segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O FUTEBOL DE MESA





Por Cássio Ribeiro
 
Década de 60. O premiado pianista Arthur Moreira Lima está exilado em Moscou, na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A vida distante do Brasil foi a melhor alternativa encontrada diante da repressão imposta pela Ditadura Militar brasileira.


Ao arrumar a bagagem para a partida, Moreira Lima não esqueceu seu inseparável time de botões do Fluminense e, depois de alguns meses em Moscou, as regras do futebol de botão já tinham sido ensinadas a alguns soviéticos, que enfrentavam o pianista em partidas disputadas em pleno frio asiático.


Quando os amigos brasileiros iam visitar o pianista, também levavam suas equipes dentro das malas. Foi o que fez o arquiteto Alfredo Brito, em 1967, quando embarcou em um trem na Polônia, carregando um time do Botafogo em direção a Moscou, para a disputa do clássico entre Fluminense e Botafogo, conhecido como o clássico vovô do futebol carioca.


Na fronteira russa, Alfredo Brito foi revistado por policiais soviéticos que subiram no trem. A caixa com os botões, ao ser aberta, levantou suspeitas sobre o brasileiro. Os policiais queriam saber o que eram aquelas peças estranhas, acompanhadas de uma caixa de fósforos cheia de parafusos, que para os russos, certamente, seria uma bomba de estilhaços. Brito disse que se tratavam de football toys, e o nome da bomba era Osvaldo Baliza, goleiro do Botafogo no final da década de 40.


Toda a estranheza despertada nos russos se deu pelo fato de o futebol de botão ser um esporte muito conhecido só por aqui, sendo inclusive citado por muitos pesquisadores como um esporte genuinamente nascido no Brasil, embora não hajam registros preservados sobre a origem oficial do jogo de botão.


O autor Ubirajara Godoy Bueno, que escreveu o livro 'Botoníssimo', publicado em 1998, afirma que não há provas de que os garotos que brincaram de botão pela primeira vez fossem brasileiros, mas há muitos indícios.



No Brasil, quase todo garoto entre a década de 20 e o final do século passado tirou a cesta de frutas e o pano que cobria a mesa de jantar de casa para a disputa de uma animada partida. O “gramado” onde a bola corria durante os ataques e as tabelas entre os craques também podia ser improvisado em pátios de pedra polida e em corredores de madeira, porém, o “piso” preferido eram os lisos tacos em madeira, com uma convidativa camada de sinteco recém-aplicada. Na ausência do sinteco, a aplicação de cera doméstica comum resolvia muito bem a questão do toque de bola.

Jogador de futebol de botão é muitas vezes taxado como doido. Várias pessoas expressam incisivo preconceito quando vêem um marmanjão, muitas vezes cheio de cabelos brancos, debruçado sobre a mesa com uma palheta nas mãos. Alguns botonistas famosos que já passaram por tal situação são Jô Soares, Armando Nogueira, Casagrande e o já falecido e saudoso Chico Anísio.


O primeiro livro de regras sobre o futebol de botão foi o “Regras Officiaes do Football Calotex”, escrito pelo brasileiro Geraldo Décourt, aos 19 anos, em 1930. Décourt, que virou patrono do futebol de botão anos mais tarde, deu o nome de calotex ao jogo, porque calotex era o material importado com o qual se fabricavam as mesas domésticas na época.

Geraldo Décourt, patrono do futebol de botão

Embora os primeiros jogadores fossem tampas acrílicas de relógio disputadas por garotos nos balcões dos relojoeiros, durante a primeira metade do século passado, também marcaram época os “atletas” feitos a partir de casca de coco envernizada. 


Os primeiros craques de tampa de relógio

O que acabou dando o nome pelo qual o jogo é mais conhecido foram os enormes botões roubados das casacas da época. O futebol de botão usava inicialmente como bola, miolo de pão amassado, grãos de feijão, e irregulares formas próximas de cubos, esculpidas à gilete em rolhas de cortiça.

Os botões industrializados em acetato e os de galalite só começaram a ser produzidos na década de 1970. Nos anos 80, federações surgiram em todo o Brasil e o pequeno cubo, ou dadinho, roubou o cenário das outras bolas.

 Trave dos anos 70, ...
 e o goleiro de caixa de fósforos do Fluminense, como o que foi confundido com uma "bomba" sendo levada para Moscou
Botão do Bangu /RJ, em duas camadas e com faixa central de galalite ou madrepérola, fabricado na década de 80 



Botões do São Paulo e do Borússia em lance de disputa pelo dadinho, próximo ao meio de campo

Em 1988, o Conselho Nacional de Desportos concedeu a categoria de esporte ao jogo, com o pomposo nome de Futebol de Mesa. Foram oficializadas três regras: a baiana (onde cada jogador só pode dar um toque por vez na bola), a carioca (3 toques) e a paulista (12 toques). A bola esférica também foi introduzida. Com exceção do Brasil, o futebol de mesa não é reconhecido como esporte em nenhum outro país do mundo. 


Antigos botões com as imagens de Jairzinho, Garrincha e Pelé, junto às modernas bolas esféricas


 Partida de futebol de mesa em andamento

Na década de 90, o Clube dos 13, que reúne os 13 maiores times de futebol do Brasil, começou a cobrar fortunas pela licença dos escudos colocados pelas fábricas sobre os botões. Com isso, a produção nas indústrias baixou significativamente.

Com a evolução constante da realidade virtual dos videogames, o futebol de mesa foi perdendo espaço entre a garotada. Mesmo assim, hoje ainda existem muitos botonistas que realizam animados campeonatos em garagens, clubes e federações.


