domingo, 9 de setembro de 2012

JOSÉ AMARO: O HOMEM QUE AMOU O FORTE ORANGE





Por Cássio Ribeiro


Nossa história começa com um nome: José Amaro de Souza Filho; e uma sentença: 20 anos de prisão por homicídio, decretada em 1970.


Zé Amaro, como era conhecido na Ilha de Santa Cruz do Itamaracá, a 50 quilômetros de Recife, nasceu em Pernambuco, morou, tomou conta e cuidou do Forte Orange, que é uma belíssima fortaleza construída pelos holandeses em 1631, um ano depois de invadirem e dominarem Pernambuco.


O belíssimo cenário onde fica o Forte Orange, no detalhe abaixo à direita



A história de Zé Amaro se liga a do Forte Orange de forma muito curiosa. Levado à Casa de Detenção do Recife, em 1970, para começar a cumprir sua pena por homicídio, Zé, que nunca tinha ido à escola, aprendeu a ler e escrever com outro detento na prisão.


Depois de um ano preso, a Casa de Detenção do Recife foi fechada e Zé Amaro transferido para a Penitenciária Agrícola de Itamaracá (P.A.I), em 1971.


Como era um prisioneiro com bom comportamento e apresentava senso de cooperação, além de desempenhar a atividade artesanal entalhando peças de madeira, Zé Amaro foi selecionado junto com outros 39 presos para formar uma equipe de limpeza do Forte Orange, que seria restaurado pelo Exército Brasileiro entre 1971 e 1973.


Zé Amaro e os outros presos capinaram, tiraram o lixo e recolheram os cocos verdes da antiga fortaleza. Foi nessa ocasião, já no primeiro encontro com o Forte, que Zé Amaro apaixonou-se pela construção histórica: Eu dizia a todo mundo que quando deixasse a cadeia eu ia morar no Forte e tomar conta dele. Fiquei encantado. Naquele dia resolvi que faria de tudo para passar o resto da vida no Forte”, relembrou Zé Amaro em ocasião posterior.


No momento do primeiro encontro com o Forte Orange, Zé Amaro fez uma promessa para Nossa Senhora da Conceição: se fosse possível viver ali, passaria um ano acorrentado a uma bola de ferro. 


Zé Amaro: amor pelo Forte Orange à primeira vista




Três anos depois, em 1974, a promessa de Zé Amaro parecia ainda não ter surtido efeito. O detento foi transferido de presídio novamente e seu contato com o Forte Orange foi interrompido. Sendo assim, Zé Amaro dedicou-se exclusivamente ao artesanato, fabricando peças entalhadas em madeira.


Os trabalhos artísticos e o bom comportamento mais uma vez renderam ótimas referências de Zé Amaro com as autoridades policiais.
 


Zé foi convidado para participar de uma exposição artística no Paraguai, ainda na década de 70: “Eu fui o primeiro preso a sair do Brasil sem escolta”, relatou Amaro, que na ocasião da viagem enfrentou protesto de outros detentos, que apostaram que Zé não voltaria mais ao Brasil.


Porém, ao fim da exposição paraguaia, Zé Amaro voltou ao presídio motivado a continuar o trabalho artístico com esculturas. Passou a ensinar a arte de esculpir e entalhar madeira a outros detentos. Algumas pessoas doavam madeira para que ele pudesse desenvolver as oficinas e a criação das peças que foram exibidas em várias exposições pelo Brasil.

Com a atividade artesanal e os trabalhos com os outros presos, Zé Amaro conseguiu obter das autoridades a redução de sua pena e, após ficar preso 8 dos 20 anos totais de sua sentença, adquiriu a liberdade condicional, em 1978.

Com a liberdade, Zé Amaro viu novamente vivo o sonho de viver no Orange. Pediu permissão ao Exército para morar no Forte, e se comprometeu a limpar e restaurar a fortaleza dentro das limitações de seus recursos financeiros próprios.


A permissão para viver no Orange foi concedida, porém, a nova moradia, sem água encanada, energia elétrica e estrada de acesso, não apresentava um mínimo de conforto.

Zé Amaro encontrou um depósito de lixo a céu aberto, que servia de esconderijo para marginais. No meio da sujeira, Zé achou uma antiga bala de ferro usada pelos holandeses nos canhões que repeliam as embarcações que se aproximavam da costa de Pernambuco.

A promessa feita para Nossa Senhora da Conceição pôde ser paga. Com o auxílio de um tipo de algema e uma corrente, Amaro prendeu a bala de canhão pouco acima do tornozelo direito, e a arrastou por um ano, até que conseguiu limpar todo o Forte Orange. 


“Na ilha, todos me chamavam de maluco do forte, de doido. O povo achava que eu era um fantasma. Eu vivia como um ermitão. Sofri muito preconceito; além de ‘maluco’, eu era ex presidiário”, recordou Zé Amaro. 



Amaro tinha apenas uma enxada para limpar o matagal. Aos poucos, as ruínas foram novamente ganhando jeito de monumento histórico de verdade.

A recuperação do Forte Orange era financiada com o dinheiro das vendas das peças de madeira e das esculturas produzidas nas oficinas que Zé Amaro continuou realizando com os amigos presos, mesmo depois de ter saído da cadeia.

A renda gerada pela venda do artesanato era modesta, porém, suficiente para ser aplicada na iniciativa de restauração do monumento histórico.

