domingo, 16 de setembro de 2012

A CURIOSA VIDA DAS ABELHAS





Por Cássio Ribeiro

As abelhas tem seu período médio de vida determinado de acordo com as atividades que exercem dentro de sua comunidade. Esse período também depende da época do ano em que ocorre o nascimento das abelhas de uma colméia.

A sociedade das abelhas é rigorosamente harmoniosa, organizada e dividida em duas castas, uma reprodutora e a outra estéril. A casta reprodutora é formada pelas rainhas e os zangões.

A rainha é responsável apenas pela postura dos ovos, e é o indivíduo da colméia que possui a vida mais longa, chagando a viver até cinco anos. Já o zangão, possui a única função de fecundar a rainha e vive apenas cerca de 80 dias.

A casta estéril é formada pelas abelhas operárias, que possuem o aparelho genital atrofiado, mas são equipadas e próprias para os vários trabalhos de construção, manutenção e alimentação da colméia.

A vida das abelhas operárias dura entre quatro e oito semanas, de acordo com a época de seu nascimento. Elas vivem mais quando nascem no outono, pois precisam esperar pelas abundantes flores que surgirão na primavera.

Na sistemática classificação do reino animal, as abelhas são insetos divididos em várias espécies: lingustica, carnica, sivula e unicolor. Porém, a palavra abelha é geralmente usada para indicar a abelha doméstica, cujo nome científico é Apis Melífera Ligustica.



 A raça Apis Melífera Ligustica



As várias raças de abelhas apresentam diferenças marcantes, tanto no comportamento quanto na forma, mas sempre há um ponto comum, que é a administração de suas colméias.


Todas as espécies vivem em grupos familiares formadores de sociedades que duram vários anos, e são regidas pelo poder feminino, sendo as componentes de uma determinada colméia sempre provenientes de uma única fêmea rainha.


As abelhas operárias são menores que as reprodutoras (rainha e zangão). Sua forma é diretamente ligada às atividades que devem realizar durante a vida. As operárias executam trabalhos diferentes que se modificam com o passar do tempo, sendo o envelhecimento, assim como nos humanos, um motivador do aumento gradativo de sua experiência e um determinador de suas mudanças de atividade.


Durante os cerca de 80 dias de sua existência, a abelha operária passa pelas seguintes fases de vida que determinam suas atividades: os ovos da rainha “amadurecem” durante três dias. Surge então uma larva sem patas, que se alimenta ativamente, fazendo de 1000 a 1300 refeições diárias.


Toda essa intensa alimentação faz a larva aumentar seu peso em cinco vezes só nas primeiras 24 horas de vida. Seis dias depois de deixar o ovo, a larva, que ainda vive no alvéolo (célula onde a rainha põe seus ovos na colméia) fecha-se num casulo de seda. Começa a chamada fase crisálida, que é o estágio de 12 dias em que a larva se transforma em um inseto prefeito, atingindo sua forma adulta e definitiva.



Nos próximos 14 dias, a jovem abelha operária desempenha sua primeira função dentro da colméia, que é a de produzir alimento para a rainha, os zangões e as novas larvas. Só depois desse período inicial de trabalho dentro da colméia, a operária sai para procurar alimento, tornando-se assim uma abelha coletora.
 
Jovem abelha produzindo alimento

 

A fase coletora de uma abelha dura cerca de 7 dias apenas. Depois desse período, as operárias entram na idade senil e voltam a trabalhar dentro da colméia, realizando as atividades que necessitam de mais experiência para serem executadas (produção de cera, construção de favos e alvéolos, limpeza, proteção da entrada e ventilação da colméia). Em caso de necessidade, as operárias senis podem voltar a coletar alimentos.


Como coletora, cuja função é desempenhada num breve período de 7 dias durante a vida e ...


na última fase da vida, mais maduras e experiêntes, construindo e cuidando da colméia



A abelha rainha tem como função exclusiva a procriação, e pode produzir entre 1500 e 2000 ovos por dia. Possui, portanto, o maior tamanho corporal; tem abdome grande e alongado em forma de cone. Suas asas não cobrem completamente o abdome e são maiores que as asas das abelhas operárias.


O aparelho bucal da rainha não a possibilita produzir cera, geléia real e coletar pólen como as abelhas operárias. Durante a vida, que pode chegar a cinco anos, a rainha só sai da colméia para o vôo nupcial, que ocorre entre o 5º e o 7º dia de sua vida. Sua alimentação durante a vida é constituída exclusivamente de geléia ou gelatina real, produzida pelas glândulas situadas sob a faringe das abelhas operárias em sua fase jovem de vida, na qual desempenham a função alimentadora.



