos, no período próximo ao Natal; por isso, passaram a chamá-la de El Niño (O menino em espanhol), em referência ao menino Jesus.



A chegada da corrente coincidia com chuvas fortes, que transformavam algumas regiões desérticas em frondosos jardins. Por outro lado, os peixes e os pássaros que se alimentavam deles desapareciam daquela região nos períodos dos anos em que ocorria a curiosa corrente.



Ao contrário do El Niño, também pode ocorrer em alguns anos, um resfriamento acentuado das águas centrais do Pacífico, o que também ocasiona diversos distúrbios climáticos no mundo. Nesse caso, o fenômeno é chamado de La Niña (a menina em espanhol).

domingo, 7 de outubro de 2012

O RIO PARAÍBA DO SUL DA NASCENTE À FOZ





Por Cássio Ribeiro


No lugar do choro daquele que acaba de deixar o útero materno, o som do primeiro filete de água que escorre ao desprender-se das entranhas da terra no local conhecido como Lagoa, no alto dos Campos da Serra da Bocaina, dentro dos limites do município de Areias-SP, a 2 mil metros de altitude aproximadamente.


Assim vem ao mundo o senhor Paraíba do Sul "da Silva", um dos brasileiros mais importantes que nascem e morrem dentro da Região Sudeste. Na nascente, o ar gelado e puro do alto da serra e o perfume da mata proporcionam um frescor nas vias respiratórias que lembra a sensação das balas mentoladas.


O personagem mais antigo e importante do Vale surge dentro de uma grota coberta por densa vegetação. A água sai do chão e começa a correr por uma pequena valeta na parte mais baixa do terreno, num modesto fluxo com a mesma intensidade daqueles dos cantos de rua em dias de chuvas fracas.

"A água das chuvas se infiltra nas regiões mais altas e satura o solo. Em determinado ponto do terreno com característica côncava, a água aflora muitas vezes repleta de minerais que entrou em contato nas camadas subterrâneas durante a infiltração", explica o geógrafo Fábio Cox de Britto Pereira, de São José dos Campos.



Depois de vir ao mundo, alguns metros mais adiante, o jovem Paraíba do Sul sai da mata onde nasce, corre através de uma curta canaleta e despenca numa singela queda de aproximadamente meio metro.




Primeiro salto da água do Paraíba
 

A nascente, que é a principal e mais alta de toda a bacia do rio Paraíba, marca o início do rio Paraitinga — rio de águas claras em Tupi Guarani — e está a aproximadamente 35 quilômetros do litoral de Mambucaba, no estado do Rio de Janeiro. Porém, o relevo íngreme da Serra do Mar, obriga o curso d’água a percorrer uma distância de cerca de 1380 quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico, no norte do estado do Rio de Janeiro; formando assim, com uma vasta rede de afluentes, uma das mais importantes bacias hidrográficas da América do Sul.

Para chegar à nascente, deve-se seguir pela rodovia Presidente Dutra até o trevo que fica próximo à cidade de Cachoeira Paulista/SP e, a partir daí, rumar em direção a Silveiras/SP pela rodovia SP-66. 
 
No portal de Silveiras, o turista deve entrar à direita e seguir em direção ao Bairro dos Macacos. A rodovia é asfaltada, porém, sem acostamento e muito sinuosa. São 30 quilômetros de percurso que sobe a Serra da Quebra Cangalha, passa pelo lugarejo Bom Jesus e chega ao Bairro dos Macacos, que possui cerca de 600 habitantes.

O Bairro dos Macacos parece perdido e encravado no meio da serra. No local, o guia perfeito para a subida até à nascente do rio Paraíba é seu Helinho Mecânico. Fazendo jus ao apelido, o quintal de seu Helinho Mecânico é cheio de carros em pedaços: um fusca completamente retalhado, outro sem motor e um terceiro aparentemente inteiro; além de dois jipes, um de fabricação nacional e outro norte americano. O mato por cortar invade carcaças em pleno clima frio das escarpas da serra da Bocaina.

