segunda-feira, 9 de julho de 2012

O ISLAMISMO DESDE AS ORIGENS





Por Cássio Ribeiro

A Arábia é uma península que fica entre o nordeste da África e a Ásia. No século 6 (501-600) de nossa era cristã, a Arábia, que também é chamada de Península Árabe ou Arábica, era intensamente percorrida por caravanas de mercadores que traziam produtos da Índia para serem comercializados no Ocidente, mais precisamente na Europa.

O trajeto vinha pelo oceano Índico e cruzava toda a Arábia, passava pelo mar Vermelho e atravessava o rio Nilo e o Egito, na África, seguindo para o norte, onde os produtos eram comercializados com as embarcações das cidades de Gênova e Veneza, na costa sul do mar Mediterrâneo. Dali, as mercadorias eram levadas para a Europa, que fica ao norte, na outra costa do Mediterrâneo. 

Imagem de satélite da Península Arábica, com o Mar Vermelho e o litoral do nordeste africano à esquerda


A principal rota comercial do século 6 passava pela Arábia, cruzava o Mar Vermelho e chegava à África, do outro lado do Rio Nilo, no norte do Egito


Apesar de ter o clima predominantemente desértico, a Arábia enriqueceu em função das rotas comerciais que passavam pelo lugar. Os árabes que viviam na região eram organizados em formas de tribos distintas uma das outras. Todas as tribos da Península Arábica acreditavam que a natureza, as árvores, as pedras e os djinns (gênios ou espíritos das fontes) eram forças sagradas que podiam também atormentar os seres humanos, trazendo-lhes desgraças.

Embora tais pensamentos religiosos fossem comuns entre todos os habitantes da Arábia, cada tribo possuía seus próprios deuses, e algum animal como ancestral específico. As divergências religiosas entre os grupos que viviam na Arábia motivavam constantes lutas entre as tribos do norte e do sul.

Em função das intensas atividades comerciais, algumas cidades da Arábia cresceram muito rápido, e seus comerciantes acumularam expressivas fortunas. A cidade de Meca era um desses pólos comerciais de riqueza. Foi em Meca que, por volta do ano 570, nasceu Maomé (Muhammd), no clã dos Beni Hasshemi, uma pobre ramificação da tribo dos Coraishitas, que dominava a região da Arábia onde fica Meca.

A primeira infância de Maomé foi muito difícil. Seu pai, Abdallah, morreu quando o menino ainda estava sendo gerado pela mãe, Amina, que também morreu quando Maomé tinha 6 anos apenas. O menino foi adotado pelo tio, Abu Talib, irmão de seu pai, que logo o integrou nas atividades comerciais da família. Viajando em caravanas que iam à Palestina, ao Iraque e à Síria, Maomé conheceu muitos povos diferentes dos que viviam na região de Meca, e teve estreito contato com diversos tipos de manifestação religiosa. Nessa época, era praticada em Meca a adoração de vários deuses (politeísmo), embora já existisse a influência de religiões monoteístas na região (o Judaísmo e o Cistianismo presente no vizinho Império Bizantino).

A diversidade cultural propiciada pela passagem de caravanas comerciais fazia surgirem vários novos templos que eram construídos para todos os tipos de divindades. Mesmo assim, já havia a crença em um Deus supremo, idealizador e criador do mundo, que se assemelhava ao Júpiter romano e ao Zeus grego. Para este Deus, foi construído um santuário em forma de cubo (Caaba), que era um importante centro de peregrinação já naqueles tempos. Uma vez por ano, os fiéis visitavam a Caaba e era realizada uma imensa feira comercial na ocasião.

Maomé, quando tinha 25 anos, se casou com uma viúva rica 15 anos mais velha do que ele, Cadija. Das 4 filhas que tiveram, só uma, Fátima, gerou descendentes de Maomé ao se casar com Ali, filho de Abu Talib, um rico líder da tribo dos Coraishitas.


A vida de Maomé era igual a de qualquer árabe daquele tempo. Conhecido como um homem fiel à esposa, honrado, sóbrio, reflexivo e chamado de Al Alim (o confiável), Maomé tinha a particularidade de gostar de passar horas meditando isolado em cavernas e grutas das montanhas perto de Meca.


Aos 40 anos de idade, no ano 610, Maomé estava meditando em uma gruta do monte Hira. O livro sagrado do Islamismo, o Alcorão, relata que Maomé ouviu a voz do anjo Gabriel lhe dizer: "Só há um Deus que é Alá, e Maomé é o seu profeta". Essa noite ficaria conhecida como a "Noite do Destino" ou "Noite da Revelação".