Depois do Orange limpo e sem a bala de canhão amarrada ao pé, Zé Amaro sentiu a necessidade de arrecadar recursos para uma restauração mais profunda na fortaleza histórica, e foi à Brasília: “Era 1991, mas o presidente Collor não me recebeu e seus assessores não deram ouvidos ao que eu disse”, afirmou Zé Amaro, que não desistiu, e foi à embaixada da Holanda, onde foi orientado a criar uma fundação.


Em 1994, Zé Amaro e a esposa Gilsilene Souza abriram a Fundação Forte Orange: “Com a Fundação, o governo holandês liberou um dinheiro e o Forte pôde ser restaurado por inteiro, com a construção de banheiros e do portão”, disse Zé Amaro.


Na mesma ocasião da criação da Fundação, em 1994, Itamaracá ganhou seu primeiro museu, localizado no Forte Orange. O museu foi inaugurado pelo então Embaixador da Holanda Hendrix Van Oordt, e apresentava verdadeiras relíquias encontradas em escavações feitas no local, como peças dos tempos das ocupações holandesa e portuguesa (balas de canhão, crucifixos e artefatos de ferro).


Em 1996, apesar de ter concretizado seu sonho, Zé Amaro passou a viver um tormento. O Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Prefeitura de Itamaracá decretaram o Forte patrimônio nacional e Zé Amaro foi despejado do local, então já aberto à visitação pública.

Zé Amaro não desanimou e foi ao então ministro da Cultura, Francisco Weffort, e relatou sua história: “Quando terminei de falar, ele me deu a autorização para continuar a trabalhar no forte e me ofereceu uma casinha ao lado da fortaleza",  afirmou Zé Amaro.


Construído em 1631, o Forte Orange também serviu como prisão de frades portugueses avessos à implantação do calvinismo holandês no nordeste brasileiro. Com a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, o forte foi reformado pelos portugueses para proteger a cidade vizinha de Igaraçu. Os lusitanos também rebatizaram o forte com o nome de Fortaleza de Santa Cruz do Itamaracá, porém, o novo nome nunca pegou, tendo o nome dado pelos holandeses, Forte Orange, permanecido até os dias atuais

No interior do Forte, além do museu, havia uma loja de venda dos artesanatos feitos por Zé Amaro e uma capelinha. Para chegar à ilha de Itamaracá (“pedra que canta” em tupi) o visitante deve seguir pela BR-101 no sentido norte até Igaraçu. A partir daí, pega-se a estrada PE-35. A ilha é ligada ao continente por uma ponte sobre o rio Jaguaribe, e fica a 50 quilômetros de Recife

Deitado em uma rede armada embaixo da sombra de um pé de jamelão plantado por ele mesmo, Zé Amaro, que era conhecido na ilha como “O Guardião do Forte”, controlava os barraqueiros e fiscalizava o turismo ao redor do Orange, além de tomar conta do mangue e se exaltar com quem jogava lixo onde não devia.


Depois da ordem de despejo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) deu a Zé Amaro uma medalha de honra ao mérito, em dezembro de 2002.


Em outubro de 2010, o forte Orange foi novamente fechado à visitação pública. A partir de então, Zé Amaro passou a se dedicar a uma criação de codornas e a uma venda na cidade de Itamaracá.

Um mês depois, em 29 de novembro de 2010, Zé amaro, então  com 60 anos, dirigia uma caminhonete por volta das 18 horas quando foi assassinado com vários tiros. 

Segundo a polícia, o crime foi motivado pela concorrência com o dono de outra venda que ficava próxima ao local onde Zé Amaro também vendia seus produtos: "Ele só estava trabalhando. Eu tenho certeza que esse crime tem relação com o novo negócio", contou, na época, a esposa de Zé Amaro, Gilsinele Silva Souza.

Em janeiro deste ano (2012), o comerciante Paulo Félix de Moura foi preso em Itamaracá acusado de ser o mandante da morte de Zé Amaro, o guardião do Forte Orange.


A polícia prendeu Paulo Félix por meio de uma denúncia. Paulo foi indiciado por matar como queima de arquivo o executor do assassinato de Zé Amaro, Renato Vieira da Silva. A Ossada de Renato foi encontrada em uma mata perto da casa de Paulo Félix, com uma marca de bala no crânio.

Renato estava desaparecido há 2 meses, desde que passou a ser o principal suspeito de ter matado Zé Amaro. Renato foi visto pela última vez subindo na caminhonete de Paulo Félix, que carregava algumas ferramentas de escavação na carroceria.



Zé Amaro, que dos 60 anos de vida dedicou 29 para cuidar do Forte Orange, confessou a vontade de viver muito tempo ainda no local. Ele disse que em suas orações pedia para não morrer logo a fim de poder continuar tomando conta da fortaleza e viver na ilha de Itamaracá: “Eu não posso me separar da ilha porque sou uma parte do Forte Orange. Eu sou uma pedra do Forte e não posso sair dali. Escolhi a ilha para morar e com fé em Deus vou viver muitos anos ali. Dei minha vida para aquele lugar e não me arrependo. Faria tudo de novo sem pestanejar”, afirmou Zé Amaro antes de morrer.


A trajetória do ex presidiário Zé Amaro, que virou símbolo da preservação do patrimônio histórico no Brasil e deixou cinco filhos: Sol, Marte, Vega, Sérgio e Alberico, é retratada no documentário "Orange de Itamaracá", de Marcio Câmara e Franklin Júnior.

domingo, 2 de setembro de 2012

A ESTRADA REAL





Por Cássio Ribeiro
 
No meio do século 17, por volta do ano de 1654, a crise econômica e a concorrência que desvalorizavam o açúcar no mercado internacional tornaram necessário que fossem encontradas novas fontes de geração de capital e riquezas, a fim de substituírem as plantações de cana no Brasil Colônia.