 
Seu Helinho Mecânico é muito falante. Com seu inseparável boné azul, enquanto esquenta a água em uma chaleira sobre o fogão à lenha para fazer café, se alegra ao falar sobre a nascente. Conta que o volume de água onde brota o Paraíba nunca se alterou, mesmo nas estiagens mais rigorosas. Revela ainda que próximo à nascente vive um personagem solitário: seu José Lima, sujeito de pele escura que se retira para trabalhar na roça durante o dia, e que também costuma conversar com um velho rádio AM, concordando com as ofertas anunciadas e debatendo com o aparelho quando discorda de alguma notícia.

 
No percurso até a nascente, que tem início no Bairro dos Macacos, são mais 26 quilômetros de estrada não pavimentada, que se embrenha pela Serra da Bocaina adentro. 

Outra dica de seu Helinho Mecânico é subir com fusca ou jipe bem cedo, após o raiar do dia, pois no fim das tardes de primavera e verão, as chuvas costumam castigar o alto dos Campos da Bocaina. A água misturada com o barro da estrada termina em atoleiro certo.

A vista do Alto da Bocaina compensa o esforço da subida. Pode-se observar, bem abaixo, a Serra da Quebra Cangalha e o Vale do Paraíba Paulista, ao norte, coberto por densa bruma. Ao fundo, a Serra da Mantiqueira forma generosa moldura elaborada pela natureza. Os Campos de Cunha estão a oeste e os cumes da Serra do Mar completam a esplendorosa vista, ao sul.


O outro formador do rio Paraíba do Sul é o Paraibuna, que nasce no Bairro da Aparição, na região dos Campos de Cunha, bem mais abaixo que a nascente considerada a principal, na Serra da Bocaina. 



O nome Paraibuna quer dizer rio de águas turvas na língua indígena. "Apesar de limpo, o rio nasce em uma região rica em sedimentos que escurecem a água", diz o ambientalista Fernando Celso, de Guaratinguetá, que desenvolve o projeto de elaboração de um livro sobre o rio Paraíba do Sul.



O Paraitinga e o Paraibuna são represados e formam o lago da barragem de Paraibuna. O curso d’água que surge na vazão da represa é o rio Paraíba do Sul, que corre para o oeste, na direção da cidade de São Paulo e, curiosamente, a apenas 18 quilômetros do curso do rio Tietê, é impedido de tornar-se um afluente deste pela elevação do Planalto Paulista.
 

Por um capricho da natureza, que parece conspirar para que o Paraíba percorra longo caminho até o mar, o Rio faz a famosa curva de Guararema e entra no Vale a que dá nome, fazendo um giro de 180 graus e correndo para o leste, novamente na direção onde está sua nascente, só que agora em terreno bem mais baixo do que ela.

No sentido literal da expressão, o Vale do Paraíba parece mesmo pertencer ao rio Paraíba, que corre calmo, serpenteando pelo fundo da grande depressão longitudinal existente entre as Serras da Mantiqueira e do Mar.


                                                                   Clique na imagem para ampliar      

Imagem do satélite CBERS, na qual observa-se a Serra da Mantiqueira, ao norte, e o rio Paraíba do Sul, em preto,  serpenteando pelo fundo do vale a que dá nome (Vale do Paraíba). O Paraíba tem o sentido de suas águas da esquerda para a direita da imagem, e passa pelas cidades paulistas de Guaratinguetá, Lorena, Cachoeira Paulista e Cruzeiro, cujas formas urbanas podem ser percebidas em tom de rosa na imagem


Na bacia do médio Paraíba, que se estende de Guararema/SP até Cachoeira Paulista/SP, a declividade média do curso d’água é de 19 centímetros por quilômetro, e as principais atividades econômicas são a agropecuária e a industrial. A baixa declividade faz o Paraíba correr de forma sinuosa. A navegação é impedida por saltos, corredeiras rasas e alguns trechos curtíssimos de alta declividade e encachoeirados.