Dois momentos da rainha: apontada em destaque entre população da colméia e ...



rodeada por várias operárias durante a ovulação


Os zangões, que podem viver em média entre 40 e 80 dias, têm o corpo de tamanho médio, não tão grande quanto o das rainhas e nem tão pequeno quanto o das operárias. As asas dos zangões são geralmente do tamanho do abdome, que é mais curto e grosso em relação ao das fêmeas.

 
 
operária à esquerda, zangão à direita e a rainha ao centro, com corpo maior e mais alongado


Os olhos dos zangões são bem desenvolvidos, porém, eles não tem características físicas que os possibilitem alimentar-se sozinhos ou desempenhar algum trabalho dentro da colméia.


Os zangões são fortes, mas são inúteis para a vida em comunidade. Não possuem ferrão, glândulas para a produção de mel e coletor de néctar. A única função dos machos é fecundar a rainha virgem, mas morrem logo após a cópula. Quando se separa do zangão, a rainha arranca os órgãos genitais e parte dos intestinos do macho.



Os zangões são úteis apenas no período que vai do fim da primavera ao verão, quando as fecundações acontecem. Os machos que não fecundam, e por isso não morrem no ato da cópula com a rainha, são abandonados fora da colméia e eliminados pelas abelhas operárias.


 
Momento em que um zangão é eliminado por um grupo de operárias


As colméias possuem um número médio e constante de indivíduos de acordo com as necessidades de manutenção das mesmas. Por exemplo, uma colméia média é formada por cerca de 100 zangões, uma abelha rainha e 60 mil abelhas operárias.


A atividade em uma colméia acontece com maior intensidade durante o dia, quando a luz solar garante uma maior quantidade de flores abertas nas plantas, sendo assim bem mais farta a oferta de pólen e néctar na natureza. Também há atividade nas colméias à noite, embora seja bem menos intensa que durante o dia.


Embora as abelhas coletoras tenham como principal atividade a função de transportar pólen e néctar, também carregam bálsamos e própoles, que são substâncias pegajosas de cor escura derivadas de plantas resinosas. A própole é o material “cimentador” usado na construção dos favos e para tapar as fendas das colméias, além de cobrir os “cadáveres” de seres intrusos à colméia. Os bálsamos são usados para envernizar o interior dos alvéolos antes que a rainha deposite ali seus ovos.


 
  Abelhas operárias fechando as células hexaédricas dos favos




Outro elemento de extrema importância para a manutenção da vida na colméia, e que também é transportado pelas abelhas coletoras, é a água, que é essencial para manter a temperatura amena na colméia, principalmente nos períodos mais quentes do ano.


Apesar de toda essa mobilização ativa na colméia, a coleta de pólen e néctar é sem dúvida a atividade mais importante. É espetacular a atividade das abelhas operárias durante a coleta desses dois alimentos. Para uma abelha operária coletora completar uma carga de néctar, deve visitar cerca de mil flores.
 

Como a carga média transportada por uma abelha é de 5 miligramas por vez, e uma colméia chega a produzir cerca de 1 quilo de mel por dia durante a estação das flores, são necessários milhares de vôos realizados por cerca de 30 mil das 60 mil abelhas operárias de uma colméia.


A vida de uma colméia é definida por regras bem claras, e está diretamente ligada à manutenção da sobrevivência da espécie. A rainha exerce influência sobre todas as outras abelhas de sua colméia por meio de uma secreção glandular que cobre todo o seu corpo.


As abelhas operárias distribuem, de boca em boca, essa secreção glandular para todos os indivíduos da colméia. A substância química distribuída informa que a rainha está viva para todas as abelhas.


Caso a rainha morra, ou o número de indivíduos de uma colméia cresça ao ponto de a rainha não conseguir mais produzir a secreção glandular em quantidade suficiente para “marcá-los” todos, é necessário substituir a rainha. As abelhas alimentadoras escolhem e preparam algumas larvas entre as quais será escolhida uma nova rainha.