Maomé desconfiou dos seus sentidos, e ficou apavorado nos primeiros momentos. Foi sua esposa, Cadija, quem o encorajou a seguir em frente. Maomé recebeu muitas outras revelações na seqüência, e sempre que a palavra de Alá se manifestava, era uma experiência dolorosa para ele, como um arrebatamento; seu corpo tremia e suava. Quando acontecia uma revelação, Maomé memorizava o novo trecho e o recitava para quem estivesse ao seu lado. O Alcorão levou 21 anos para ser completamente revelado.

Não há nada escrito em árabe que possa ser comparado aos textos do Alcorão. Alguns trechos são repletos de repetição das mesmas sílabas no mesmo verso ou em versos seguidos, com um lindo jogo de palavras muito poético e complexo, impossível de ser traduzido com o mesmo sentido e a beleza rítmica quase musical do texto original em árabe.
 O profeta Maomé em uma pintura turca da Idade Média. Os muçulmanos árabes não costumam representar figuras humanas, principalmente a de Maomé. Os turcos, porém, mesmo sendo muçulmanos, não adotavam tal restrição
 Alcorão: o livro sagrado do Islamismo, cuja essência da mensagem é a pluralidade, a tolerância e a compaixão. Islamismo significa "submissão voluntária aos desígnios de Deus", bem ao contrário da concepção ocidental de que os muçulmanos querem obrigar os outros a seguirem sua fé

 Em nome de Deus, o clemente, o bondoso, o misericordioso 


Maomé era insultado e zombado quando pregava em Meca, pois a maioria das pessoas não aceitava abandonar suas crenças em vários deuses para adorar um Deus único. Muitas pessoas que conheciam Maomé desde a infância não acreditavam que um homem comum pudesse ser um escolhido de Deus como profeta.

O profeta Maomé, porém, conseguiu converter inicialmente dezenas de pessoas das camadas mais pobres de Meca, e alguns poucos membros da nobreza da cidade. Já a grande maioria dos homens mais ricos e poderosos de Meca, responsáveis também pelos cultos pagãos predominantes na região, não viam com bons olhos uma organização independente que unia e fortalecia as classes mais pobres da cidade.

Mesmo com toda essa oposição, Maomé não podia ser perseguido diretamente por dois motivos: era integrante da tribo dos Coraishitas e protegido pelo sogro de sua filha, Abu Talib. Além disso, o casamento com Cadija o tornara rico também. A repressão das autoridades de Meca acabou caindo sobre os pobres seguidores de Maomé.
Diante da perseguição sobre seu povo, Maomé decidiu sair com seus cerca de 70 seguidores de Meca por algum tempo, e foi para a Etiópia, onde ficou por dois anos, 615 e 616. Já de volta a Meca, em 619, Maomé perde as duas pessoas mais importantes de sua vida; morrem Cadija e Abu Talib, que também eram seus protetores.

As hostilidades e a repressão contra Maomé e seu povo se intensificam. O Profeta sofre uma tentativa de assassinato e, em 16 de julho de 622, resolve se afastar definitivamente da cidade de Meca com seus seguidores. Vai para a cidade de Iatrib (atual Medina), que é um rico oasis localizado a 400 quilômetros de Meca. A ida de Maomé e seu povo para Medina é conhecida como Hégira (exílio), e representa o início do calendário islâmico, que marca a origem de uma nova era na história mundial.

Medina era formada por uma sociedade pagã e por Árabes seguidores do judaísmo. Em poucos meses, Maomé consegue converter a grande maioria dos pagãos, e os árabes seguidores da religião dos judeus. Muitos foram convertidos à força. Os clãs que tentaram resistir foram eliminados militarmente.

A cidade de Medina passou a ser organizada de acordo com as doutrinas do Islamismo, tornando-se assim a primeira "república Islâmica". Aliás, até hoje, a associação entre Estado e religião é uma das principais características administrativas da maioria dos países islâmicos.

 
Em Medina, Maomé proclamou a ‘Jihad’ contra Meca. O termo ‘Jihad Islãmica’ é traduzido como "Guerra Santa" por nós ocidentais, mas ao pé da letra na língua árabe, representa um esforço para levar a mensagem de Deus aos infiéis. Em determinadas ocasiões esporádicas, esse esforço pode chegar a ter o vulto de uma guerra militarmente falando.

Os muçulmanos liderados por Maomé em Medina entraram em choque militar com Meca em várias ocasiões. Medina foi cercada, resistiu, e venceu importantes e decisivas batalhas. A tomada de Meca era importantíssima para Maomé, pois Deus revelou ao profeta que o templo em forma de cubo (a Caaba) localizado na cidade, tinha sido construído por ordem sua, dada ao profeta Abraão e seu filho Ismael.