A Federação Paulista de Futebol de Mesa, fundada em 1962, conta hoje com mais de 3 mil sócios, e é reconhecida pela Confederação Brasileira de Futebol de Mesa (CBFM). Outra filiada à CBFM é a Federação Botonista do Estado do Rio de Janeiro (FEBOERJ).


Os escudos da Confederação Brasileira de Futebol de Mesa ...

e da Federação Paulista de Futebol de Mesa

O esporte conta com vários endereços na Internet, como o http://www.futeboldemesanews.com.br/, onde o internauta pode saber quais são os principais campeonatos em andamento e seus resultados, como também se inscrever para participar de torneios abertos a várias categorias. Um dos links na página inicial do site tem o nome de futebol de mesa de batom, e mostra entrevistas com algumas mulheres praticantes do esporte.



Já no blog www.escudosdebotao.blogspot.com/, o botonista pode baixar e imprimir escudos de clubes de todos os estados do Brasil, como também fotos dos rostos de jogadores que marcaram época em equipes italianas. Tudo isso poderá ser fixados como “camisa” nos seus craques.


 
 Atuais botões e goleiros usados em jogos oficiais
Professoras e psicólogas que introduziram o futebol de mesa nas atividades das crianças com as quais trabalham, afirmam que o esporte ajuda os jovens alunos a desenvolverem a coordenação motora global, o raciocínio lógico-matemático, o trabalho em equipe, a concentração e o aprendizado geral por meio do lúdico. De fato, muitas qualidades para quem nunca viu nada de bom e interessante nesse esporte tão brasileiro, e até já confundiu um goleiro do Botafogo com uma bomba de estilhaços prestes a ser detonada por um brasileiro “terrorista” arquiteto num trem a caminho de Moscou.

domingo, 12 de agosto de 2012

A REVOLTA DOS 18 DO FORTE DE COPACABANA






Por Cássio Ribeiro

Para o entendimento do que foi a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida em 1922, é necessário compreender  primeiro os moldes republicanos implantados no Brasil a partir de 1889, quando o Império teve fim em nosso país, como também compreender o cenário político brasileiro no início da década de 1920.


A Primeira República ou República Velha foi instaurada em 1889, graças à aliança entre militares e fazendeiros de café. A classe militar desejava a implantação de um regime republicano representado por um poder centralizado e forte. Já os grandes cafeicultores queriam um sistema republicano federalista, onde cada estado teria autonomia econômica, como também uma administração política regionalizada.


Como os fazendeiros de café formavam a classe mais rica da sociedade brasileira naquela época, não foi difícil suas aspirações serem implantadas nos moldes políticos brasileiros da República Velha.


Dos 13 presidentes que o Brasil teve no período da República Velha (1889-1930), só 3 eram militares. Quase todos os 10 presidentes civis que governaram o Brasil naquele período eram bacharéis em direito formados pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde havia também uma sociedade maçônica secreta, da qual todos os ex-presidentes civis também faziam parte.
A primeira bandeira adotada após a proclamação da Repúlica já deixava claro nossa aproximação ideológica com o sistema republicano norte-americano. Idealizada pelo republicano positivista Rui Barbosa, essa bandeira vigorou só por 5 dias, de 15 a 19 de novembro de 1889, quando foi adotada a bandeira brasileira atual
Outra característica marcante da República Velha, que a fez também ficar conhecida como a República do "Café com Leite", foi a alternância no poder presidencial entre mineiros e paulistas, garantida em suas bases pela "Política dos Governadores". Nela, o presidente da república apoiava os governadores estaduais e seus aliados, que garantiam a eleição de deputados e senadores fiéis ao presidente. Não havia assim, conflito entre o Congresso Nacional e os interesses dos presidentes mineiros e paulistas na República Velha.

No fundo, pode-se dizer que a República Velha era uma repetição dos moldes administrativos do Império. No lugar da Família Real, os ricos fazendeiros mineiros e paulistas se sucediam no poder da República do "Café com Leite".

No meio dessa sucessão presidencial entre representantes de Minas e São Paulo, que eram os dois estados mais ricos da Federação, o marechal Hermes da Fonseca foi eleito para governar o Brasil entre 1910 e 1914, sendo um presidente militar no meio da hegemônica alternância entre ricos fazendeiros mineiros e paulistas. Hermes da Fonseca era sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, que proclamou a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889, e foi o primeiro presidente nacional.

Marechal Hermes da Fonseca: um presidente militar no meio da sucessão presidencial monopolizada por fazendeiros paulistas e mineiros


Nas eleições de 1910, São Paulo e Bahia apoiaram Rui Barbosa por meio da "Campanha Civilista", que associava Hermes da Fonseca ao militarismo. O Marechal Hermes venceu mas, ao fim de seu mandato, em 1914, a antiga política de divisão do poder entre as oligarquias paulista e mineira foi retomada.
Entre 1914 e 1918, o Brasil foi governado pelo mineiro Venceslau Brás e, de 1918 até 1919, pelo também mineiro Delfim Moreira. A partir de 1919, até 1922, o paraibano Epitácio Pessoa presidiu o Brasil, e foi pouco antes de sua sucessão, em 1922, que aconteceu a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana.
 Epitácio Pessoa: o presidente que teve que enfrentar a Revolta dos 18 do Forte



Na campanha para a sucessão presidencial de 1922, Minas e São Paulo apoiavam o mineiro Artur Bernardes como o próximo representante da política do "Café com Leite". O Exército, na oposição contra os fazendeiros dominantes, deu apoio ao candidato carioca Nilo Peçanha, que representava a "Reação Republicana" formada por uma coligação entre Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.