 O Paraíba correndo tranquilo em seu trecho paulista, num fim de tarde em Guaratinguetá


A Bacia do rio Paraíba possui uma área de 57 mil quilômetros quadrados e se estende por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo formada por 180 municípios que despejam cerca de um bilhão de litros de esgoto por dia no Rio, além do lixo orgânico e industrial equivalente ao produzido por quatro milhões de habitantes. "As corredeiras, em certos pontos, contribuem para a oxigenação da água, que acaba facilitando a decomposição da matéria orgânica pelas bactérias. O rio acaba, em parte, se purificando naturalmente", afirma o engenheiro ambiental Sérgio Pereira, de Guaratinguetá.



Manilha que desemboca no Paraíba do Sul, em Guaratinguetá



 Mesmo com as agressões, a própria natureza cuida da purificação parcial do Paraíba nos trechos em que a água do Rio é oxigenada pelas corredeiras



Apesar da intensa poluição no trecho paulista do Paraíba do Sul, ...




 a tradição da pesca no Rio, herdada dos índios que vivam em suas margens antes da chegada dos portugueses por aqui, permanece viva na região valeparaibana paulista



PERSONAGEM DO RIO PARAÍBA DO SUL
(JORGE DAS PANELAS) 
Em junho de 2006, como relata o texto abaixo, nossa reportagem flagrou de forma casual um típico personagem do rio Paraíba do Sul, em seu trecho de Guaratinguetá. 

Seu Jorge das Panelas, naquela ocasião com 84 anos, não é mais visto pescando à beira do Rio, e não tivemos mais notícias dele. Esperamos de coração que ele esteja bem.


O texto e a foto abaixo foram publicados na extinta revista Pense, em agosto de 2006:

Quem passa pela ponte Dr. Eurípedes Zerbini, sobre o rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá, ao olhar para baixo, logo percebe um guarda-chuva preto preso a uma haste de madeira bem na margem direita do Rio. O conjunto serve como abrigo do Sol para seu Jorge Marinho Barbosa, de 84 anos, morador do bairro do Tamandaré, em Guaratinguetá. Ele pesca no trecho que fica em frente à praça onde está o monumento das Três Garças.

Seu Jorge nasceu em Silveiras / SP, de onde saiu há 72 anos, tempo em que afirma sempre ter pescado e comido peixes do rio Paraíba. O apelido "Jorge das Panelas" é resultado de muitos anos de consertos em panelas de pressão.

Seu Jorge das Panelas


Seu Jorge marca ponto todas as quartas na feira do bairro do Pedregulho e, aos sábados, na feira do Campo do Galvão, ambas em Guaratinguetá.

No Paraíba, ele pesca usando pedaços de carne como isca. Seu Jorge garante que existem algumas piabas que foram soltas na represa de Santa Branca e escapam quando as comportas são abertas para dar vazão ao excesso de água das chuvas.

Jorge das Panelas é carismático, simples e cheio de sabedoria popular. Um exemplo humano típico das raízes do Vale do Paraíba, quase em extinção nos dias de hoje, devido ao crescimento urbano das cidades da região.


CURIOSIDADES DO RIO PARAÍBA DO SUL

                                                                                                Foto: Portal VR        
 A cidade de Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro, recebeu esse nome por causa dessa curva que o rio Paraíba do Sul faz ao passar pela região onde a massa urbana da cidade se desenvolveu, como pode ser observado na foto aérea acima 



 Trecho do rio Paraíba onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora Aparecida por três pescadorres no século 18. Ao fundo, observa-se a Basílica Nacional


São extraídos cerca de cinco bilhões de litros de água do Rio diariamente para consumo. O setor industrial utiliza a metade. A outra metade abastece 14 milhões de pessoas que dependem das águas da bacia do Paraíba do Sul. 90% da população do Grande Rio de Janeiro é abastecida pelo lago do Reservatório de Lajes.



O Paraíba do Sul, com seu volume de água e números estatísticos gigantes, chega ao norte do estado do Rio de Janeiro. Recebe seus dois últimos e maiores afluentes: os rios Pomba e Muriaé. Passa pelas cidades de São Fidélis e Campos dos Goytacazes, que estão há 12 horas de viagem por rodovia, a partir do Vale do Paraíba Paulista, e chega sereno ao 'fim' de uma longa vida, encontrando o mar em São João da Barra. Trata-se do segundo maior deságue em forma de delta da América do Sul.