Abraão originou o povo árabe a partir de um filho que teve com sua criada egípcia, Hagar. O menino se chamava Ismael. Posteriormente, a esposa de Abraão, Sara, gerou também um filho do profeta, que recebeu o nome de Isaque, e deu origem ao povo judeu.

É curioso notar que o Deus do velho testamento do Judaísmo, o Deus do Cristianismo e Alá são o mesmo Deus. A grande diferença é que, no Islamismo, os muçulmanos acreditam que Adão, Noé, Davi, Abraão, Moisés, Jesus, Ismael, Maomé, e todos os 124 mil mensageiros que o Alcorão afirma que Deus mandou para a Terra, foram apenas profetas, iluminados por Deus sim, mas simplesmente profetas mortais comuns. Deus mesmo, na concepção de divindade do termo, para o entendimento islâmico, só Alá.

Maomé e seus seguidores de Medina precisavam dominar Meca para tirar da Caaba as imagens dos ídolos pagãos e, conservando em seu interior somente a Pedra Negra, torná-lo um templo exclusivo de Alá, devolvendo à construção cúbica seu significado sagrado original, de acordo com as concepções da fé islâmica.

Maomé converteu um grande número de tribos árabes nos arredores de Medina, e acumulou forças para um grande ataque à Meca. Em 630, foi organizada uma poderosa expedição militar que seguiu, liderada por Maomé, em direção a Meca. Com o poder dessa investida militar, Maomé impôs à rendição dos chefes Coraishitas que o expulsaram da cidade 8 anos antes.

Num gesto extremo de humildade e diplomacia, Maomé concedeu perdão e anistia imediata aos seus antigos inimigos. Com isso, conquistou a simpatia e a adesão de milhares de novos seguidores para o Islamismo. Em 632, dez anos depois de sua fuga de Meca (a Hégira), Maomé voltou à cidade liderando uma multidão de 80 mil muçulmanos numa histórica peregrinação.

Na ocasião da chegada, Maomé retirou da Caaba todas as imagens de Deuses e ídolos pagãos, deixando apenas a Pedra Negra, ficando o templo agora reservado para a adoração exclusiva de Alá. No mesmo dia, Maomé recebeu a última revelação: "Hoje, completei minha graça em voz e me satisfaz que o Islã seja vossa religião".
 Localizada na mesquita central de Meca, na Arábia Saudita, a Caaba é uma construção cúbica com 15, 24 metros de altura e é cercada por muros de mais de 10 e 12 metros. Considerada o local mais sagrado do mundo pelos muçulmanos, a Caaba abriga a Pedra Negra (hajar el aswad) que possui 50 centímetros de diâmetro e é o resto de um meteorito que, segundo os muçulmanos, caiu do céu como um presente de Alá para Adão, seu primeiro mensageiro. Desde 624, todo muçulmano em qualquer ponto do mundo deve fazer suas orações voltado para a Caaba, em Meca.


  
Todo muçulmano deve visitar a Caaba em peregrinação realizada ao menos uma vez na vida, de preferência durante o Ramadã, que é o nono mês do calendário muçulmano. A visita obrigatória durante o Ramadã é chamada de Hajj, e será realizada desde que o muçulmano possua condições financeiras e saúde para fazê-la


 Cerca de 2 milhões de pessoas de todos os pontos da Terra realizam a Hajj todo ano. Quando o muçulmano está a uma certa distância de Meca, deve entrar no estado de Ihram (estado sagrado). Veste duas peças de tecido branco e sandálias (tudo não cozido). Durante o estado de Ihram, o peregrino não corta o cabelo e nem as unhas, não usa perfume, não mata animais, não se envolve em discussões ou lutas, não tem relações sexuais e não se 
 casa



 Muitos classificam o Islamismo como machista. Mas é fato que até antes do surgimento da religião no século 7, na Arábia, as mulheres eram tratadas como animais. O Alcorão trouxe algumas igualdades de direitos e deu às mulheres a possibilidade de pedir divórcio e receber heranças, além do direito de trabalhar e a obrigação de estudar. Esses mesmos direitos só foram conquistados pelas mulheres ocidentais a partir do século 19




 "A visão ocidental sobre o Islamismo divide-se entre o medo e a curiosidade."   Karen Armstrong, historiadora inglesa



Em seu último discurso em Meca, Maomé disse: "Sabei que todo muçulmano é irmão do outro", e completou recomendando que as guerras entre os muçulmanos fossem evitadas. Com a destruição dos vários ídolos existentes na Caaba, e a institucionalização da adoração de Alá como Deus único, Maomé acabou com as divergências religiosas que ocasionavam rivalidades e guerras entre as diversas tribos árabes da Península Arábica. O Islamismo possibilitou em suas origens, o surgimento de uma nação árabe não fragmentada e unida por uma identidade comum. Maomé morreu pouco tempo depois, em 8 de junho de 632, depois de voltar para Medina.