No caso de uma velha rainha morrer, a escolha da nova rainha será rápida e garantirá a sobrevivência da colméia. Já no caso da rainha permanecer viva, mas sua secreção glandular ser insuficiente para todos os indivíduos de sua colméia, haverá uma disputa mortal pelo trono entre as novas rainhas candidatas. Nesse caso, a velha rainha deixará a grande colméia para a vencedora e, acompanhada por algumas operárias que lhe serão fieis, sairá em busca de outro lugar adequado para construir uma nova colméia.


As abelhas também possuem capacidade de comunicação umas com as outras. Um curioso exemplo dessa comunicação é o clássico método de transmissão da informação sobre as fontes de alimentos encontrados pelas coletoras durante seus vôos de exploração.


Quando uma abelha coletora localiza uma nova fonte de alimentos, volta à colméia levando consigo pólen, néctar e perfume das flores do novo lugar que descobriu e visitou. A coletora inicia uma dança que permite às outras abelhas a localização das flores do lugar da nova fonte de alimentos.


A “dançarina” traça desenhos no ar com seus vôos e realiza movimentos de diferente intensidade com o abdome. Os movimentos fornecem às outras abelhas dados esclarecedores sobre a distância e a direção do novo lugar dos alimentos em relação à colméia.


O tipo de pólen e o perfume que trás consigo informa a espécie de flor da nova fonte de alimento. A intensidade, o ritmo e a cadência dos movimentos do abdome indicam a consistência, a distância e a direção do novo depósito de pólen e néctar descoberto.


Por meio de experiências realizadas, foi observado que uma abelha coletora indica, por meio de seus movimentos corporais, novas fontes de alimentos a até 3 quilômetros de sua colméia, com uma precisão de 50 metros. A “dança” também serve para informar a localização de locais adequados para a construção de novas colméias.



Após sua dança, a descobridora voa de novo para a nova fonte de alimentos, acompanhada por outras abelhas coletoras. Se no retorno dessa expedição ainda houver alimento abundante na nova fonte descoberta, uma nova viagem será realizada com um número maior de abelhas coletoras.


As coletoras são capazes de compreender a dança de abelhas da mesma espécie, mesmo que sejam de colméias diferentes. Porém, não existe comunicação entre operárias de espécies diferentes pois, embora todas as abelhas se comuniquem por meio de um mesmo tipo de linguagem corporal, o “dialeto” diferente de cada espécie torna a dança incompreensível entre espécies diferentes.


É prudente não incomodá-las!

As abelhas apresentam aspectos muito curiosos em relação à sua organização social e aos estudos dos mecanismos bioquímicos e fisiológicos exercidos pela rainha no controle de sua colméia. 



Fascinante também é a constatação de que as abelhas podem ser treinadas, tal como os roedores. Esse curioso inseto pode ser condicionado a apertar uma alavanca em grupo, ou realizar outra tarefa simples para obter alimento, uma solução de açúcar por exemplo.



Abelhas: frágeis sozinhas, fortes quando em grupo. Exemplo de organização social coletiva que, embora sejam irracionais, podem ter em diversos aspectos seus educados exemplos organizacionais adotados como modelo pelo racional ser humano.

domingo, 9 de setembro de 2012

JOSÉ AMARO: O HOMEM QUE AMOU O FORTE ORANGE





Por Cássio Ribeiro


Nossa história começa com um nome: José Amaro de Souza Filho; e uma sentença: 20 anos de prisão por homicídio, decretada em 1970.


Zé Amaro, como era conhecido na Ilha de Santa Cruz do Itamaracá, a 50 quilômetros de Recife, nasceu em Pernambuco, morou, tomou conta e cuidou do Forte Orange, que é uma belíssima fortaleza construída pelos holandeses em 1631, um ano depois de invadirem e dominarem Pernambuco.


O belíssimo cenário onde fica o Forte Orange, no detalhe abaixo à direita



A história de Zé Amaro se liga a do Forte Orange de forma muito curiosa. Levado à Casa de Detenção do Recife, em 1970, para começar a cumprir sua pena por homicídio, Zé, que nunca tinha ido à escola, aprendeu a ler e escrever com outro detento na prisão.


Depois de um ano preso, a Casa de Detenção do Recife foi fechada e Zé Amaro transferido para a Penitenciária Agrícola de Itamaracá (P.A.I), em 1971.


Como era um prisioneiro com bom comportamento e apresentava senso de cooperação, além de desempenhar a atividade artesanal entalhando peças de madeira, Zé Amaro foi selecionado junto com outros 39 presos para formar uma equipe de limpeza do Forte Orange, que seria restaurado pelo Exército Brasileiro entre 1971 e 1973.