Sendo assim, partiram várias expedições ou bandeiras da pequena Vila de São Paulo que, na época, possuía apenas algumas centenas de habitantes. Seus integrantes, chamados de bandeirantes, como os pioneiros Jacques Felix e Fernão Dias, eram mestiços de portugueses com índios, e utilizavam os caminhos milenares abertos pelos indígenas, além de suas técnicas de sobrevivência nos desconhecidos lugares que desbravavam.



  
Bandeirantes paulistas, cujas principais atividades iniciais foram, de bacamartes em punho, a ampliação das fronterias do que hoje se chama Brasil e a caça e captura de índios nos sertões de São Paulo e Minas Gerais


Foi através de um desses caminhos, conhecido como Trilha dos Guaianazes, que os bandeirantes partiram do Vale do Paraíba paulista e, passando pela Garganta do Embaú, ponto mais baixo em toda a extensão da Serra da Mantiqueira, chegaram a um imenso sertão que seria chamado mais tarde de Minas Gerais. O trajeto recebeu o nome de Caminho Geral do Sertão, e ligava a Capitania de São Paulo às Minas.


Os primeiros bandeirantes que passavam por certo lugar, deixavam ali para os viajantes posteriores, pequenas roças plantadas, local para descanso e, às vezes, erguiam uma rústica capela. Essas paradas originaram os núcleos de muitas cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais.


No final do século 17, foi descoberto ouro, assim como diamantes e outras pedras preciosas em território mineiro. Por ser a principal via de escoamento da mineração, o Caminho Geral do Sertão era muito utilizado para o transporte de grandes riquezas em carregamentos de ouro e pedras preciosas.


Por esse motivo, a Coroa Portuguesa passou a atribuir natureza oficial ao caminho, chamando-o de Estrada Real. Tinha início em Diamantina, no norte de Minas Gerais, e passava por Vila Rica (atual Ouro Preto), de onde se bifurcava, dando origem ao Caminho Velho e ao Caminho Novo. 


O Caminho Velho da Estrada Real percorria o interior de Minas Gerais e entrava em São Paulo, cruzando a divisa entre os dois estados no alto da Serra da Mantiqueira, através de seu ponto mais baixo, a Garganta do Embaú, e descia para o fundo do Vale do Paraíba paulista.


Em território paulista, a Estrada Real passa pelos municípios de Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Lorena, Guaratinguetá e Cunha, chegando finalmente a Paraty, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, de onde o ouro e as pedras preciosas eram embarcados para Portugal. Os 1200 quilômetros do Caminho Velho da Estrada Real eram percorridos em aproximadamente 95 dias de viagem pelas tropas de viajantes carregadores, cujas cargas eram transportadas por mulas.


Símbolo da Estrada Real, ...



que começa em Diamantina, no norte de Minas, e vai até Ouro Preto; esse trecho, em preto no mapa, tinha o nome de Trilha dos Diamantes. A partir de Ouro Preto, a Estrada Real se bifurca entre o Caminho Velho, à esquerda em marrom, que termina em Paraty / RJ, e o Caminho Novo, em vermelho, que passa por Juiz de Fora / MG, Petrópolis / RJ, e chaga ao norte da Baía de Guanabara, de onde o ouro e as pedras preciosas eram levados ao porto do Rio de Janeiro e embarcados para Portugal

Duas imagens de trechos preservados da Estrada Real em território mineiro, ...

onde ainda é possível observar a pavimentação original do século 18, em blocos de pedras

Paraty, no RJ, onde o Caminho Velho da Estrada Real termina após cruzar a Serra da Mantiqueira, o Vale do Paraíba paulista e a Serra do Mar, ao fundo

A Estrada Real também servia para o escoamento e o transporte de escravos, mercadorias e animais. E sobre tudo isso pagava-se imposto; mas o que interessava mesmo à Coroa Portuguesa era o Quinto. 

De toda e qualquer quantidade de ouro ou diamante que fosse transportada pela Estrada Real, deveria ser dado um quinto como imposto à Coroa Portuguesa; e foi daí que surgiu a expressão atual "quinto dos infernos", usada no português falado no Brasil.

Em 2001, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) criou o Instituto Estrada Real, que tem o propósito de promover o reconhecimento histórico e cultural do caminho



Os 1400 quilômetros das três vias da Estrada Real (Caminho dos Diamantes, Caminho Velho e Caminho Novo), que passam por 162 municípios de Minas, 7 de São Paulo e 8 do Rio de Janeiro, receberam marcos indicativos graças a uma parceria entre FIEMG e geógrafos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A marcação vermelha indica o ponto da localização do marco no curso da Estrada Real



O projeto instalou 1927 marcos ao longo da Estrada Real. Cada exemplar possui informações com a indicação do município mais próximo, telefones úteis, atrativos da região, distâncias em quilômetros e localização do ponto por GPS

Para fiscalizar, controlar e cobrar os impostos, Portugal criou espécies de pedágios chamados de registros. Esses registros eram pequenas construções localizadas em pontos estratégicos da Estrada Real, como margens de rios, desfiladeiros e passagens de serras, onde havia um portão com cadeado.

Em cada registro, sempre ficavam dois ou quatro soldados, um contador, um administrador e um fiel. Um desses registros ficava na Garganta do Embaú, no cruzamento da Estrada Real com o ponto mais baixo em toda a extensão longitudinal dos 500 quilômetros da Serra da Mantiqueira.