O cenário político brasileiro começou a ferver quando o jornal Correio da Manhã publicou na edição de 9 de outubro de 1921, uma carta manuscrita atribuída ao candidato dos fazendeiros, Artur Bernardes. Na carta, o ex-presidente marechal Hermes da Fonseca foi classificado como um "sargentão sem compostura", e o Exército chamado de "antro de corruptos".
 O mineiro Artur Bernardes, a quem foi atribuída a autoria da carta injuriosa contra Hermes da Fonseca e o Exército. A suposta carta acabou desencadeando a Revolta dos 18 do Forte
Artur Bernardes venceu as eleições de março de 1922 sob forte acusação de fraude eleitoral. Aliás, durante a República Velha, era comum as oligarquias rurais garantirem a eleição de seus candidatos por meio do voto de cabresto e da fraude eleitoral. Não havia justiça eleitoral e o Presidente da República podia legalizar qualquer resultado que atendesse aos seus interesses, graças ao controle que exercia sobre as comissões de verificação das eleições.


Nesse cenário, que garantia o domínio do país pelos fazendeiros paulistas e mineiros, além da concentração populacional nas zonas rurais e intensa miséria nos meios urbanos, o povo saiu às ruas para protestar e exigir mudanças. O Exército foi convocado para conter rebeliões populares em Pernambuco. Em 29 de junho e 1922, o marechal Hermes da Fonseca, que era a mais alta patente do Exército na ocasião, enviou uma mensagem de telégrafo ao Recife dando a ordem para que os militares não reprimissem o povo. O marechal Hermes acabou preso em 2 de julho por ordem do presidente Epitácio Pessoa. O Clube Militar, que era presidido pelo marechal Hermes, também foi fechado.


O sentimento de afronta tomou conta das fileiras do Exército. O clima esquentou ainda mais quando o presidente Epitácio Pessoa nomeou o historiador e civil Pandiá Calógeras para o cargo de Ministro da Guerra.


O Forte de Copacabana era comandado na ocasião pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca, que era filho do ex-presidente preso, marechal Hermes da Fonseca. Em julho de 1922, o Forte de Copacabana tinha 301 homens sob o comando do capitão Euclides Hermes.


No dia 4 de julho de 1922, os soldados do Forte cavaram trincheiras e minaram o terreno do interior do quartel em Copacabana. Todos os quartéis do Exército no Rio de Janeiro se rebelariam contra o presidente Epitácio Pessoa e seu sucessor, Artur Bernardes. A revolta começaria pelo Forte de Copacabana que, na madrugada do dia 5 de julho de 1922, iria disparar um tiro de canhão como senha para o início do levante. Os outros quartéis deveriam responder ao primeiro tiro do Forte de Copacabana logo em seguida.

Conforme o combinado, à 1h30 da madrugada do dia 5 de julho de 1922, o tenente Siqueira Campos disparou um dos canhões do Forte de Copacabana. A resposta dos outros quartéis não aconteceu e nada mais que o silêncio foi ouvido em seguida. O tenente Siqueira Campos esperou 10 minutos e gritou bem alto dentro do Forte: "Fomos traídos!"


Cúpula do canhão alemão Krupp do Forte de Copacabana, apontado para a cidade do Rio de Janeiro, no detalhe


Os canhões Krupp do Forte foram trazidos da Alemanha pela Marinha do Brasil. Desembarcados por guindastes elétricos de 80 toneladas, os canhões Krupp do Forte de Copacabana são 6 no total: dois de 305 milímetros, dois de 190 mílimetros e dois de 75 milímetros, com alcances de 23, 18 e 7 quilômetros respectivamente



O Governo tinha informações antecipadas sobre a revolta e mudou os comandos militares do Rio de Janeiro antes do início do levante. Só a Escola Militar de Realengo, onde eram formados os novos tenentes, e alguns quartéis da Vila Militar, precisaram ser contidos no amanhecer do dia 5 de julho. No demais, apenas os 302 homens do Forte de Copacabana estavam rebelados sozinhos contra a República Velha Brasileira naquela manhã.

O tenente Siqueira Campos então fez vários disparos de canhão. Os alvos foram o Quartel-General do Exército no Campo de Santana, o Quartel-General da Marinha na Praça Barão de Ladário, o Depósito Naval na Ilha das Cobras, O Forte de São João na Urca, a Fortaleza de Santa Cruz em Niterói e o Forte do Vigia, que ficava no alto do morro do Leme, e onde morreram quatro pessoas, vítimas dos disparos feitos a partir do Forte de Copacabana.
O Forte de Copacabana também foi severamente bombardeado pelas tropas do Exército fiéis à República Velha, durante todo o dia 5 de julho. A fortaleza de Santa Cruz, do outro lado da entrada da Baía de Guanabara, em Niterói, despejava todo o potencial de sua artilharia pesada sobre o Forte de Copacabana. Os amotinados, liderados pelo capitão Euclides Hermes, ameaçavam bombardear toda a cidade do Rio de Janeiro.
Vista aérea do Forte de Copacabana por dois ângulos: com o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea ao longe ...
e com águas calmas ao redor e a praia de Copacabana à direita
Já na madrugada do dia 6 de julho, o Ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, fez uma ligação telefônica para o Forte de Copacabana, ordenando a rendição imediata dos rebelados. O Capitão Euclides Hermes e o Tenente Siqueira Campos resolvem deixar sair todos os homens que desejassem se render.

Siqueira Campos diria na ocasião: "Não temos o apoio de ninguém, perdemos a revolução. Não vou enganar ninguém, perdemos a revolução e só nos restam dois caminhos. O primeiro é nos entregarmos como covardes, e o segundo é sairmos por aí lutando até não podermos mais e morrer ou conseguir chegar até o Catete para dizer ao presidente da República do nosso repúdio. Mas também não quero levar ninguém ao suicídio. Quem quiser abandonar o forte, ainda está em tempo."