 Imagem de satétilte com o registro do curso final do rio Paraíba do Sul. No deságue, em São João da Barra / RJ, pode-se observar a coloração alaranjada da água do mar, que é resultante da grande quantidade de sedimentos barrentos levados pelo Paraíba até seu encontro com o Oceano Atlântico


Outra imagem de satélite em escala maior que a anterior, mostra o detalhe da foz do rio Paraíba, que é o segundo deságue em forma de delta da América do Sul

  
Depois de serem maltratadas pelo homem durante todo seu trajeto, ao receberem esgoto, lixo doméstico, lixo hospitalar, lixo industrial e produtos químicos, as águas do rio Paraíba do Sul, assim como as do rio Tietê em São Paulo, se recompõem parcialmente por meio da própria magia da natureza, quase que por um instinto de sobrevivência natural capaz de preservar a vida de um personagem tão importante. 


Personagem  que ajudou a escrever, seja no seu leito com a descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, ou em suas margens com o desenvolvimento das cidades por onde passa, uma parte significativa da História do Brasil.

domingo, 30 de setembro de 2012

A INESQUECÍVEL RÁDIO RELÓGIO FEDERAL





Por Cássio Ribeiro


Nas décadas de 70, 80 e 90, quem ligasse o rádio na sintonia de AM 580 Khz, logo ouvia uma curiosa programação. 


Primeiro um toc toc toc, assim mesmo, um toc toc toc incessante dos segundos ao fundo, e uma transmissão mais ou menos assim: "Você sabia? O primeiro cronômetro marítimo foi construído no ano de 1715 pelo inglês John Harrison. A formiga pode levar 70 vezes o seu peso. A luz do sol demora aproximadamente 8 minutos e meio para chegar à Terra; o prezado ouvinte sabia? Toc toc toc, seis horas, cinqüenta e quatro minutos, zero segundo, pim pim pim toc toc toc." O pim pim pim era mais fino e entrava sempre depois que a hora certa era informada minuto a minuto, 24 horas por dia, pela voz da locutora Íris Lettieri.


Era a ZYJ 465 Rádio Relógio Federal, que marcou época na história do rádio brasileiro. Naqueles tempos, acertar o relógio era sinônimo de sintonizar a Rádio Relógio Federal. Muitas pessoas nem tinham relógio, pois bastava a pilha do rádio estar boa, que a hora era ouvida com um complemento de notas informativas culturais minuto a minuto, sem interrupção.


No meio da década de 80, muitas mães abriam a porta e a janela do quarto das crianças lá pelas 6, 7h da manhã:

— Você vai perder a hora da aula !

O sol matinal então invadia o ambiente e o rádio era ligado na Rádio Relógio. A rotina diária de muita gente começava assim: "Você sabia? O coração da baleia da Groelândia pode pesar até 5 toneladas. A palavra Maricá tem origem no Tupi, e significa capim de espinhos." E o toc toc dos segundos sempre ao fundo. "A pulga consegue pular a uma distância correspondente a 350 vezes o comprimento do seu corpo. É como se um ser humano pulasse a distância de um campo de futebol. Cada minuto que passa, um milagre que não se repete, toc toc toc, seis horas, cinqüenta e cinco minutos, zero segundo pim pim pim toc toc toc... Rádio Relógio Federal; cultura, noticias e a hora certa do Observatório Nacional, 24 horas no ar, minuto a minuto." 
E assim a programação "fluía". No lugar de ponteiros girando, ou números digitais se sucedendo, as vozes, o toc toc toc e o pim pim pim incessantes ecoavam nos 580 Khz do rádio.


Muita gente, principalmente as crianças, achava que a "pobre" locutora Íris Lettieri ficava 24h tendo que dizer a hora certa a cada minuto, e que só podia alimentar-se ou ir ao banheiro no intervalo entre cada minuto que informava. E os cochilos? como seriam? Se ela logo "tinha" que voltar correndo para dizer: "Seis horas, cinqüenta e seis minutos, zero segundo pim pim pim toc toc toc...."