 
Trecho da Estrada Real em Guaratinguetá / SP, ...
  


de onde é possível observar o relevo da Serra da Mantiqueira ao fundo. O relevo da Serra se abaixa formando a Garganta do Embaú, por onde os bandeirantes paulistas, no século 17, chegaram às Minas Gerais, do outro lado, e por onde o curso do Caminho Velho da Estrada Real vem e entra em SP. Um dos postos de registro de cobrança do "Quinto" ficava no alto da Graganta do Embaú, em função de sua localização estratégica

Todo esse apogeu da mineração nas Gerais se estendeu pelo século 18 inteiro e terminou no início do século 19, quando os caminhos da Estrada Real passaram a ser livres. Porém, seus traçados formaram o principal fator de ligação com o litoral e a ampliação territorial da américa portuguesa, além da integração do que hoje é a Região Sudeste do Brasil.

A Estrada Real contribuiu de forma significativa para o encontro e a fusão de diversas culturas: imigrantes paulistas, pernambucanos, baianos, europeus, tropeiros do sul, escravos negros e índios. Diversas cidades do sudeste brasileiro surgiram a partir de pequenas capelas, vendas e ranchos de tropas instalados ao longo da Estrada Real e de outros caminhos oficiais da época. Passa por este trajeto, ou melhor, pela Estrada Real, a História do Brasil.


Para saber mais sobre a Estrada Real e ver belas fotos, acesse o blog http://estradareal4x4.blogspot.com.br/ de Moacir Ledeira. Moacir, agradecemos seu comentário e suas considerações. Abração! 




Outro blog interessante com mais informações históricas, vídeos e fotos sobre a Estrada Real é o http://sergiopiquetopolis.blogspot.com.br/ de Sérgio dos Santos, a quem agradecemos pelo atencioso comentário na publicação anterior da edição deste trabalho sobre a Estrada Real.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O IMPERIALISMO AO PÉ DA LETRA




Por Cássio Ribeiro

Os dicionários da língua portuguesa definem, num contexto generalizado, o significado da palavra império como: (1 - Nação regida por um imperador), (2 – Autoridade, comando e domínio) e (3 – Grande empresa ou conjunto de empresas de um único dono).

O Brasil libertou-se de Portugal em 1822, passando a ser, a partir de então, uma nação teoricamente livre e independente. Porém, o contexto surgido um pouco antes, a partir das revoluções Francesa e Industrial inglesa, apresentou ao mundo uma nova classe muito mais tirana que as anteriores (senhores feudais e nobreza); falo da burguesia, aquela mesmo que, como dizia a letra do saudoso poeta Cazuza, fede.

Fede a burguesia, dentro de uma mesma nação, quando explora o ser humano operário pobre. Fede a burguesia, quando coloniza, invade, catequiza e impõe suas regras de mercado, que transformam países com imenso potencial como o Brasil, livre em teoria desde 1822, em meros dependentes colonizados em pleno correr do século 21.




Esta dominação começa por meio da dependência econômica e se complementa numa intensa influência nos costumes culturais do país dependente. Apresentando nosso Brasil como exemplo, até a década de 1960, nossa cultura era influenciada pelos costumes franceses e, a partir dos 60, passamos a sofrer uma ‘invasão’ norte americana de influências culturais cada vez mais freqüentes na alma e na essência de nossa ‘brasilidade’ original. Hoje, somos muito mais próximos culturalmente dos Estados Unidos do que de nossos vizinhos sulamericanos.

O poder econômico das empresas e dos bancos dos países ricos controla o país mais pobre, cada vez mais endividado e sem possibilidades de investimento em sua produção industrial, crescimento e resolução dos problemas sociais de seu povo.

A principal característica dos países ricos capitalistas, cujos principais exemplos são Estados Unidos, União Européia e Japão, está na posse de suas empresas, fábricas e fazendas nas mãos de uma minoria de pessoas, e não dos verdadeiros donos, o povo e o Estado. Essas empresas privadas dos países ricos precisam crescer e aumentar cada vez mais seus lucros. Tal crescimento dos lucros começa dentro de cada país. As grandes empresas assumem então o controle absoluto de um mercado interno, derrubando as menores da concorrência.

As grandes empresas reduzem seus lucros vendendo seus produtos mais baratos. Dessa forma, destroem os pequenos concorrentes e os preços dos produtos voltam a subir posteriormente, ficando mais altos do que antes. O mercado interno de um país passa a então a ser dominado de forma absoluta e desaparece a livre concorrência, que é uma característica muito defendida pelos capitalistas para promover seu sistema.

Nesse estágio de monopólio absoluto, o Capitalismo sai de sua nação de origem e se espalha pelo mundo gerando o Imperialismo de que nós brasileiros tanto somos vítimas, quase sempre sem termos consciência desse processo de dominação.
  

A ONU (Organização Mundial das Nações Unidas), controlada pela minoria de países ricos, que se organizaram numa assembléia a fim de partilhar o mundo em retalhos de zonas de influência, chama seus fantoches econômicos de emergentes, no lugar da denominação anterior (países do 3º mundo). 
Peraí, emergente de onde para aonde, se não existe nenhuma sombra de possibilidade de um dia todos os países do mundo tornarem-se igualmente ricos. Se todos os países do mundo consumissem na mesma escala que os Estados Unidos, seriam necessários uns 3 planetas Terra como fonte de matéria prima; matemática impossível essa.


Tolos são aqueles que acreditam na historia imposta pelos países ricos para maquiar a sua dominação imperialista pelo mundo. É muito fácil classificar o presidente venezuelano Hugo Chávez como louco e inconseqüente, como é feito atualmente pela grande mídia.
 