Foram dados 10 minutos de prazo para a decisão dos homens. Quem optasse por lutar, deveria ficar de um lado do quartel. Os outros poderiam sair do Forte. Os portões do Forte foram abertos e, dos 302 homens amotinados, 273 optaram pela rendição.


Um destróier e os couraçados São Paulo e Minas Gerais reforçaram o bombardeio ao Forte, onde ainda resistiam o capitão Euclides Hermes e seus 28 fiéis comandados. O ministro Calógeras deu outro telefonema ao Forte de Copacabana e exigiu a rendição incondicional, afirmando que, em caso contrário, todos os rebeldes seriam massacrados.


O capitão Euclides Hermes deixou o Forte e foi ao encontro do ministro Calógeras para conversar pessoalmente, mas, ao chegar no Palácio do Catete, onde estava o Ministro, foi preso imediatamente.

No Forte de Copacabana, ainda estavam 28 rebelados. O Tenente Siqueira Campos tomou então a decisão histórica: sair numa marcha suicida pela Avenida Atlântica rumo ao Palácio do Catete, a fim de concluir e deposição do Presidente Epitácio Pessoa.



Antes de saírem do Forte de Copacabana, os militares usaram um canivete para dividirem entre si uma bandeira do Brasil em 29 pedaços. Cada um colocou seu pedaço junto ao peito, preso na parte interna da farda. Um dos pedaços foi guardado para ser entregue ao capitão Euclides Hermes posteriormente.

Os portões do Forte de Copacabana foram abertos às 13 horas do dia 6 de julho de 1922. A histórica marcha suicida pela Avenida Atlântica teve inicio com 28 militares rebeldes armados com seus fuzis. Alguns debandaram, outros foram presos, esse e aquele morreu baleado. Curiosamente, o engenheiro civil gaúcho Otávio Correia, vestindo terno e chapéu, presenciava os combates e resolveu integrar-se ao levante. Pegou um fuzil e se juntou aos 18 militares revoltosos que ainda resistiam.
  
A histórica foto da marcha final dos rebelados do Forte de Copacabana. O civil Otávio Correia é o quarto da esquerda para direita. Esta foto, que é um dos maiores registros da História do Brasil em todos os tempos, foi feita pelo fotógrafo Zenóbio Rodrigo Couto, que, na ocasião, arriscou a própria vida para imortalizar a cena. Zenóbio era fotógrafo do antigo jornal carioca "O Malho"
  
Outro registro da histórica caminhada suicida rumo ao combate final com as tropas do Exército leais ao presidente Epitácio Pessoa
Os últimos tiroteios duraram cerca de meia hora. Cercados por 3 mil homens do Exército, já nas proximidades do Leme, os 18 militares e o civil foram sendo abatidos um a um. Só os dois últimos, os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes, foram capturados baleados mas sobreviveram.

O jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968) acompanhou o episódio e escreveria posteriormente: "Na praia eu assisti de perto os últimos combates, e pude ver a areia ainda quente, embebida do sangue dos bravos que sucumbiram de um lado e de outro".


Da histórica Revolta dos 18 do Forte de Copacabana nasceria um movimento militar que influenciaria na vida política brasileira por 4 décadas depois dos anos 20, o Tenentismo.


Oito anos mais tarde, em 1930, os tenentes apoiaram Getúlio Vargas na derrubada da República Velha. Nascia assim a República Nova de Vargas. Alguns historiadores afirmam que o Tenentismo e suas idéias permaneceram até a década de 1970, quando seus últimos representantes morreram.


Não se pode deixar de lembrar aqui que muitos dos generais que conspiraram para depor o presidente João Goulart no Golpe Militar de 1964, eram os tenentes das décadas de 20 e 30 que "amadureceram" e, finalmente, ao atingirem o generalato, calaram covardemente o Brasil, torturando, enforcando e sufocando sua democracia. 

domingo, 5 de agosto de 2012

BIQUÍNI: A EVOLUÇÃO DOS 4 "TRIÂNGULOS DE NADA"






Por Cássio Ribeiro

1º de julho de 1946. A marinha dos Estados Unidos realiza uma série de explosões nucleares a fim de testar bombas atômicas no Atol de Bikini, ao sul do Oceano Pacífico, perto da Oceania.


Teste nuclear da marinha americana em 1946 ...


 no Atol de Bikini, localizado no Oceano Pacífico



Dois dias depois, em 3 de julho de 1946, o francês e engenheiro mecânico desempregado Luois Réard apresentava ao mundo uma inédita peça da vestimenta feminina, que ele mesmo chamou de biquíni, já que tinha a certeza de que, mesmo naquela sociedade liberal européia da década de 40, o pequeno traje seria encarado como uma explosão nuclear; e foi.


Comparado com os modelos de hoje, o biquíni inicial era um tanto comportado. Mesmo assim, nenhuma modelo daquele ano de 1946 aceitou vestir-se e desfilar no lançamento da nova peça, que cabia em uma caixa de fósforos. Esse primeiro biquíni usado no lançamento trazia a disposição da página de um jornal em sua estampa.


A tarefa de modelo acabou sobrando para a francesa Michelini Bernardini, uma dançarina que fazia show tirando a roupa todas as noites em uma casa noturna de Paris. Michelini então desfilou e posou para fotos à beira de uma piscina em Paris, naquele julho de 1946. Os jornais da época descreveram o primeiro biquíni como "quatro triângulos de nada".



Michelini Bernardini no momento do lançamento do biquíni, segurando a caixa de fósforos da qual a paça saíra antes de ser vestida por ela. A estampa do primeiro biquíni reproduzia a página de um jornal

Apesar do escândalo, Michelini recebeu 50 mil cartas de admiradores. Mesmo sendo sensação de divulgação na imprensa da época, o biquíni chegou às lojas mas não fez sucesso num primeiro momento. O tradicional maiô ainda roubava a cena numa época em que o biquíni representava escândalo.