Mesquita onde está o túmulo de Maomé, em Medina


Com a morte do Profeta, alguns árabes queriam que o genro de Maomé, Ali, bem mais novo, assumisse seu lugar na liderança islâmica. Seus simpatizantes deram origem aos xiitas, da expressão "xiat Ali" (os partidários de Ali). Já os que defendiam como novo líder um dos companheiros mais velhos de Maomé, Abu Bakr, originaram os sunitas (de sunat, tradição), já que defendiam que o mais velho, por ser mais sábio, deveria ser escolhido para suceder Maomé.

Abu Bakr foi o escolhido e, embora os árabes estivessem unidos em torno do Islamismo, as diferenças entre o conservadorismo dos sunitas e as inovações propostas pelos xiitas permanecem até os dias de hoje. Os sunitas são mais ortodoxos, e seguem ao pé da letra tudo o que está escrito no Alcorão. Já os xiitas são mais abertos, dentro de um certo limite, à mudanças e adaptações.

Boneca muçulmana Sara: inovação lançada no Irã, de maioria xiita, para concorrer com a americana Bárbie. Fabricados na China, Sara e seu irmão Dara são vendidos por cerca de 15 dólares no Irã, menos da metade do preço da ocidental Bárbie naquele país


 Guerrilheiro terrorista sunita do grupo palestino Setembro Negro, durante a invasão da vila olímpica nos jogos olímpicos de Munique, na Alemanha, em 1972. Na ocasião, 11 atletas de Israel foram assassinados. Os sunitas são responsáveis pela maioria dos atentados terroristas islâmicos já realizados no mundo, por serem conservadores e adeptos do fundamentalismo. O termo fundamentalismo foi empregado primeiro por evangélicos norte-americanos, que pregavam uma volta aos fundamentos do cristianismo, propondo uma literal interpretação e aplicação prática dos textos bíblicos. Das 3 religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), a terceira foi a última a desenvolver o fundamentalismo, quando a cultura ocidental moderna começou a influenciar o mundo muçulmano, a partir da segunda metade do século 20.



Independente da religião, os fundamentalistas têm em comum um verdadeiro pânico relacionado à sociedade moderna. Eles acreditam que estão travando uma luta contra a imoralidade da cultura moderna que os tenta dominar. Esse desespero faz os terroristas islâmicos usarem o termo ‘Jihad’ para definirem sua causa. A mídia ocidental traduz o termo como "Guerra Santa", o que acaba causando uma generalização deturpada no sentido real e original do Islamismo.


Apesar de certas diferenças ideológicas entre sunitas e xiitas, o Império Árabe, unido pelo Islamismo, cresceu e dominou desde províncias da China até o norte da África, onde hoje ficam o Marrocos e a Argélia. A partir dali, no século 8 (701-800), os árabes chegaram à Península Ibérica (Portugal e Espanha) depois de cruzarem os 14 quilômetros e meio do Estreito de Gibraltar, que separa o sul da Espanha do norte do Marrocos.


Imponente mesquita do Cazaquistão. Na edição do dia 29 de março de 2008, sábado, o jornal do vaticano, "L 'Osservatore Romano" publicou que 17,4% da população mundial é católica, contra 19,2% muçulmana. Porém, se somados todos os cristãos do mundo (católicos, ortodoxos, protestantes e anglicanos) a porcentagem chega a 33% da população mundial. No Brasil, são quase 2 milhões de muçulmanos e cerca de 90 mesquitas


 A dança das espadas na Arábia Saudita. Tradição folclórica remanescente da atividade expansionista do Império Árabe, realizada por meio de guerras e invasões


Os seguidores de Maomé dominaram quase toda a Península, e só não exerceram influência sobre as regiões montanhosas da Cantábria e das Astúrias, no extremo norte da Península Ibérica, onde um pequenino reino católico de resistência se estabeleceu.

Nas Astúrias, uma caverna abrigava o rei e servia como templo de Cristo. Os cristãos desciam das montanhas de repente para atacarem os acampamentos árabes nas planícies. Esses ataques deram origem à Guerra da Reconquista, e foram empurrando os árabes de volta para o sul até a expulsão total, no século 15.


Expansão do Império Árabe que, a partir da Arábia, em marrom, se estendeu desde províncias chinesas no oriente, ocupou a região abóbora, ao norte da península Arábica, e chegou a todo o norte da África, cruzando o estreito de Gibraltar e dominando quase que inteiramente a Península Ibérica (Portugal e Espanha), na Europa, à esquerda


Foram quase 700 anos de ocupação árabe, período em que muçulmanos e cristãos conviveram juntos, mas não se misturaram, principalmente por causa da diferença religiosa. O Romanço (que foi a base da língua portuguesa atual) permaneceu falado pelos cristãos, embora os árabes tenham influenciado na formação do português com muitas palavras: alambique, álcool, alfaiate, azul, armazém, fatia, garrafa e xarope são algumas delas.