Sempre que alguém conclama os países pobres a se unirem, logo é tratado com desdém e ares de desmoralização e descrédito pela grande imprensa, que por sua vez pertence aos grupos de comunicação ligados aos interesses imperialistas da elite interna de cada país. Essa elite se vende e escraviza seus semelhantes nacionais das classes sociais menos favorecidas.






Conscientização, reação e mudança são fatores que devem ser inseridos na educação de base do povo. A mudança deve começar pela fase de socialização das novas gerações, já que as gerações anteriores foram envolvidas desde seus verdes anos pelo modelo que aí está, e nunca possibilitará mudanças em termos de igualdade social e econômica.

O mal econômico, a miséria, a inflação, o crime e o caos nas grandes cidades brasileiras são simples reflexos do pior produto que vem de fora e nos é imposto sem possibilidade de escolha; um produto em forma de sistema, que a maioria dos brasileiros nem sabe que existe, trata-se do Imperialismo.
 
Autoridade, domínio e imposição: termos abstratos de um sistema que mostra-se apenas nas conseqüências e não na base de suas causas. Ocorre de forma sutil sem ação armada, mas domina, escraviza, invade, e subjuga seres humanos tão humanamente comuns quanto seus dominantes primatas e, porque não, imperialistas selvagens.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O FUTEBOL DE MESA





Por Cássio Ribeiro
 
Década de 60. O premiado pianista Arthur Moreira Lima está exilado em Moscou, na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A vida distante do Brasil foi a melhor alternativa encontrada diante da repressão imposta pela Ditadura Militar brasileira.


Ao arrumar a bagagem para a partida, Moreira Lima não esqueceu seu inseparável time de botões do Fluminense e, depois de alguns meses em Moscou, as regras do futebol de botão já tinham sido ensinadas a alguns soviéticos, que enfrentavam o pianista em partidas disputadas em pleno frio asiático.


Quando os amigos brasileiros iam visitar o pianista, também levavam suas equipes dentro das malas. Foi o que fez o arquiteto Alfredo Brito, em 1967, quando embarcou em um trem na Polônia, carregando um time do Botafogo em direção a Moscou, para a disputa do clássico entre Fluminense e Botafogo, conhecido como o clássico vovô do futebol carioca.


Na fronteira russa, Alfredo Brito foi revistado por policiais soviéticos que subiram no trem. A caixa com os botões, ao ser aberta, levantou suspeitas sobre o brasileiro. Os policiais queriam saber o que eram aquelas peças estranhas, acompanhadas de uma caixa de fósforos cheia de parafusos, que para os russos, certamente, seria uma bomba de estilhaços. Brito disse que se tratavam de football toys, e o nome da bomba era Osvaldo Baliza, goleiro do Botafogo no final da década de 40.


Toda a estranheza despertada nos russos se deu pelo fato de o futebol de botão ser um esporte muito conhecido só por aqui, sendo inclusive citado por muitos pesquisadores como um esporte genuinamente nascido no Brasil, embora não hajam registros preservados sobre a origem oficial do jogo de botão.


O autor Ubirajara Godoy Bueno, que escreveu o livro 'Botoníssimo', publicado em 1998, afirma que não há provas de que os garotos que brincaram de botão pela primeira vez fossem brasileiros, mas há muitos indícios.



No Brasil, quase todo garoto entre a década de 20 e o final do século passado tirou a cesta de frutas e o pano que cobria a mesa de jantar de casa para a disputa de uma animada partida. O “gramado” onde a bola corria durante os ataques e as tabelas entre os craques também podia ser improvisado em pátios de pedra polida e em corredores de madeira, porém, o “piso” preferido eram os lisos tacos em madeira, com uma convidativa camada de sinteco recém-aplicada. Na ausência do sinteco, a aplicação de cera doméstica comum resolvia muito bem a questão do toque de bola.

Jogador de futebol de botão é muitas vezes taxado como doido. Várias pessoas expressam incisivo preconceito quando vêem um marmanjão, muitas vezes cheio de cabelos brancos, debruçado sobre a mesa com uma palheta nas mãos. Alguns botonistas famosos que já passaram por tal situação são Jô Soares, Armando Nogueira, Casagrande e o já falecido e saudoso Chico Anísio.


O primeiro livro de regras sobre o futebol de botão foi o “Regras Officiaes do Football Calotex”, escrito pelo brasileiro Geraldo Décourt, aos 19 anos, em 1930. Décourt, que virou patrono do futebol de botão anos mais tarde, deu o nome de calotex ao jogo, porque calotex era o material importado com o qual se fabricavam as mesas domésticas na época.

Geraldo Décourt, patrono do futebol de botão

Embora os primeiros jogadores fossem tampas acrílicas de relógio disputadas por garotos nos balcões dos relojoeiros, durante a primeira metade do século passado, também marcaram época os “atletas” feitos a partir de casca de coco envernizada. 


Os primeiros craques de tampa de relógio

O que acabou dando o nome pelo qual o jogo é mais conhecido foram os enormes botões roubados das casacas da época. O futebol de botão usava inicialmente como bola, miolo de pão amassado, grãos de feijão, e irregulares formas próximas de cubos, esculpidas à gilete em rolhas de cortiça.

Os botões industrializados em acetato e os de galalite só começaram a ser produzidos na década de 1970. Nos anos 80, federações surgiram em todo o Brasil e o pequeno cubo, ou dadinho, roubou o cenário das outras bolas.