Essa realidade só começou a mudar graças ao Cinema, onde a atriz francesa Brigitte Bardot atuou sem inibição nos filmes "E Deus Criou a Mulher", em meados da década de 50, e "As Noviças", em 70. 

 Brigitte também contribuiu para a popularização do Biquíni no Brasil, depois que fotos suas desfilando no verão de 64 com um minúsculo biquíni em Búzios, no RJ, ganharam o mundo. Até esse fato, o biquíni só era usado no Brasil pelas vedetes do teatro rebolado.



Brigitte Bardot no filme "As Noviças", de 1970


Ainda na década de 60, com a onda de liberalismo que tomou conta do mundo, o biquíni passou a representar um comportamento de mulheres que buscavam a independência e a liberdade numa forma de protesto, tanto que o então presidente Jânio Quadros (1917–1992), proibiu o uso do biquíni nas praias brasileiras, por meio de um decreto assinado em 1961. 

A proibição foi a espoleta que faltava para deflagrar o uso desenfreado da peça, que só diminuía de tamanho com o passar dos anos.


Já na década de 70, a ousadia reuniu o biquíni com a exposição de uma barriga de 7 meses de gravidez na praia de Ipanema. Essa ousadia tinha um nome que ficou famoso como um símbolo de atitude da liberação feminina: Leila Diniz, que foi a primeira grávida a desfilar de biquíni em público, no ano de 1971, na famosa praia carioca.


Leila aos 7 meses de gestação em Ipanema, em 1971


 A atriz niteroiense Leila Diniz morreria um ano depois, em um acidente de avião ocorrido em Nova Délhi, Índia, em 14 de junho de 1972



A partir de Leila Diniz, o Brasil, graças aos seus 7 mil quilômetros de praias e verão durante quase todo o ano em alguns lugares, passou a despontar como o grande celeiro de tendências da moda dos biquínis.


A carioca Rose di Primo lançou a tanga ainda nos idos dos anos 70, aos 16 anos, quando substitui as laterais de um biquíni muito apertado, e que não passava pelas pernas, por tiras de pano. Apesar dos protestos de sua mãe, Rose escandalizava diariamente a liberal Ipanema com seus minúsculos modelos de tanga recém criados.


Na década de 80, o Brasil se consagra e se firma no cenário mundial como líder da produção de biquínis, e na vanguarda das tendências de novos modelos. 

As inovações surgem sobre os corpos esculturais de verdadeiras deusas como Monique Evans (e seu famoso topless), Luiza Brunet, Isadora Ribeiro e toda uma constelação adornada pelos modelos enroladinho, sutiã cortininha e asa delta. Quando o tamanho não tinha mais para onde diminuir, surgiu mais um modelo 100% brasileiro chamado fio dental, que acabou ganhando as praias de todo o mundo e, ainda hoje, é o preferido das mulheres mais jovens. 



O modelo asa delta: sempre destacando a beleza e o charme escultural da mulher carioca






O fio dental de Isadora Ribeiro e ...




o atual modelo fio dental, mais "radical"



Nos anos 90, o biquíni ganha acompanhamentos ditados pela moda: cangas coloridas, óculos, saídas de praia, chapéus, chinelos e toalhas.


O Brasil hoje é o país que mais fabrica e consome biquínis no mundo, além de ter a qualidade de suas peças reconhecida mundialmente pelo estilo ousado e pela criatividade dos modelos. São cerca 60 milhões de biquínis produzidos todos os anos no país, dos quais, 9 milhões são exportados. 


A modernidade evolutiva proporcionou agilidade e qualidade na produção das peças: corte dos modelos a laser, tecidos que secam rapidamente e repelem os raios solares nocivos ao corpo, além de impedirem a proliferação de bactérias.

Ainda está longe de existir, mas os especialistas afirmam que algumas futuras inovações serão tecidos que mudarão de cor conforme a temperatura e possuirão propriedades anticelulite e antiestrias.


Ao biquíni, sempre associado ao corpo daquela que talvez seja a mais perfeita de todas as criaturas já concebidas, a mulher, resta a definição dada por uma das mais importantes editoras de moda do mundo, Diana Vreeland (1903-1989), com passagem pelas revistas americanas de moda Vogue, Harper’s e Bazaar: "É a invenção mais importante deste século 20, depois da bomba atômica", disse ela.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

COMO OCORREM AS 4 ESTAÇÕES CLIMÁTICAS DO ANO






Por Cássio Ribeiro

O Sistema Solar é formado por 9 planetas (Mercúrio, Vênus, Terra Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão). A Terra, sendo o terceiro planeta deste sistema na ordem de afastamento do Sol,  está a uma distância média de aproximadamente150 milhões de quilômetros do chamado Astro Rei.

Nosso Planeta realiza dois movimentos principais. O primeiro é a Rotação, que é um giro que a Terra executa em torno do próprio eixo, que pode ser definido como linha imaginária que liga o Pólo Norte ao Pólo Sul do Planeta. 

A rotação da Terra é realizada a uma velocidade de aproximadamente 1609 quilômetros por hora, o que ocasiona, por meio da força centrífuga, uma sutil deformação na massa da Terra. Tal deformação é responsável pelo achatamento do Planeta na região dos pólos, e pela dilatação na região da linha do Equador. O Equador divide o imenso planeta Terra em duas metades, que são os hemisférios norte e sul (hemisfério = metade da esfera).

O movimento de Rotação faz a Terra dar um giro completo em torno de si mesma num intervalo de 24 horas, o que ocasiona a contagem de um dia inteiro do ano. Amanhece na região do planeta Terra que está voltada para o Sol, e quando essa face voltada para Sol for levada pela rotação da Terra ao lado oposto, que está oculto e não recebe a luz solar, será noite nesta região e dia na outra, que também foi levada pelo giro do Planeta à presença dos raios solares.