Claro que as gravações das 24h reproduzidas minuto a minuto pela Rádio Relógio foram feitas aos poucos, em um antigo equipamento chamado Gerador de Hora Falada, fabricado pela firma alemã Assmann, em 1975.

 O gerador de hora falada que era usado na Rádio Relógio Federal


 Três momentos da voz da hora da Rádio Relógio; a jornalista, atriz, e locutora carioca Íris Lettieri. Primeiro como modelo, ...



 como capa da 1ª revista colorida brasileira, O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, ...





e atualmente na casa dos 70. A locutora tem sua bela voz reproduzida nos principais aeroportos do Brasil, orientando o horário e o local de embarque dos passageiros. Íris diz que criou uma entonação de tranquilidade para as locuções em aeroportos, a fim de transmitir calma aos passageiros que tem medo de voar. Por ter a voz com característica tão singular e marcante, a locução de Íris já foi tema de várias reportagens pelo mundo. Em 1992, a locutora teve, sem sua permissão, a gravação de sua voz usada pela banda Faith No More na música "Crack Hitler", do CD Angel Dust. Íris processou a Banda.


Abaixo, o leitor pode ouvir o trecho original de uma transmissão da Rádio Relógio Federal.



 http://www.youtube.com/watch?v=pp_k-xte1nI


Alguns comerciais da Rádio Relógio também marcaram época e ficaram famosos: "Material elétrico, alta e baixa tensão, atacado e varejo; R. Pinto, que canta de galo com preço de milho picado; General Caldwell, 173, pertinho da Central. Pneu carecou? HM trocou!


A Rádio Relógio Federal foi fundada em 1956. Passou a pertencer, desde 1966, à denominação evangélica Igreja Pentecostal de Nova Vida, do Bispo Roberto McCallister. À exceção dos domingos, quando transmitia os cultos da Igreja de Nova Vida das 7h da manhã às 23h, a programação diária da Rádio era:

Do minuto zero ao minuto 10: Cinema na relógio
Do minuto 10 ao minuto 15: Agenda relógio
Do minuto 15 ao minuto 20: Relógio Notícias
Do minuto 20 ao minuto 30: Falando de Esportes
Do minuto 30 ao minuto 35: Café Espiritual com o bispo Roberto McCallister

Do minuto 35 ao minuto 45: Movimento cultural da Relógio
Do minuto 45 ao minuto 50: Relógio Notícias
Do minuto 50 ao minuto 59: Você sabia?


No início da década de 1990, passando por dificuldades financeiras e com baixos índices de audiência, a Rádio Relógio foi vendida para a Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada e liderada pelo pastor missionário R.R. Soares. Chegava ao fim o estilo radiofônico tão singular da saudosa Radio Relógio Federal, que tanto marcou gerações e foi um dos grandes símbolos de uma época no rádio brasileiro.

domingo, 23 de setembro de 2012

AS DUAS IRLANDAS







Por Cássio Ribeiro



As Ilhas Britânicas são uma continuação física do continente Europeu. O bloco continental que forma a Europa fica com a superfície submersa na região do Canal da Mancha, que separa as Ilhas Britânicas do litoral da Europa, onde se localiza a França.


 
Imagem de satélite da Europa: no meio da imagem, à esquerda, observa-se o arquipélago britânico, ...



que é separado da Europa pelo Estreito de Dover. De Dover, na Inglaterra, até o cabo Gris-Vez, na região de Calais, que fica no norte da França, são 33 quilômetros de mar sob o qual passa o Eurotúnel. Os 33 km do Estreito de Dover são a menor distância entre as duas margens do Canal da Mancha. O nome do Canal é devido à mancha da platafroma continental da Europa, que mesmo sob as águas, pode ser observada claramente de cima.



O arquipélago britânico é formado por 6 mil ilhas. As duas maiores e mais importantes são a Grã-Bretanha e a Irlanda. A Grã-Bretanha é a maior, e possui 244 mil quilômetros quadrados. Já a Irlanda, bem menor, tem uma área de 84 mil quilômetros quadrados.