 Trave dos anos 70, ...
 e o goleiro de caixa de fósforos do Fluminense, como o que foi confundido com uma "bomba" sendo levada para Moscou
Botão do Bangu /RJ, em duas camadas e com faixa central de galalite ou madrepérola, fabricado na década de 80 



Botões do São Paulo e do Borússia em lance de disputa pelo dadinho, próximo ao meio de campo

Em 1988, o Conselho Nacional de Desportos concedeu a categoria de esporte ao jogo, com o pomposo nome de Futebol de Mesa. Foram oficializadas três regras: a baiana (onde cada jogador só pode dar um toque por vez na bola), a carioca (3 toques) e a paulista (12 toques). A bola esférica também foi introduzida. Com exceção do Brasil, o futebol de mesa não é reconhecido como esporte em nenhum outro país do mundo. 


Antigos botões com as imagens de Jairzinho, Garrincha e Pelé, junto às modernas bolas esféricas


 Partida de futebol de mesa em andamento

Na década de 90, o Clube dos 13, que reúne os 13 maiores times de futebol do Brasil, começou a cobrar fortunas pela licença dos escudos colocados pelas fábricas sobre os botões. Com isso, a produção nas indústrias baixou significativamente.

Com a evolução constante da realidade virtual dos videogames, o futebol de mesa foi perdendo espaço entre a garotada. Mesmo assim, hoje ainda existem muitos botonistas que realizam animados campeonatos em garagens, clubes e federações.


A Federação Paulista de Futebol de Mesa, fundada em 1962, conta hoje com mais de 3 mil sócios, e é reconhecida pela Confederação Brasileira de Futebol de Mesa (CBFM). Outra filiada à CBFM é a Federação Botonista do Estado do Rio de Janeiro (FEBOERJ).


Os escudos da Confederação Brasileira de Futebol de Mesa ...

e da Federação Paulista de Futebol de Mesa

O esporte conta com vários endereços na Internet, como o http://www.futeboldemesanews.com.br/, onde o internauta pode saber quais são os principais campeonatos em andamento e seus resultados, como também se inscrever para participar de torneios abertos a várias categorias. Um dos links na página inicial do site tem o nome de futebol de mesa de batom, e mostra entrevistas com algumas mulheres praticantes do esporte.



Já no blog www.escudosdebotao.blogspot.com/, o botonista pode baixar e imprimir escudos de clubes de todos os estados do Brasil, como também fotos dos rostos de jogadores que marcaram época em equipes italianas. Tudo isso poderá ser fixados como “camisa” nos seus craques.


 
 Atuais botões e goleiros usados em jogos oficiais
Professoras e psicólogas que introduziram o futebol de mesa nas atividades das crianças com as quais trabalham, afirmam que o esporte ajuda os jovens alunos a desenvolverem a coordenação motora global, o raciocínio lógico-matemático, o trabalho em equipe, a concentração e o aprendizado geral por meio do lúdico. De fato, muitas qualidades para quem nunca viu nada de bom e interessante nesse esporte tão brasileiro, e até já confundiu um goleiro do Botafogo com uma bomba de estilhaços prestes a ser detonada por um brasileiro “terrorista” arquiteto num trem a caminho de Moscou.

domingo, 12 de agosto de 2012

A REVOLTA DOS 18 DO FORTE DE COPACABANA






Por Cássio Ribeiro

Para o entendimento do que foi a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida em 1922, é necessário compreender  primeiro os moldes republicanos implantados no Brasil a partir de 1889, quando o Império teve fim em nosso país, como também compreender o cenário político brasileiro no início da década de 1920.


A Primeira República ou República Velha foi instaurada em 1889, graças à aliança entre militares e fazendeiros de café. A classe militar desejava a implantação de um regime republicano representado por um poder centralizado e forte. Já os grandes cafeicultores queriam um sistema republicano federalista, onde cada estado teria autonomia econômica, como também uma administração política regionalizada.


Como os fazendeiros de café formavam a classe mais rica da sociedade brasileira naquela época, não foi difícil suas aspirações serem implantadas nos moldes políticos brasileiros da República Velha.


Dos 13 presidentes que o Brasil teve no período da República Velha (1889-1930), só 3 eram militares. Quase todos os 10 presidentes civis que governaram o Brasil naquele período eram bacharéis em direito formados pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde havia também uma sociedade maçônica secreta, da qual todos os ex-presidentes civis também faziam parte.
A primeira bandeira adotada após a proclamação da Repúlica já deixava claro nossa aproximação ideológica com o sistema republicano norte-americano. Idealizada pelo republicano positivista Rui Barbosa, essa bandeira vigorou só por 5 dias, de 15 a 19 de novembro de 1889, quando foi adotada a bandeira brasileira atual
Outra característica marcante da República Velha, que a fez também ficar conhecida como a República do "Café com Leite", foi a alternância no poder presidencial entre mineiros e paulistas, garantida em suas bases pela "Política dos Governadores". Nela, o presidente da república apoiava os governadores estaduais e seus aliados, que garantiam a eleição de deputados e senadores fiéis ao presidente. Não havia assim, conflito entre o Congresso Nacional e os interesses dos presidentes mineiros e paulistas na República Velha.

No fundo, pode-se dizer que a República Velha era uma repetição dos moldes administrativos do Império. No lugar da Família Real, os ricos fazendeiros mineiros e paulistas se sucediam no poder da República do "Café com Leite".

No meio dessa sucessão presidencial entre representantes de Minas e São Paulo, que eram os dois estados mais ricos da Federação, o marechal Hermes da Fonseca foi eleito para governar o Brasil entre 1910 e 1914, sendo um presidente militar no meio da hegemônica alternância entre ricos fazendeiros mineiros e paulistas. Hermes da Fonseca era sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, que proclamou a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889, e foi o primeiro presidente nacional.