 Esse movimento ininterrupto faz a noite chegar por volta das 18h, e o dia clarear às 6 da manhã aproximadamente.


 O giro ao redor do próprio eixo ocasiona a alternância entre os dias e as noites na suprefície da Terra



 Com a união de várias imagens de satélite obtidas em diferentes momentos, foi possível mostrar toda a superfície do Planeta durante o dia e ...


durante a noite



O outro principal movimento realizado pela Terra é a Translação, que é uma longa órbita de 930 milhões de quilômetros percorrida por nosso Planeta em torno do Sol no Espaço, a uma velocidade média de 106.800 quilômetros por hora, o que corresponde a 30 quilômetros percorridos pela Terra em cada segundo. 

Para completar um percurso inteiro da órbita em torno do Sol, a Terra demora 365 dias (um ano) e seis horas aproximadamente. A cada 4 anos, as 6 horas excedentes da Translação são reunidas num dia a mais acrescentado em fevereiro (dia 29), nos chamados anos bissextos.
 
O eixo da Terra, que é a linha imaginária que liga o Pólo Norte ao Pólo Sul, é inclinado 23 graus e meio em relação à linha de direção da órbita que o Planeta percorre durante 365 dias em torno do Sol.

A inclinação do eixo terrestre em relação ao plano da órbita percorrida ao redor do Sol em aproximadamente 365 dias

Sendo assim, no dia 21 de dezembro, a Terra está inclinada com o hemisfério sul (onde está o Brasil) mais voltado para a direção do Sol e seus raios. A partir desta data, os dias são mais longos que as noites no hemisfério sul, que também recebe os raios solares num ângulo mais direto e incisivo.


No hemisfério norte, onde está a Europa e os Estados Unidos por exemplo, os dias são mais curtos e os raios solares mais brandos devido à inclinação da Terra. Logo, o dia 21 de dezembro marca o solstício de verão no hemisfério sul e o solstício de inverno no hemisfério norte. 

 Devido a inclinação do eixo norte-sul da Terra em 21 de dezembro, o verão abaixo do Equador é marcado pela maior intensidade dos raios solares e por dias mais longos


No dia 21 de março, a Terra continua inclinada, mas sua inclinação fica perpendicular à direção da chegada dos raios solares, já que a linha imaginária que liga o centro do Sol ao centro da Terra passa pelo círculo Equador. 


Este alinhamento faz os dias e as noites terem a mesma duração (12 horas) a partir desta data nos hemisférios norte e sul. Em 21 de março, é dito que ocorre o equinócio (noites iguais). 


No hemisfério sul, que caminha para o inverno, o período do ano é chamado de equinócio de outono e, no hemisfério norte, que está a 3 meses do verão, o fenômeno astronômico é chamado de equinócio de primavera.


Com o alinhamento entre o centro do Sol e o centro da Terra, alinhamento esse que passa pelo Equador terrestre, a inclinação do Planeta não influencia na direção dos raios solares, ...



que acabam incidindo com igual intensidade acima e abaixo da linha do Equador (hemisférios Norte e Sul). O chamado equinócio ocorre em 21 de março e 23 de setembro, e marca o início da primavera no hemisfério que caminha para o verão, e o início do outono no hemisfério em que o inverno se aproxima na ocasião


A ocorrência de nosso equinócio de outono varia entre os dias 19, 20 e 21 de março. A última ocasião em que o outono começou no dia 21 de março foi em 1991. O início do outono irá se alternar entre os dias 19 e 20 de março durante todo o século 21 (2001-2100). O primeiro início de outono em 19 de março será em 2028, e o outono só voltará a ter início no dia 21 de março em 2103.


Em 21 de junho, já tendo percorrido a metade de toda sua órbita em torno do Sol, a Terra está inclinada com o hemisfério norte mais voltado para a direção do Sol e seus raios. Nesta data, as noites são mais longas que os dias no hemisfério sul e, consequentemente, mais curtas que os dias no hemisfério norte. Os raios solares também incidem com mais intensidade no hemisfério norte, e mais brandos no hemisfério sul, onde está o Brasil. A data marca o solstício de inverno no hemisfério sul e o solstício de verão no hemisfério norte.


Em 21 de junho, a inclinação da Terra faz o hemisfério norte receber maior incidência dos raios solares. No hemisfério sul, ocorre o solstício de inverno e os dias (em amarelo), são menores que as noites (em azul), no Brasil por exemplo

No dia 23 de setembro, a Terra está a um quarto de completar um giro orbital de um ano em torno do Sol no Espaço. Nesta ocasião, novamente a inclinação de nosso Planeta fica perpendicular à direção de incidência dos raios solares. 


Tal alinhamento faz novamente os dias e as noites terem a mesma duração de 12 horas nos hemisférios norte e sul. Vale lembrar que a duração do dia é medida do nascer do Sol, bem no momento em que a metade da esfera solar está acima do horizonte, até o pôr do Sol, quando a metade da esfera incandescente está abaixo da linha do horizonte.


Nas duas ocasiões dos equinócios (21 de março e 23 de setembro), dias e noites têm duração de 12 horas, por ocasião do alinhamento entre os dois hemisférios e o Sol, apesar da inclinação do eixo terestre

 Terra atingida pelos raios solares no momento dos equinócios: noites e dias com durações iguais


Como em 23 de setembro o hemisfério norte caminha para mais um inverno, é dito que, nesta data, ocorre o equinócio de outono no hemisfério norte. Já no hemisfério sul, a três meses de mais um verão, o alinhamento entre os dois hemisférios da Terra e o Sol é chamado de equinócio de primavera.