Zé Amaro e os outros presos capinaram, tiraram o lixo e recolheram os cocos verdes da antiga fortaleza. Foi nessa ocasião, já no primeiro encontro com o Forte, que Zé Amaro apaixonou-se pela construção histórica: Eu dizia a todo mundo que quando deixasse a cadeia eu ia morar no Forte e tomar conta dele. Fiquei encantado. Naquele dia resolvi que faria de tudo para passar o resto da vida no Forte”, relembrou Zé Amaro em ocasião posterior.


No momento do primeiro encontro com o Forte Orange, Zé Amaro fez uma promessa para Nossa Senhora da Conceição: se fosse possível viver ali, passaria um ano acorrentado a uma bola de ferro. 


Zé Amaro: amor pelo Forte Orange à primeira vista




Três anos depois, em 1974, a promessa de Zé Amaro parecia ainda não ter surtido efeito. O detento foi transferido de presídio novamente e seu contato com o Forte Orange foi interrompido. Sendo assim, Zé Amaro dedicou-se exclusivamente ao artesanato, fabricando peças entalhadas em madeira.


Os trabalhos artísticos e o bom comportamento mais uma vez renderam ótimas referências de Zé Amaro com as autoridades policiais.
 


Zé foi convidado para participar de uma exposição artística no Paraguai, ainda na década de 70: “Eu fui o primeiro preso a sair do Brasil sem escolta”, relatou Amaro, que na ocasião da viagem enfrentou protesto de outros detentos, que apostaram que Zé não voltaria mais ao Brasil.


Porém, ao fim da exposição paraguaia, Zé Amaro voltou ao presídio motivado a continuar o trabalho artístico com esculturas. Passou a ensinar a arte de esculpir e entalhar madeira a outros detentos. Algumas pessoas doavam madeira para que ele pudesse desenvolver as oficinas e a criação das peças que foram exibidas em várias exposições pelo Brasil.

Com a atividade artesanal e os trabalhos com os outros presos, Zé Amaro conseguiu obter das autoridades a redução de sua pena e, após ficar preso 8 dos 20 anos totais de sua sentença, adquiriu a liberdade condicional, em 1978.

Com a liberdade, Zé Amaro viu novamente vivo o sonho de viver no Orange. Pediu permissão ao Exército para morar no Forte, e se comprometeu a limpar e restaurar a fortaleza dentro das limitações de seus recursos financeiros próprios.


A permissão para viver no Orange foi concedida, porém, a nova moradia, sem água encanada, energia elétrica e estrada de acesso, não apresentava um mínimo de conforto.

Zé Amaro encontrou um depósito de lixo a céu aberto, que servia de esconderijo para marginais. No meio da sujeira, Zé achou uma antiga bala de ferro usada pelos holandeses nos canhões que repeliam as embarcações que se aproximavam da costa de Pernambuco.

A promessa feita para Nossa Senhora da Conceição pôde ser paga. Com o auxílio de um tipo de algema e uma corrente, Amaro prendeu a bala de canhão pouco acima do tornozelo direito, e a arrastou por um ano, até que conseguiu limpar todo o Forte Orange. 


“Na ilha, todos me chamavam de maluco do forte, de doido. O povo achava que eu era um fantasma. Eu vivia como um ermitão. Sofri muito preconceito; além de ‘maluco’, eu era ex presidiário”, recordou Zé Amaro. 



Amaro tinha apenas uma enxada para limpar o matagal. Aos poucos, as ruínas foram novamente ganhando jeito de monumento histórico de verdade.

A recuperação do Forte Orange era financiada com o dinheiro das vendas das peças de madeira e das esculturas produzidas nas oficinas que Zé Amaro continuou realizando com os amigos presos, mesmo depois de ter saído da cadeia.

A renda gerada pela venda do artesanato era modesta, porém, suficiente para ser aplicada na iniciativa de restauração do monumento histórico.

Depois do Orange limpo e sem a bala de canhão amarrada ao pé, Zé Amaro sentiu a necessidade de arrecadar recursos para uma restauração mais profunda na fortaleza histórica, e foi à Brasília: “Era 1991, mas o presidente Collor não me recebeu e seus assessores não deram ouvidos ao que eu disse”, afirmou Zé Amaro, que não desistiu, e foi à embaixada da Holanda, onde foi orientado a criar uma fundação.