Outro sinal marcante da cultura árabe presente na Península pode ser observado nos tradicionais panos que as portuguesas usam sobre a cabeça durante suas danças folclóricas lusitanas. A viola e o pandeiro trazidos pelos portugueses e tão "abrasileirados" por aqui posteriormente, também têm origem na presença da marcante cultura árabe na Península Ibérica durante 7 séculos.


É lógico que se os árabes não tivessem sido expulsos de Portugal no século 15, e a História transcorresse naturalmente, com a chegada de Cabral por aqui em 1500, hoje, ao invés de a maioria de nossa população ir à missa ou ao culto evangélico no domingo pela manhã e ao fim da tarde, a maioria dos brasileiros oraria 5 vezes por dia com os joelhos no chão e a cabeça voltada para a direção de Meca, onde está o templo Caaba. Também teríamos que, além de ler o Alcorão, peregrinar pelo menos uma vez na vida até Meca.

Somos hoje, em nossa língua, em nossa prática religiosa e em todas as nossas manifestações culturais, nada mais do que o resultado de um produto cultural originário de guerras, imposições, dominações, reconquistas e colonizações. Torna-se impossível dizer que este ou aquele, esta ou aquela cultura tem razão absoluta e prevalece sobre as outras. Cada povo vê a verdade, e a verdade inclui plenamente Deus, de acordo com a "lente" de sua visão cultural própria, que é naturalmente imposta às crianças a partir do momento em que, no Brasil por exemplo, aprendem a falar água, mãe e pai.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

AS ORIGENS DA LÍNGUA PORTUGUESA




Por Cássio Ribeiro

A língua falada é uma das principais ferramentas da expressão cultural de um povo. Nossa língua portuguesa possui uma origem bastante curiosa e, para conhecê-la, é necessário compreender um pouco da história da formação de Portugal.

O Império Romano chegou a dominar quase todo o mundo conhecido no século 3; era dito que desde onde o Sol nascia a onde ele se punha pertencia a Roma. Todas as terras em volta do mar Mediterrâneo eram controladas pelos soldados romanos ou centuriões, como eram chamados aqueles guerreiros.

A Península Ibérica, onde hoje está Portugal e Espanha, era ocupada originalmente pelos povos iberos, que falavam uma variedade de dialetos locais. Com a ocupação romana, muita gente das camadas sociais mais simples de Roma migrou para a Península Ibérica. Eram operários, comerciantes e soldados, que falavam o latim mais vulgar, diferente daquele falado pela aristocracia e pelos literatos romanos.

Toda cultura mais forte impõe naturalmente certo grau de influência sobre as expressões culturais de um povo menos poderoso em foa bélica e dominado, como aconteceu entre brancos e índios, e ainda acontece entre o Brasil e os EUA, pelo menos no campo da dominação econômica e da dependência científica e tecnológica. Sendo assim, o latim vulgar foi amplamente imposto e difundido por toda Península Ibérica, e é a base principal da formação do português falado hoje. A palavra vírgula, por exemplo, é uma união do termo latino "VIRG", que quer dizer vara e, seguido do sufixo "ULA", equivalente ao nosso diminutivo inha, forma a expressão "VARINHA" ao pé da letra. Eis um lote das conhecidas varinhas: ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,.

Outra palavra da língua portuguesa com origem curiosa no latim vulgar é pílula. Formada pela união entre o termo "PIL", que representa bola, e o diminutivo "ULA", a palavra nomeou nossas "BOLINHAS" tão ingeridas no dia-a-dia como vitaminas, remédios e anticoncepcionais.

Em 300 anos após a invao romana, a Península Ibérica quase inteira falava uma derivação local do latim vulgar, chamada de Romao. A única exceção ocorreu numa região montanhosa ao norte da Espanha, chamada de Vascongada, perto da divisa com o sul da Fraa. Ali, até hoje vive o povo original ibérico chamado de basco. Os bascos conseguiram manter sua cultura geral e sua língua preservadas da o forte influência romana, tendo inclusive influenciado de forma significativa o vocabulário da língua portuguesa com algumas palavras: cama, esquerdo, bizarro e modorra o palavras cuja origem deriva do dialeto basco.