Os primeiros habitantes que originaram a população da Irlanda foram os Celtas, os mesmos que originaram a maioria da população da França. Já a Grã-Bretanha, é formada pela Inglaterra dos bretões, pelo País de Gales dos galeses, e pela Escócia dos escoceses.


A Irlanda foi cristianizada a partir do século 5, mas os irlandeses nunca formaram um reino único. Já em seu início, a Ilha foi dividida pelos irlandeses em quatro reinos fracos, o que culminou com a dominação da Irlanda pelos reis ingleses, a partir do ano de 1171.


Em 1534 na Inglaterra, a Reforma Anglicana tornou o protestantismo a religião oficial inglesa, também seguida no País de Gales e na Escócia. Na ilha da Irlanda, ao norte, alguns ingleses e galeses que lá viviam, passaram a seguir o anglicanismo protestante, porém, os irlandeses daquela região decidiram continuar católicos, a fim de que sua identidade cultural e nacional permanecessem preservadas apesar da dominação inglesa.


 As duas maiores ilhas do arquipélago britânico: Grã-Bretanha, a direita, que abrange os territórios da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia, ao norte. A Irlanda, à esquerda em amarelo e roxo, é a segunda maior ilha do arquipélago



 Bandeira do País de Gales



 Bandeira da Inglaterra



 Bandeira da Escócia




A união entre as bandeiras da Inglaterra e da Escócia, mais a antiga bandeira da ilha da Irlanda, dominada inicialmente por inteiro pela Grã-Bretanha, originou a bandeira do Reino Unido



 Reino Unido




Para promover o fortalecimento de sua dominação na Irlanda, a Inglaterra cedeu para imigrantes escoceses e ingleses, terras que pertenciam a irlandeses. O ato era chamado de Plantation, e concentrava nas mãos dos colonizadores ingleses, extensos latifúndios cultiváveis. Essa política provocou a revolta inicial dos irlandeses contra a rainha inglesa Elisabeth I (1558-1603).

Em 1847 e 1848, a Irlanda foi devastada pela Grande Fome, que foi uma praga generalizada nas plantações de batatas, que eram o alimento básico da grande parcela da população de pobres irlandeses. Num total de 8,5 milhões de irlandeses católicos, 800 mil morreram de inanição na ocasião.

O governo inglês não tomou nenhuma providencia para tentar controlar a devastação causada pela fome. Milhões de irlandeses emigraram para os Estados Unidos. A população da Irlanda foi reduzida para 4 milhões de habitantes em 1900.

Os protestantes ingleses, em número de 750 apenas, eram donos de mais de 50% das terras cultiváveis irlandesas. Os católicos controlavam apenas 14% destas terras, por meio de pequenas propriedades.

As indústrias da Irlanda, concentradas ao norte, também eram controladas por ingleses, escoceses e galeses, que, em função da forte imigração operária, eram a maioria na região norte da irlanda. Em 1916, no domingo de Páscoa, ocorreu uma revolta irlandesa nacionalista, que foi dominada pelo exército inglês após sangrentos confrontos.

Em 1919, os parlamentares irlandeses eleitos nas eleições gerais do Reino Unido inglês não aceitaram fazer parte da Câmara dos Comuns, que incluía representantes da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda. Os representantes da Irlanda decidiram formar um parlamento paralelo, chamado de Dáil Éireann, que expediu imediatamente a Declaração Unilateral de Independência da proclamada República Irlandesa, mas o ato não foi reconhecido internacionalmente.

As tropas britânicas e os voluntários da Irlanda do Norte entraram em ação. Foram dois anos de conflitos militares e ataques terroristas com bombas, na chamada Guerra Anglo-irlandesa, ou Guerra da Independência da Irlanda.


Em 1921, o governo do Reino Unido e líderes da Irlanda firmaram um acordo no tratado Anglo-Irlandês, que reconhecia o estado livre da Irlanda, correspondente a 85% do território da ilha irlandesa, e o Ulster, que representa 15% do território da Irlanda e, sendo também chamado de Irlanda do Norte, permaneceu controlado pelo Reino Unido da Grã-Bretanha, já que a maioria de sua população é formada por protestantes escoceses e ingleses, e uma minoria de irlandeses católicos.