Em 1994, Zé Amaro e a esposa Gilsilene Souza abriram a Fundação Forte Orange: “Com a Fundação, o governo holandês liberou um dinheiro e o Forte pôde ser restaurado por inteiro, com a construção de banheiros e do portão”, disse Zé Amaro.


Na mesma ocasião da criação da Fundação, em 1994, Itamaracá ganhou seu primeiro museu, localizado no Forte Orange. O museu foi inaugurado pelo então Embaixador da Holanda Hendrix Van Oordt, e apresentava verdadeiras relíquias encontradas em escavações feitas no local, como peças dos tempos das ocupações holandesa e portuguesa (balas de canhão, crucifixos e artefatos de ferro).


Em 1996, apesar de ter concretizado seu sonho, Zé Amaro passou a viver um tormento. O Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Prefeitura de Itamaracá decretaram o Forte patrimônio nacional e Zé Amaro foi despejado do local, então já aberto à visitação pública.

Zé Amaro não desanimou e foi ao então ministro da Cultura, Francisco Weffort, e relatou sua história: “Quando terminei de falar, ele me deu a autorização para continuar a trabalhar no forte e me ofereceu uma casinha ao lado da fortaleza",  afirmou Zé Amaro.


Construído em 1631, o Forte Orange também serviu como prisão de frades portugueses avessos à implantação do calvinismo holandês no nordeste brasileiro. Com a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, o forte foi reformado pelos portugueses para proteger a cidade vizinha de Igaraçu. Os lusitanos também rebatizaram o forte com o nome de Fortaleza de Santa Cruz do Itamaracá, porém, o novo nome nunca pegou, tendo o nome dado pelos holandeses, Forte Orange, permanecido até os dias atuais

No interior do Forte, além do museu, havia uma loja de venda dos artesanatos feitos por Zé Amaro e uma capelinha. Para chegar à ilha de Itamaracá (“pedra que canta” em tupi) o visitante deve seguir pela BR-101 no sentido norte até Igaraçu. A partir daí, pega-se a estrada PE-35. A ilha é ligada ao continente por uma ponte sobre o rio Jaguaribe, e fica a 50 quilômetros de Recife

Deitado em uma rede armada embaixo da sombra de um pé de jamelão plantado por ele mesmo, Zé Amaro, que era conhecido na ilha como “O Guardião do Forte”, controlava os barraqueiros e fiscalizava o turismo ao redor do Orange, além de tomar conta do mangue e se exaltar com quem jogava lixo onde não devia.


Depois da ordem de despejo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) deu a Zé Amaro uma medalha de honra ao mérito, em dezembro de 2002.


Em outubro de 2010, o forte Orange foi novamente fechado à visitação pública. A partir de então, Zé Amaro passou a se dedicar a uma criação de codornas e a uma venda na cidade de Itamaracá.

Um mês depois, em 29 de novembro de 2010, Zé amaro, então  com 60 anos, dirigia uma caminhonete por volta das 18 horas quando foi assassinado com vários tiros. 

Segundo a polícia, o crime foi motivado pela concorrência com o dono de outra venda que ficava próxima ao local onde Zé Amaro também vendia seus produtos: "Ele só estava trabalhando. Eu tenho certeza que esse crime tem relação com o novo negócio", contou, na época, a esposa de Zé Amaro, Gilsinele Silva Souza.

Em janeiro deste ano (2012), o comerciante Paulo Félix de Moura foi preso em Itamaracá acusado de ser o mandante da morte de Zé Amaro, o guardião do Forte Orange.


A polícia prendeu Paulo Félix por meio de uma denúncia. Paulo foi indiciado por matar como queima de arquivo o executor do assassinato de Zé Amaro, Renato Vieira da Silva. A Ossada de Renato foi encontrada em uma mata perto da casa de Paulo Félix, com uma marca de bala no crânio.

Renato estava desaparecido há 2 meses, desde que passou a ser o principal suspeito de ter matado Zé Amaro. Renato foi visto pela última vez subindo na caminhonete de Paulo Félix, que carregava algumas ferramentas de escavação na carroceria.



Zé Amaro, que dos 60 anos de vida dedicou 29 para cuidar do Forte Orange, confessou a vontade de viver muito tempo ainda no local. Ele disse que em suas orações pedia para não morrer logo a fim de poder continuar tomando conta da fortaleza e viver na ilha de Itamaracá: “Eu não posso me separar da ilha porque sou uma parte do Forte Orange. Eu sou uma pedra do Forte e não posso sair dali. Escolhi a ilha para morar e com fé em Deus vou viver muitos anos ali. Dei minha vida para aquele lugar e não me arrependo. Faria tudo de novo sem pestanejar”, afirmou Zé Amaro antes de morrer.