Ainda hoje, em pleno século 21, os bascos usam seu braço armado, o grupo separatista basco ETA, com atividades de ação terrorista em muitos casos, para reivindicarem sua separação da Espanha
A Península Ibérica na parte inferior do mapa, formada pela Espanha, em verde, e Portugal, em Branco, tem ao norte o pequeno território basco em destaque, que se estende até regiões do extremo sul da Fraa, em vermelho

 Embora o latim falado pelo povo tenha sido a principal base de formação do idioma português, nossa língua recebeu, em sua formação, a influência lingüística de outras etnias além dos romanos.

No século 5, os bárbaros germânicos ou escandinavos invadiram a Península vindos do norte. Os germânicos originaram o que hoje é o povo alemão e seus vizinhos no norte da Europa. Suas atividades principais naquela época eram a guerra e a pilhagem dos bens de outros povos.

O germânicos ocuparam toda a Península Ibérica por quase 300 anos e, embora as raízes das influências romanas tenham prevalecido, o vocabulário dos bárbaros contribuiu com muitas palavras que falamos em português hoje: guerra, brandir, gastar, esgrimir, luva, banir, bradar, escaramuça, franco, galope, roubar e trepar são alguns exemplos que mostram, quase sempre por meio da presença rascante do "r" ou "rr", a expressão da natureza violenta e selvagem das raízes germânicas no vocabulário daquele povo dominado cuja expressão falada originou o nosso português.

No século 8, os árabes chegaram à Península Ibérica depois de cruzarem os 14 quilômetros e meio do Estreito de Gibraltar, que separa o sul da Espanha do norte do Marrocos. A ocupação árabe teve início em 711, com a vitória na Batalha de Guadalete.

A Península Ibérica foi quase toda dominada, e os árabes só não exerceram influência sobre as regiões montanhosas da Cantábria e das Astúrias, no extremo norte da Península, onde um pequeno reino católico de resistência se estabeleceu.

Nas Astúrias, uma caverna abrigava o rei e servia como templo de Cristo. Os cristãos desciam as montanhas de repente para atacarem os acampamentos árabes nas planícies. Esses ataques deram origem à Guerra da Reconquista, e foram empurrando os árabes de volta para o sul, a a expulsão total no século 15, em 1492.



Caverna que abrigou os cristãos nas Astúrias, localizada em Covadonga, ao noroeste da Espanha. Os cristãos levaram com eles uma imagem da Virgem Maria na ocasião em que se refugiaram na caverna. A vantagem numérica dos árabes não lhes adiantava muito, pois era difícil penetrar na estreita entrada da gruta ...



 Durante a batalha, diz a lenda que houve um terremoto e parte da montanha desabou, soterrando um terço dos árabes em combate. O triunfo em Covadonga, no ano de 718, foi a primeira vitória do cristianismo ibérico sobre os árabes invasores, e marcou o início da formação da Espanha. No local da entrada da caverna, há atualmente um santuário dedicado à Virgem das Batalhas. 




Foram quase 7 séculos de ocupação árabe, período em que muçulmanos e cristãos conviveram juntos, mas não se misturaram, principalmente por causa da diferença religiosa. O Romao permaneceu falado pelos cristãos, embora os árabes tenham influenciado na formação da língua portuguesa com muitas palavras: alambique, álcool, alfaiate, azul, armazém, fatia, garrafa e xarope são algumas delas.

Outro sinal marcante da cultura árabe presente na Península pode ser observado nos tradicionais panos que as portuguesas usam sobre a cabeça durante suas daas folclóricas lusitanas. A viola e o pandeiro trazidos pelos portugueses e tão abrasileirados por aqui posteriormente, também têm origem na presença da cultura árabe na Península Ibérica.
 


Além da influência na formação da língua portuguesa, os traços da cultura árabe podem ser notados na vestimenta e ...
 na dança do folclore português



Outra marcante influência árabe na Península Ibérica pode ser observada na arquitetura, como neste prédio à direita da foto, localizado em Toledo, na Espanha e ...


 nesta ponde em Alcântara, também na Espanha




O francês Henrique de Borgonha atuou de forma intensa e significativa na Reconquista, liderando a expulsão dos árabes do Reino da Galiza, que tinha o norte de Portugal em suas terras. Por isso, o rei de Leão e Castela, Afonso VI, presenteou o infante francês com a mão de sua filha Catarina de Aragão e as terras do Condado de Portucale, que deu origem ao território atual de Portugal.

Falado por grupos étnicos com tradições e costumes tão diferentes dentro da Península, o Romanço sofreu variações e adaptações distintas em muitas regiões, dando origem ao galego-português, onde hoje é Portugal, e ao castelhano em toda Espanha, com exceção do nordeste daquele país, onde se fala o catalão, que é bem parecido com o castelhano, mas definido como uma expressão lingüística à parte.


A expansão marítima portuguesa em busca de novos pólos para comércio teve início no século 15, e difundiu a língua falada em Portugal por países de todo o mundo, como Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissal e até Macau, na China.