Marechal Hermes da Fonseca: um presidente militar no meio da sucessão presidencial monopolizada por fazendeiros paulistas e mineiros


Nas eleições de 1910, São Paulo e Bahia apoiaram Rui Barbosa por meio da "Campanha Civilista", que associava Hermes da Fonseca ao militarismo. O Marechal Hermes venceu mas, ao fim de seu mandato, em 1914, a antiga política de divisão do poder entre as oligarquias paulista e mineira foi retomada.
Entre 1914 e 1918, o Brasil foi governado pelo mineiro Venceslau Brás e, de 1918 até 1919, pelo também mineiro Delfim Moreira. A partir de 1919, até 1922, o paraibano Epitácio Pessoa presidiu o Brasil, e foi pouco antes de sua sucessão, em 1922, que aconteceu a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana.
 Epitácio Pessoa: o presidente que teve que enfrentar a Revolta dos 18 do Forte



Na campanha para a sucessão presidencial de 1922, Minas e São Paulo apoiavam o mineiro Artur Bernardes como o próximo representante da política do "Café com Leite". O Exército, na oposição contra os fazendeiros dominantes, deu apoio ao candidato carioca Nilo Peçanha, que representava a "Reação Republicana" formada por uma coligação entre Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.


O cenário político brasileiro começou a ferver quando o jornal Correio da Manhã publicou na edição de 9 de outubro de 1921, uma carta manuscrita atribuída ao candidato dos fazendeiros, Artur Bernardes. Na carta, o ex-presidente marechal Hermes da Fonseca foi classificado como um "sargentão sem compostura", e o Exército chamado de "antro de corruptos".
 O mineiro Artur Bernardes, a quem foi atribuída a autoria da carta injuriosa contra Hermes da Fonseca e o Exército. A suposta carta acabou desencadeando a Revolta dos 18 do Forte
Artur Bernardes venceu as eleições de março de 1922 sob forte acusação de fraude eleitoral. Aliás, durante a República Velha, era comum as oligarquias rurais garantirem a eleição de seus candidatos por meio do voto de cabresto e da fraude eleitoral. Não havia justiça eleitoral e o Presidente da República podia legalizar qualquer resultado que atendesse aos seus interesses, graças ao controle que exercia sobre as comissões de verificação das eleições.


Nesse cenário, que garantia o domínio do país pelos fazendeiros paulistas e mineiros, além da concentração populacional nas zonas rurais e intensa miséria nos meios urbanos, o povo saiu às ruas para protestar e exigir mudanças. O Exército foi convocado para conter rebeliões populares em Pernambuco. Em 29 de junho e 1922, o marechal Hermes da Fonseca, que era a mais alta patente do Exército na ocasião, enviou uma mensagem de telégrafo ao Recife dando a ordem para que os militares não reprimissem o povo. O marechal Hermes acabou preso em 2 de julho por ordem do presidente Epitácio Pessoa. O Clube Militar, que era presidido pelo marechal Hermes, também foi fechado.


O sentimento de afronta tomou conta das fileiras do Exército. O clima esquentou ainda mais quando o presidente Epitácio Pessoa nomeou o historiador e civil Pandiá Calógeras para o cargo de Ministro da Guerra.


O Forte de Copacabana era comandado na ocasião pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca, que era filho do ex-presidente preso, marechal Hermes da Fonseca. Em julho de 1922, o Forte de Copacabana tinha 301 homens sob o comando do capitão Euclides Hermes.


No dia 4 de julho de 1922, os soldados do Forte cavaram trincheiras e minaram o terreno do interior do quartel em Copacabana. Todos os quartéis do Exército no Rio de Janeiro se rebelariam contra o presidente Epitácio Pessoa e seu sucessor, Artur Bernardes. A revolta começaria pelo Forte de Copacabana que, na madrugada do dia 5 de julho de 1922, iria disparar um tiro de canhão como senha para o início do levante. Os outros quartéis deveriam responder ao primeiro tiro do Forte de Copacabana logo em seguida.

Conforme o combinado, à 1h30 da madrugada do dia 5 de julho de 1922, o tenente Siqueira Campos disparou um dos canhões do Forte de Copacabana. A resposta dos outros quartéis não aconteceu e nada mais que o silêncio foi ouvido em seguida. O tenente Siqueira Campos esperou 10 minutos e gritou bem alto dentro do Forte: "Fomos traídos!"


Cúpula do canhão alemão Krupp do Forte de Copacabana, apontado para a cidade do Rio de Janeiro, no detalhe


Os canhões Krupp do Forte foram trazidos da Alemanha pela Marinha do Brasil. Desembarcados por guindastes elétricos de 80 toneladas, os canhões Krupp do Forte de Copacabana são 6 no total: dois de 305 milímetros, dois de 190 mílimetros e dois de 75 milímetros, com alcances de 23, 18 e 7 quilômetros respectivamente



O Governo tinha informações antecipadas sobre a revolta e mudou os comandos militares do Rio de Janeiro antes do início do levante. Só a Escola Militar de Realengo, onde eram formados os novos tenentes, e alguns quartéis da Vila Militar, precisaram ser contidos no amanhecer do dia 5 de julho. No demais, apenas os 302 homens do Forte de Copacabana estavam rebelados sozinhos contra a República Velha Brasileira naquela manhã.