A trajetória do ex presidiário Zé Amaro, que virou símbolo da preservação do patrimônio histórico no Brasil e deixou cinco filhos: Sol, Marte, Vega, Sérgio e Alberico, é retratada no documentário "Orange de Itamaracá", de Marcio Câmara e Franklin Júnior.

domingo, 2 de setembro de 2012

A ESTRADA REAL





Por Cássio Ribeiro
 
No meio do século 17, por volta do ano de 1654, a crise econômica e a concorrência que desvalorizavam o açúcar no mercado internacional tornaram necessário que fossem encontradas novas fontes de geração de capital e riquezas, a fim de substituírem as plantações de cana no Brasil Colônia.


Sendo assim, partiram várias expedições ou bandeiras da pequena Vila de São Paulo que, na época, possuía apenas algumas centenas de habitantes. Seus integrantes, chamados de bandeirantes, como os pioneiros Jacques Felix e Fernão Dias, eram mestiços de portugueses com índios, e utilizavam os caminhos milenares abertos pelos indígenas, além de suas técnicas de sobrevivência nos desconhecidos lugares que desbravavam.



  
Bandeirantes paulistas, cujas principais atividades iniciais foram, de bacamartes em punho, a ampliação das fronterias do que hoje se chama Brasil e a caça e captura de índios nos sertões de São Paulo e Minas Gerais


Foi através de um desses caminhos, conhecido como Trilha dos Guaianazes, que os bandeirantes partiram do Vale do Paraíba paulista e, passando pela Garganta do Embaú, ponto mais baixo em toda a extensão da Serra da Mantiqueira, chegaram a um imenso sertão que seria chamado mais tarde de Minas Gerais. O trajeto recebeu o nome de Caminho Geral do Sertão, e ligava a Capitania de São Paulo às Minas.


Os primeiros bandeirantes que passavam por certo lugar, deixavam ali para os viajantes posteriores, pequenas roças plantadas, local para descanso e, às vezes, erguiam uma rústica capela. Essas paradas originaram os núcleos de muitas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais.


No final do século 17, foi descoberto ouro, assim como diamantes e outras pedras preciosas em território mineiro. Por ser a principal via de escoamento da mineração, o Caminho Geral do Sertão era muito utilizado para o transporte de grandes riquezas em carregamentos de ouro e pedras preciosas.


Por esse motivo, a Coroa Portuguesa passou a atribuir natureza oficial ao caminho, chamando-o de Estrada Real. Tinha início em Diamantina, no norte de Minas Gerais, e passava por Vila Rica (atual Ouro Preto), de onde se bifurcava, dando origem ao Caminho Velho e ao Caminho Novo. 


O Caminho Velho da Estrada Real percorria o interior de Minas Gerais e entrava em São Paulo, cruzando a divisa entre os dois estados no alto da Serra da Mantiqueira, através de seu ponto mais baixo, a Garganta do Embaú, e descia para o fundo do Vale do Paraíba paulista.


Em território paulista, a Estrada Real passa pelos municípios de Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Lorena, Guaratinguetá e Cunha, chegando finalmente a Paraty, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, de onde o ouro e as pedras preciosas eram embarcados para Portugal. Os 1200 quilômetros do Caminho Velho da Estrada Real eram percorridos em aproximadamente 95 dias de viagem pelas tropas de viajantes carregadores, cujas cargas eram transportadas por mulas.


Símbolo da Estrada Real, ...



que começa em Diamantina, no norte de Minas, e vai até Ouro Preto; esse trecho, em preto no mapa, tinha o nome de Trilha dos Diamantes. A partir de Ouro Preto, a Estrada Real se bifurca entre o Caminho Velho, à esquerda em marrom, que termina em Paraty / RJ, e o Caminho Novo, em vermelho, que passa por Juiz de Fora / MG, Petrópolis / RJ, e chaga ao norte da Baía de Guanabara, de onde o ouro e as pedras preciosas eram levados ao porto do Rio de Janeiro e embarcados para Portugal

Duas imagens de trechos preservados da Estrada Real em território mineiro, ...

onde ainda é possível observar a pavimentação original do século 18, em blocos de pedras

Paraty, no RJ, onde o Caminho Velho da Estrada Real termina após cruzar a Serra da Mantiqueira, o Vale do Paraíba paulista e a Serra do Mar, ao fundo

A Estrada Real também servia para o escoamento e o transporte de escravos, mercadorias e animais. E sobre tudo isso pagava-se imposto; mas o que interessava mesmo à Coroa Portuguesa era o Quinto. 