No Brasil, a língua portuguesa ainda recebeu a influência dos dialetos falados pelos escravos africanos, de onde derivam palavras como moleque e quitanda, entre outras.O tupi-guarani, falado pelos índios que aqui viviam, foi outro dialeto que contribuiu com palavras para o vocabulário português brasileiro: mandioca, mingau, guri e abacaxi são alguns exemplos.

O português falado no Brasil recebeu algumas influências não observadas em Portugal, o que ocasionou algumas diferenças em formas de expressão da língua falada nos dois países. Uma delas está no uso do nosso gerúndio (saindo, andando e subindo), que não é aplicado em Portugal, onde é dito estou a sair, estou a andar e estou a subir. Nós brasileiros costumamos dizer que vamos entrar no fim da fila; já os lusitanos caminham até o rabo da bicha, onde entram.

Nossa identidade, nossos costumes, nosso folclore, nossa culinária, nossa religião, nossos valores e nossa cultura em geral só existem graças a nossa rica língua portuguesa, que é o principal agente unificador, promotor e propagador de tudo o que é nosso, ou seja, nossas mais variadas expressões do dia a dia através dos tempos.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O MARACANAÇO DE 1950


Por Cássio Ribeiro


Faltam dois anos para realizarmos a Copa do Mundo de 2014. A abertura será realizada no estádio Itaquerão, em São Paulo. Já a grande final será jogada no Maracanã, no RJ. Quando o pontapé inicial da 20ª Copa do Mundo for dado no estádio paulista, em 12 de junho de 2014, terão se passado 64 anos desde que o Brasil sediou a outra copa de sua história, e que, sem dúvida, entrou definitivamente para a memória dos mundiais de futebol de forma bastante curiosa e trágica para nós.

Duzentas mil pessoas lotavam o Maracanã na tarde do dia 16 de julho de 1950, a fim de verem a Seleção Brasileira pelo menos empatar com o modesto time do Uruguai na ocasião para ser campeã. Se fosse levado em conta o retrospecto das duas seleções durante aquela Copa, o Brasil até já poderia ser aclamado como campeão do mundo bem antes do jogo; e foi ai que morou o perigo.

A Copa de 1950 teve a participação de 13 seleções. Na primeira fase, o Brasil venceu o México por 4 x 0, empatou com a Suíça em 2 x 2 e derrotou a Iugoslávia por 2 x 0. Na segunda fase, foi realizada uma disputa entre os primeiros colocados de cada um dos 4 grupos daquela Copa: Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai (A Espanha eliminou a toda poderosa Inglaterra, a Suécia desbancou o Itália e o Uruguai só precisou vencer a fraquíssima seleção da Bolívia por 8 x 0 em Recife, para garantir presença no quadrangular final da segunda fase).

O Brasil foi arrasador na segunda fase da Copa de 1950. Venceu a Espanha por 6 x 1 e a Suécia por 7 x 1; já o Uruguai, conseguiu um empate com a Espanha e uma sofrida vitória por 3 x 2 diante da Suécia, na mesma fase. Sendo assim, Brasil e Uruguai acabaram se enfrentando na partida decisiva do Mundial de 50. Com a embalada Seleção Brasileira precisando apenas de um empate para sagrar-se campeã do mundo, um intenso clima de vitória antecipada tomou conta da imprensa e do povo.
Na manhã do dia da final da Copa de 1950, as primeiras páginas dos jornais estampavam manchetes como: “Brasil campeão” e “Ninguém tira a Copa do Brasil”. A Comissão técnica da seleção uruguaia colou as primeiras páginas na parede do local onde os jogadores uruguaios se reuniam para o desjejum. Nas ruas do Rio de Janeiro, um carnaval se espalhava por todos os lados com gritos contagiantes de “É campeão”!!!!!

A multidão seguiu em festa para lotar o estádio Jornalista Mário Filho (O Maracanã). Eram mais de duzentas mil pessoas que representavam 10% da população carioca naquela época. Jamais outra partida de futebol reuniu tanta gente de uma só vez, em todos os tempos.

Pouco antes do início do jogo, o técnico uruguaio Juan Lopes mandou a equipe jogar de forma defensiva e recuada. Quando o técnico saiu, o jogador e capitão do time, Obdulio Varela, falou para a equipe: "Juancito é um bom homem, mas hoje, ele está errado. Se nós jogarmos defensivamente contra o Brasil, nosso destino não será diferente de Espanha e Suécia." Varela então fez um emocionado discurso sobre como eles precisavam encarar todas as dificuldades e não ser intimidados pela torcida brasileira. O discurso, como depois foi confirmado, teve uma enorme importância no final que teria a partida. Algo que ele disse foi "Muchachos, los de afuera son de palo. Que comience la funcion", que poderia ser traduzido como "Rapazes, quem está do lado de fora não joga. Que comece o jogo".