O tenente Siqueira Campos então fez vários disparos de canhão. Os alvos foram o Quartel-General do Exército no Campo de Santana, o Quartel-General da Marinha na Praça Barão de Ladário, o Depósito Naval na Ilha das Cobras, O Forte de São João na Urca, a Fortaleza de Santa Cruz em Niterói e o Forte do Vigia, que ficava no alto do morro do Leme, e onde morreram quatro pessoas, vítimas dos disparos feitos a partir do Forte de Copacabana.
O Forte de Copacabana também foi severamente bombardeado pelas tropas do Exército fiéis à República Velha, durante todo o dia 5 de julho. A fortaleza de Santa Cruz, do outro lado da entrada da Baía de Guanabara, em Niterói, despejava todo o potencial de sua artilharia pesada sobre o Forte de Copacabana. Os amotinados, liderados pelo capitão Euclides Hermes, ameaçavam bombardear toda a cidade do Rio de Janeiro.
Vista aérea do Forte de Copacabana por dois ângulos: com o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea ao longe ...
e com águas calmas ao redor e a praia de Copacabana à direita
Já na madrugada do dia 6 de julho, o Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, fez uma ligação telefônica para o Forte de Copacabana, ordenando a rendição imediata dos rebelados. O Capitão Euclides Hermes e o Tenente Siqueira Campos resolvem deixar sair todos os homens que desejassem se render.

Siqueira Campos diria na ocasião: "Não temos o apoio de ninguém, perdemos a revolução. Não vou enganar ninguém, perdemos a revolução e só nos restam dois caminhos. O primeiro é nos entregarmos como covardes, e o segundo é sairmos por aí lutando até não podermos mais e morrer ou conseguir chegar até o Catete para dizer ao presidente da República do nosso repúdio. Mas também não quero levar ninguém ao suicídio. Quem quiser abandonar o forte, ainda está em tempo."


Foram dados 10 minutos de prazo para a decisão dos homens. Quem optasse por lutar, deveria ficar de um lado do quartel. Os outros poderiam sair do Forte. Os portões do Forte foram abertos e, dos 302 homens amotinados, 273 optaram pela rendição.


Um destróier e os couraçados São Paulo e Minas Gerais reforçaram o bombardeio ao Forte, onde ainda resistiam o capitão Euclides Hermes e seus 28 fiéis comandados. O ministro Calógeras deu outro telefonema ao Forte de Copacabana e exigiu a rendição incondicional, afirmando que, em caso contrário, todos os rebeldes seriam massacrados.


O capitão Euclides Hermes deixou o Forte e foi ao encontro do ministro Calógeras para conversar pessoalmente, mas, ao chegar no Palácio do Catete, onde estava o Ministro, foi preso imediatamente.

No Forte de Copacabana, ainda estavam 28 rebelados. O Tenente Siqueira Campos tomou então a decisão histórica: sair numa marcha suicida pela Avenida Atlântica rumo ao Palácio do Catete, a fim de concluir e deposição do Presidente Epitácio Pessoa.



Antes de saírem do Forte de Copacabana, os militares usaram um canivete para dividirem entre si uma bandeira do Brasil em 29 pedaços. Cada um colocou seu pedaço junto ao peito, preso na parte interna da farda. Um dos pedaços foi guardado para ser entregue ao capitão Euclides Hermes posteriormente.

Os portões do Forte de Copacabana foram abertos às 13 horas do dia 6 de julho de 1922. A histórica marcha suicida pela Avenida Atlântica teve inicio com 28 militares rebeldes armados com seus fuzis. Alguns debandaram, outros foram presos, esse e aquele morreu baleado. Curiosamente, o engenheiro civil gaúcho Otávio Correia, vestindo terno e chapéu, presenciava os combates e resolveu integrar-se ao levante. Pegou um fuzil e se juntou aos 18 militares revoltosos que ainda resistiam.
  
A histórica foto da marcha final dos rebelados do Forte de Copacabana. O civil Otávio Correia é o quarto da esquerda para direita. Esta foto, que é um dos maiores registros da História do Brasil em todos os tempos, foi feita pelo fotógrafo Zenóbio Rodrigo Couto, que, na ocasião, arriscou a própria vida para imortalizar a cena. Zenóbio era fotógrafo do antigo jornal carioca "O Malho"
  
Outro registro da histórica caminhada suicida rumo ao combate final com as tropas do Exército leais ao presidente Epitácio Pessoa
Os últimos tiroteios duraram cerca de meia hora. Cercados por 3 mil homens do Exército, já nas proximidades do Leme, os 18 militares e o civil foram sendo abatidos um a um. Só os dois últimos, os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes, foram capturados baleados mas sobreviveram.

O jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968) acompanhou o episódio e escreveria posteriormente: "Na praia eu assisti de perto os últimos combates, e pude ver a areia ainda quente, embebida do sangue dos bravos que sucumbiram de um lado e de outro".


Da histórica Revolta dos 18 do Forte de Copacabana nasceria um movimento militar que influenciaria na vida política brasileira por 4 décadas depois dos anos 20, o Tenentismo.


Oito anos mais tarde, em 1930, os tenentes apoiaram Getúlio Vargas na derrubada da República Velha. Nascia assim a República Nova de Vargas. Alguns historiadores afirmam que o Tenentismo e suas idéias permaneceram até a década de 1970, quando seus últimos representantes morreram.


Não se pode deixar de lembrar aqui que muitos dos generais que conspiraram para depor o presidente João Goulart no Golpe Militar de 1964, eram os tenentes das décadas de 20 e 30 que "amadureceram" e, finalmente, ao atingirem o generalato, calaram covardemente o Brasil, torturando, enforcando e sufocando sua democracia.