Um resumo com as 4 situações da Terra durante os 365 dias em que percorre sua órbita em torno do Sol, ...


ocasionando o início das 4 estações do ano para nós do hemisfério sul, como mostra a ilustração acima

Como o ângulo de incidência dos raios solares varia de acordo com a época do ano, as sombras projetadas por elementos verticais também variam de acordo com a estação do ano, como mostra a ilustração acima


Quando o homem percebeu que podia contar o tempo observando o que acontecia no Espaço, a primeira referência foi baseada no ciclo da Lua. Culturas como a judaica, a chinesa e a muçulmana ainda utilizam o ciclo lunar como referência para seus calendários.


Foi o imperador romano Júlio César, em 46 Antes de Cristo, quem percebeu que a relação entre a Terra e o Sol no Espaço era a referência mais exata e fácil para a contagem de um ano completo. Naquele tempo, a duração do ano era adotada como exatos 365 dias e quatro horas, e teve início a prática da inclusão de mais um dia no mês de fevereiro a cada 4 anos (dia 29 dos anos bissextos).


O tempo de 365 dias e 6 horas estabelecido por Júlio César para a contagem de um ano não era exatamente preciso. Havia uma diferença calculada em 11 minutos para cada ano, fato que, com o passar dos anos, começou a gerar atraso em relação a contagem dos anos e o tempo que a Terra leva para percorrer sua órbita em torno do Sol. A diferença entre as datas de início das estações gerava problemas para a agricultura, a pesca e para a referência do início das festas religiosas baseadas no calendário Juliano, instituído pelo imperador Júlio César.


Foi o Papa Gregório 13, escolhido em 1572, quem corrigiu a diferença de 10 dias acumulada desde a adoção do calendário Juliano. Sendo assim, o dia seguinte ao dia 4 de outubro de 1582, foi o dia 15 de outubro de 1582. Na ocasião, foi estabelecido o calendário Gregoriano, que considera 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos como sendo a duração de uma ano.


No século 20, foi verificada também uma diferença anual de 26 segundos acumulada desde a adoção do calendário Gregoriano. É sabido hoje que a duração exata de um ano é de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. A diferença anual de 26 segundos acarretará a necessidade da correção de um dia no ano 4915 de nossa Era.
Quem viver nesse ano, verá.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ESTAÇÃO DE CACHOEIRA PAULISTA: UMA GIGANTE BELA ADORMECIDA



Por Cássio Ribeiro

Véspera do Natal de 1973. Os trabalhadores responsáveis pela manutenção da ferrovia que corta o Vale do Paraíba Paulista embarcam em uma locomotiva GE-U6B, conhecida como “trinta”. São doze ferroviários e dois maquinistas que vão para a cidade de Queluz-SP receberem o pagamento do último mês do ano.

Escurece rápido e uma brisa quente toma conta do ar naquele início de noite de verão. Logo começa a cair uma forte chuva, que faz subir uma nuvem de vapor das pedras da linha férrea que foram aquecidas pelo tórrido sol daquele dia inteiro.

Após a chegada a Queluz, a locomotiva aguarda sob forte chuva com o motor ligado até o último ferroviário receber seu pagamento. Os trabalhadores voltam para a locomotiva e a pequena cabine acomoda novamente doze homens em pé entre as poltronas dos dois maquinistas.

Na volta, o maquinista fica preocupado com o volume de água da enxurrada e reduz a velocidade perto da famosa Curva do Roncador. Numa fração de segundos, os trilhos desaparecem sob a locomotiva que, descontrolada, tomba e cai na ribanceira.

A máquina pára perto das águas revoltas do rio Paraíba do Sul. Só não foi engolida pelo rio graças ao atrito com as pedras e a densa vegetação do local. A chuva forte levou as pedras que sustentavam os trilhos da linha e ocasionou o acidente. Por sorte todos sobreviveram, mas o saldo foi de costelas e clavículas quebradas. A locomotiva levou três dias para ser içada.

Histórias como essa compõem os 158 anos de ferrovias no Brasil, completos nesse ano (2012). Quando chegou ao Brasil na segunda metade do século 19 (1801-1900), a ferrovia era o principal meio de transporte de passageiros e carga, principalmente café.

Os trens marcaram o desenvolvimento de diversas cidades do interior, já que estabeleceram a ligação direta com as grandes capitais e com os portos de escoamento e chegada de mercadorias.

Durante o século 20, o desenvolvimento das rodovias fez o transporte ferroviário de passageiros em longa distância ser praticamente extinto no Brasil. No lugar dos trens, roubaram a cena os ônibus das diversas empresas que dividem o país em áreas de monopólio de atuação.

A situação das ferrovias ficou ainda pior após as privatizações realizadas no setor durante governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1996. As empresas privadas que arrendaram a malha ferroviária brasileira transportam apenas carga, como minério, bauxita, cimento, metais e combustível.

O último serviço ferroviário de transporte longo de passageiros em atividade no Brasil funciona no ramal patrocinado pela companhia Vale do Rio Doce, e liga Vitória, no Espírito Santo, à capital mineira Belo Horizonte.

Apesar dos cortes de funcionários após as privatizações, os ferroviários ainda sobrevivem. No trecho do Vale do Paraíba paulista, são transportadas até 11 mil toneladas de minério em uma só viagem. Apenas um maquinista opera três locomotivas que puxam cerca de 100 vagões carregados, que equivalem a 400 caminhões lotados.

No Vale do Paraíba Paulista, os maquinistas trocam de turno na estação da pequena cidade de Roseira. No dia 17 de abril de 2005, às 15 hs, tive a agradável oportunidade de embarcar numa locomotiva cargueira em Roseira, a fim de produzir uma reportagem para o jornal Vale Repórter, que é feito pelos alunos do segundo ano do curso de Jornalismo da Universidade de Taubaté.