A partida começou e os uruguaios conseguiram resistir à avalanche de ataques brasileiros durante todo o primeiro tempo, que terminou sem gols. Se o empate já dava a Copa do Mundo de 1950 ao Brasil, aos 2 minutos do segundo tempo, um gol do brasileiro Friaça colocou a Seleção Brasileira muito mais perto de seu primeiro título mundial, e inflamou a imensa torcida.
Novamente, o capitão uruguaio Varela teve importante participação motivadora sobre sua equipe, ao questionar a validade do gol com o juiz, alegando que o jogador brasileiro estava impedido. Após a confirmação do árbitro sobre a validade do gol, Varela pegou a bola, correu para o centro do campo e gritou para os uruguaios: “Agora é a hora de vencer”!!
O Brasil tinha um ataque avassalador, mas as deficiências de sua defesa começaram a aparecer aos 21 minutos do segundo tempo, quando o uruguaio Juan Alberto Schiaffino empatou o jogo. A multidão ficou em silêncio por uns instantes mas logo voltou a se inflamar, pois o Brasil ainda seria campeão com o placar de 1 x 1.
Eram quase 17h daquela tarde do dia 16 de julho de 1950. Ainda faltavam 11 minutos para o fim da partida, e o uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia fôra lançado e corria “esticando” a bola pelo lado direito do campo. O goleiro brasileiro Barbosa estava adiantado e o atacante Ghiggia deu um chute seco, rasteiro, e certeiro bem rente à trave direita, no canto esquerdo de Barbosa.



Segundo gol uruguaio, que pôs fim ao sonho brasileiro da conquista da Copa de 1950





o "carrasco" uruguaio Ghiggia

O goleiro mergulhou para trás e ainda tocou a bola antes de cair. Acreditava ter desviado o chute até o momento em que ficou novamente de pé. Percebeu um silêncio que incomodava e a bola no fundo da rede. Final de jogo; 2 x 1 para a Seleção Uruguaia, a Celeste, em alusão ao tom azul claro de seu uniforme.


O presidente da FIFA naquela ocasião, o francês Jules Rimet, falou depois sobre o momento da premiação: “Eu seguia pelo túnel, em direção ao campo. Na saída do túnel, um silêncio desolador havia tomado o lugar de todo aquele júbilo. Não havia guarda de honra, nem hino nacional, nem entrega solene. Achei-me sozinho, no meio da multidão, empurrado para todos os lados, com a Copa debaixo do braço". Rimet precisou chamar o capitão uruguaio Varela para entregar-lhe a taça da Copa.



Na tentativa de justificar a surpreendente e inesperada derrota, muito foi dito pela imprensa especializada posteriormente. Primeiro, o fato de a seleção ter mudado o local da concentração do Joá para o estádio do Vasco da Gama, em São Jenuário. Outros culparam o técnico Flávio Costa por ter obrigado os jogadores brasileiros, na manhã do dia da final, a assistirem uma missa de 2 horas em pé. Porém, O mais criticado e responsabilizado pela derrota foi o goleiro Barbosa.



Varela, Schiaffino e Ghiggia comemoram o título






O goleiro Barbosa
O goleiro contou posteriormente que ao voltar para casa, depois do jogo, encontrou a mesa, que tinha sido preparada pela vizinhança ao ar livre, completamente abandonada. A cena da comida e da bebida do banquete rodeadas por cachorros marcou Barbosa.

Apesar dos anos, Barbosa, hoje falecido, nunca foi perdoado. Em 1993, durante as eliminatórias para a Copa dos Estados Unidos (1994), Barbosa foi visitar a concentração do time de Parreira a fim de dar apoio e ânimo aos jogadores, mas foi proibido de entrar na concentração. Na ocasião, Barbosa comentou: “No Brasil, a pena maior por um crime é de 30 anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi”. O ex-goleiro terminou seus dias morando de favor e recebendo uma modesta aposentadoria.

MATÉRIA DO BLOG É CITADA NO TRABALHO "A LOCUÇÃO FEMININA NO RÁDIO CARIOCA".

 
 
 
Matéria do blog da Rádio Web Matrix é citada no trabalho "A LOCUÇÃO FEMININA NO RÁDIO CARIOCA" - das radialistas Fátima Regina Oliveira Cerqueira e Dirce Maria Drummond Xavier, ambas da Escola de Comunicação – ECO - Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ - Orientador: Fernando Mansur.

http://alocucaofemininanoradiocarioca.blogspot.com.br/2011/08/as-bem-ditas-ondas-de-uma-certa-maldita.html