De toda e qualquer quantidade de ouro ou diamante que fosse transportada pela Estrada Real, deveria ser dado um quinto como imposto à Coroa Portuguesa; e foi daí que surgiu a expressão atual "quinto dos infernos", usada no português falado no Brasil.

Em 2001, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) criou o Instituto Estrada Real, que tem o propósito de promover o reconhecimento histórico e cultural do caminho



Os 1400 quilômetros das três vias da Estrada Real (Caminho dos Diamantes, Caminho Velho e Caminho Novo), que passam por 162 municípios de Minas, 7 de São Paulo e 8 do Rio de Janeiro, receberam marcos indicativos graças a uma parceria entre FIEMG e geógrafos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A marcação vermelha indica o ponto da localização do marco no curso da Estrada Real



O projeto instalou 1927 marcos ao longo da Estrada Real. Cada exemplar possui informações com a indicação do município mais próximo, telefones úteis, atrativos da região, distâncias em quilômetros e localização do ponto por GPS

Para fiscalizar, controlar e cobrar os impostos, Portugal criou espécies de pedágios chamados de registros. Esses registros eram pequenas construções localizadas em pontos estratégicos da Estrada Real, como margens de rios, desfiladeiros e passagens de serras, onde havia um portão com cadeado.

Em cada registro, sempre ficavam dois ou quatro soldados, um contador, um administrador e um fiel. Um desses registros ficava na Garganta do Embaú, no cruzamento da Estrada Real com o ponto mais baixo em toda a extensão longitudinal dos 500 quilômetros da Serra da Mantiqueira.



 
Trecho da Estrada Real em Guaratinguetá / SP, ...
  


de onde é possível observar o relevo da Serra da Mantiqueira ao fundo. O relevo da Serra se abaixa formando a Garganta do Embaú, por onde os bandeirantes paulistas, no século 17, chegaram às Minas Gerais, do outro lado, e por onde o curso do Caminho Velho da Estrada Real vem e entra em SP. Um dos postos de registro de cobrança do "Quinto" ficava no alto da Graganta do Embaú, em função de sua localização estratégica

Todo esse apogeu da mineração nas Gerais se estendeu pelo século 18 inteiro e terminou no início do século 19, quando os caminhos da Estrada Real passaram a ser livres. Porém, seus traçados formaram o principal fator de ligação com o litoral e a ampliação territorial da américa portuguesa, além da integração do que hoje é a Região Sudeste do Brasil.

A Estrada Real contribuiu de forma significativa para o encontro e a fusão de diversas culturas: imigrantes paulistas, pernambucanos, baianos, europeus, tropeiros do sul, escravos negros e índios. Diversas cidades do sudeste brasileiro surgiram a partir de pequenas capelas, vendas e ranchos de tropas instalados ao longo da Estrada Real e de outros caminhos oficiais da época. Passa por este trajeto, ou melhor, pela Estrada Real, a História do Brasil.


Para saber mais sobre a Estrada Real e ver belas fotos, acesse o blog http://estradareal4x4.blogspot.com.br/ de Moacir Ledeira. Moacir, agradecemos seu comentário e suas considerações. Abração! 




Outro blog interessante com mais informações históricas, vídeos e fotos sobre a Estrada Real é o http://sergiopiquetopolis.blogspot.com.br/ de Sérgio dos Santos, a quem agradecemos pelo atencioso comentário na publicação anterior da edição deste trabalho sobre a Estrada Real.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O IMPERIALISMO AO PÉ DA LETRA




Por Cássio Ribeiro

Os dicionários da língua portuguesa definem, num contexto generalizado, o significado da palavra império como: (1 - Nação regida por um imperador), (2 – Autoridade, comando e domínio) e (3 – Grande empresa ou conjunto de empresas de um único dono).

O Brasil libertou-se de Portugal em 1822, passando a ser, a partir de então, uma nação teoricamente livre e independente. Porém, o contexto surgido um pouco antes, a partir das revoluções Francesa e Industrial inglesa, apresentou ao mundo uma nova classe muito mais tirana que as anteriores (senhores feudais e nobreza); falo da burguesia, aquela mesmo que, como dizia a letra do saudoso poeta Cazuza, fede.