O maquinista Antônio Carlos, 28 anos de profissão, assumiu o comando das três locomotivas seguidas de vagões lotados: “Quando me aposentar, vou sentir falta da máquina, dos amigos e das viagens”, afirmou seu Antônio, já operando a locomotiva em movimento sobre os trilhos molhados pela fina chuva que caía naquela tarde.

 dois momentos do maquinista Antônio Carlos: 28 anos de profissão 


O destino era Barra Mansa, no estado do Rio. Durante a viagem, as paisagens de campos verdes do fundo do Vale do Paraíba Paulista se alternavam com a invasão da locomotiva em meios urbanos. Ficou claro na ocasião, o romantismo centenário dos trens, que ainda hoje tanto encanta as pessoas.

Nas cidades, todos paravam o que estavam fazendo para admirarem as máquinas e seus vagões carregados. Crianças corriam alvoroçadas querendo acompanhar a locomotiva, que apitava, como que querendo agradecer a atenção de todos.

A situação atual de grande parte das estações do Brasil é de completo abandono. Em Cachoeira Paulista, também no Vale do Paraíba paulista, é muito triste a situação da belíssima e grandiosa estação em estilo arquitetônico inglês do século 19.

Com 270 metros de comprimento, e área de 2770 metros quadrados, a bela construção é a segunda maior estação de todo o estado de São Paulo, menor apenas que a estação da Luz, na capital paulista.

Comenta-se na pequena e simpática Cachoeira Paulista, que o tamanho da estação foi o resultado da paixão do engenheiro que a construiu, o inglês Newton Benton, por uma cachoeirense. O engenheiro teria aumentado o projeto da estação, a fim permanecer mais tempo na cidade.

Sedução das cachoeirenses e memórias à parte, hoje a estação está praticamente em ruínas. Seus galpões, que armazenavam a produção de café de todo o Vale do Paraíba e serviram de quartel general para as tropas de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 1932, hoje estão sem teto, portas e janelas.


Localização do município de Cachoeira Paulista, em vermelho, dentro do mapa do estado de São Paulo, em tom mais claro. A parte mais fina do mapa, abaixo e à direita, é o Vale do Paraíba paulista
 Vista geral da belíssima e grandiosa estação de Cachoeira Paulista em 1982. São três torres: uma central e duas menores nas extremidades do prédio em estilo inglês do século 19. Não é fácil fotografar a estação desta posição, pois existe um morro à direita do plano da foto, e só uma estreita rua passa espremida bem em frente à estação, entre o morro e os trilhos

Torre central da estação em 1998. No final do século 19, a estação, além de ser parada da ferrovia, abrigava também a sede dos Correios e a Câmara Municipal de Cachoeira Paulista


 Outro registro de 1998. Portas, janelas, piso interior, escadas e telhados não existem mais


 A estação em 2003. O custo da restauração é muito alto, e o município de Cachoeira Paulista precisaria encontrar uma forma de viabilizar o investimento, transformando o prédio num auto-sustentável gerador de recuros, como as estações da Luz e Júlio Prestes, localizadas na capital paulista


 Vista da estação a partir da margem oposta do rio Paraíba do Sul, ao norte, em 1950. Na época (final da décade de 1940 e início da década de 1950) a cidade e a estação passaram a ser chamadas de Valparaíba e, posteriormente, o nome atual de Cachoeira Paulista foi definitivamente adotado


 Foto de 2006. Com o desgaste do prédio, as tintas mais recentes vão sendo naturalmente removidas pelo tempo, e curiosamente deixam exposto novamente o antigo nome Valparaíba na parede da estação, oposta aos trilhos e voltada para o rio Paraíba do Sul


 A gigante bela adormecida


 Locomotiva biriba e seus vagões parados na estação de Cachoeira Paulista, em 1962


 Visão interna da estação. Triste ruir da rica história cultural brasileira



 No dia da inauguração da estação de Cachoeira Paulista, em 8 de julho de 1877, o trem partiu às 6h15 do Rio de Janeiro sob rojões, hinos, discursos e festa. A cada estação, a festa se repetia, mas a locomotiva e seus vagões só pararam em Cachoeira Paulista.

Era preciso que os passageiros trocassem de trem, pois a linha que vinha do Rio de Janeiro e pertencia a EFCB (Estrada de Ferro Central do Brasil) tinha 1,6 metro de largura. A partir da estação de Cachoeira Paulista até São Paulo, a linha da EFN (Estrada de Ferro do Norte) possuía a chamada bitola métrica, com 1 metro de largura.

As cidades do Vale do Paraíba que ficavam à beira do trajeto dos trilhos que ligavam o Rio de Janeiro a São Paulo prosperaram e cresceram. As cidades mais afastadas, que antes da ferrovia eram prósperas, entraram em decadência e inspiraram o escritor de Taubaté, Monteiro Lobato, a escrever o livro “Cidades Mortas”.

O custo gerado pela necessidade dos passageiros e das cargas serem trocados de trens em Cachoeira Paulista, por causa da diferença de largura entre a linha que vinha do Rio de Janeiro e a que seguia para São Paulo, foi um dos fatores que influenciou na decadência do cultivo do café no Vale do Paraíba paulista. A largura entre as linhas só foi igualada em 1908, ocasião em que todo o trajeto da ferrovia entre Rio e São Paulo passou a ter só uma linha com 1,6 metro de bitola.

Senhora de 158 anos, a ferrovia ainda sobrevive no Brasil, garantindo com o transporte de carga o emprego de bravos ferroviários. Mas assim como assistiu diversas vezes seus trilhos serem levados pelas chuvas torrenciais, assiste hoje, a cada curva e na maioria de suas estações, sua história viva ser levada pelo descaso, o abandono e o tempo.