 Após o tratado Anglo-Irlandês, em 1921, o domínio inglês permaneceu apenas sobre a Irlanda do Norte, ...

que ainda pertence ao Reino Unido


Bandeira da Irlanda do Norte




Após o reconhecimento, o estado da Irlanda foi integrado à Comunidade Britânica das Nações (Commonwealth), mas os irlandeses nunca tiveram um sentimento de união política e econômica com o Reino Unido. 

 Na Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), os outros membros da Commonwealth (Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e Canadá) participaram do conflito como aliados do Reino Unido. A Irlanda permaneceu neutra.


 
Em 1949, a Irlanda deixou de participar da Commonwealth e proclamou sua total independência, com o nome de República da Irlanda ou Eire, que quer dizer "ilha" em seu idioma original céltico.
  

Bandeira da República da Irlanda, que é a porção sul da ilha irlandesa, e abrange 85% de seu território, ...


 cuja população é católica





 Dublin, capital da República da Irlanda



Como a República da Irlanda era um país agrário, com reduzidas oportunidades econômicas, muitos católicos migraram para a Irlanda do Norte, em busca de trabalho nas indústrias ligadas ao Reino Unido, e concentradas naquela região. 


Hoje, os católicos constituem 40% da população total da Irlanda do Norte, e sofrem intensa discriminação por parte dos 60% protestantes da população, ligados à Grã-Bretanha.


Em 1956, foi criado na República da Irlanda o IRA (Irish Republican Army) ou Exército Republicano Irlandês, que é uma organização terrorista que reivindica a unificação entre a República da Irlanda (Eire) e os seis condados que formam a Irlanda do Norte (Ulster). 


O IRA já executou vários atentados à bomba e assassinatos de autoridades britânicas e membros das lideranças protestantes da Irlanda do Norte. A principal ação do IRA foi a explosão, em 1979, da lancha pilotada pelo tio da rainha Elisabeth II, e considerado, na Inglaterra, herói da Segunda Guerra Mundial, almirante lorde Mountbatten. 


 





Embora o IRA tenha sido criado oficialmente em em 1956, voluntários que defendiam a República da Irlanda durante a Guerra da Independência da Irlanda, no início da década de 1920, já eram chamados de membros do IRA (Exército Republicano Irlandês)



As reações das forças de segurança do Reino Unido e dos protestantes da Irlanda do Norte também já provocaram muitas mortes entre a população católica da República da Irlanda. 

O episódio mais conhecido aconteceu em 1972, quando 14 civis católicos foram mortos por soldados ingleses em Belfast. O Fato ficou conhecido como "Domingo Sangrento", e virou tema de uma canção da banda de rock irlandesa U2.


Ainda em 1972, o governo do Reino Unido colocou a Irlanda do Norte sobre seu controle direto, por meio de uma ocupação militar. Só em 1998, o primeiro ministro trabalhista inglês Tony Blair estabeleceu um acordo entre ele, o primeiro-ministro da República da Irlanda, e os representantes protestantes da Irlanda do Norte, com direito a intevenção do presidente dos Estados Unidos na ocasião, Bill Clinton. O acordo ficou conhecido como Acordo da Sexta-Feira Santa.


No acordo, ficou estabelecida a realização de eleições para a formação de um parlamento na Irlanda do Norte, que indicaria um primeiro-ministro para comandar politicamente a região, que continuaria ligada ao Reino Unido, porém, com certa autonomia. Os católicos passaram a ter o direito de votar na Irlanda do Norte, o que antes não acontecia. 


Belfast, capital industrializada da Irlanda do Norte (Ulster), onde foi assinado o Acordo da Sexta-Feira Santa, em 1998



Apesar do acordo, nem o IRA, que quer a unificação entre as duas irlandas e a formação de uma só república, nem os extremistas protestantes, que querem continuar ligados à Grã-Bretanha, resolveram abandonar de vez as armas. Ambos os lados ainda possuem membros extremistas que apostam em ações violentas, a fim de que os resultados derrubem o acordo estabelecido em 1998.