Fede a burguesia, dentro de uma mesma nação, quando explora o ser humano operário pobre. Fede a burguesia, quando coloniza, invade, catequiza e impõe suas regras de mercado, que transformam países com imenso potencial como o Brasil, livre em teoria desde 1822, em meros dependentes colonizados em pleno correr do século 21.




Esta dominação começa por meio da dependência econômica e se complementa numa intensa influência nos costumes culturais do país dependente. Apresentando nosso Brasil como exemplo, até a década de 1960, nossa cultura era influenciada pelos costumes franceses e, a partir dos 60, passamos a sofrer uma ‘invasão’ norte americana de influências culturais cada vez mais freqüentes na alma e na essência de nossa ‘brasilidade’ original. Hoje, somos muito mais próximos culturalmente dos Estados Unidos do que de nossos vizinhos sulamericanos.

O poder econômico das empresas e dos bancos dos países ricos controla o país mais pobre, cada vez mais endividado e sem possibilidades de investimento em sua produção industrial, crescimento e resolução dos problemas sociais de seu povo.

A principal característica dos países ricos capitalistas, cujos principais exemplos são Estados Unidos, União Européia e Japão, está na posse de suas empresas, fábricas e fazendas nas mãos de uma minoria de pessoas, e não dos verdadeiros donos, o povo e o Estado. Essas empresas privadas dos países ricos precisam crescer e aumentar cada vez mais seus lucros. Tal crescimento dos lucros começa dentro de cada país. As grandes empresas assumem então o controle absoluto de um mercado interno, derrubando as menores da concorrência.

As grandes empresas reduzem seus lucros vendendo seus produtos mais baratos. Dessa forma, destroem os pequenos concorrentes e os preços dos produtos voltam a subir posteriormente, ficando mais altos do que antes. O mercado interno de um país passa a então a ser dominado de forma absoluta e desaparece a livre concorrência, que é uma característica muito defendida pelos capitalistas para promover seu sistema.

Nesse estágio de monopólio absoluto, o Capitalismo sai de sua nação de origem e se espalha pelo mundo gerando o Imperialismo de que nós brasileiros tanto somos vítimas, quase sempre sem termos consciência desse processo de dominação.
  

A ONU (Organização Mundial das Nações Unidas), controlada pela minoria de países ricos, que se organizaram numa assembléia a fim de partilhar o mundo em retalhos de zonas de influência, chama seus fantoches econômicos de emergentes, no lugar da denominação anterior (países do 3º mundo). 
Peraí, emergente de onde para aonde, se não existe nenhuma sombra de possibilidade de um dia todos os países do mundo tornarem-se igualmente ricos. Se todos os países do mundo consumissem na mesma escala que os Estados Unidos, seriam necessários uns 3 planetas Terra como fonte de matéria prima; matemática impossível essa.


Tolos são aqueles que acreditam na historia imposta pelos países ricos para maquiar a sua dominação imperialista pelo mundo. É muito fácil classificar o presidente venezuelano Hugo Chávez como louco e inconseqüente, como é feito atualmente pela grande mídia.
 
Sempre que alguém conclama os países pobres a se unirem, logo é tratado com desdém e ares de desmoralização e descrédito pela grande imprensa, que por sua vez pertence aos grupos de comunicação ligados aos interesses imperialistas da elite interna de cada país. Essa elite se vende e escraviza seus semelhantes nacionais das classes sociais menos favorecidas.






Conscientização, reação e mudança são fatores que devem ser inseridos na educação de base do povo. A mudança deve começar pela fase de socialização das novas gerações, já que as gerações anteriores foram envolvidas desde seus verdes anos pelo modelo que aí está, e nunca possibilitará mudanças em termos de igualdade social e econômica.

O mal econômico, a miséria, a inflação, o crime e o caos nas grandes cidades brasileiras são simples reflexos do pior produto que vem de fora e nos é imposto sem possibilidade de escolha; um produto em forma de sistema, que a maioria dos brasileiros nem sabe que existe, trata-se do Imperialismo.
 
Autoridade, domínio e imposição: termos abstratos de um sistema que mostra-se apenas nas conseqüências e não na base de suas causas. Ocorre de forma sutil sem ação armada, mas domina, escraviza, invade, e subjuga seres humanos tão humanamente comuns quanto seus dominantes primatas e, porque não, imperialistas selvagens.