segunda-feira, 2 de julho de 2012

AS ORIGENS DA LÍNGUA PORTUGUESA




Por Cássio Ribeiro

A língua falada é uma das principais ferramentas da expressão cultural de um povo. Nossa língua portuguesa possui uma origem bastante curiosa e, para conhecê-la, é necessário compreender um pouco da história da formação de Portugal.

O Império Romano chegou a dominar quase todo o mundo conhecido no século 3; era dito que desde onde o Sol nascia a onde ele se punha pertencia a Roma. Todas as terras em volta do mar Mediterrâneo eram controladas pelos soldados romanos ou centuriões, como eram chamados aqueles guerreiros.

A Península Ibérica, onde hoje está Portugal e Espanha, era ocupada originalmente pelos povos iberos, que falavam uma variedade de dialetos locais. Com a ocupação romana, muita gente das camadas sociais mais simples de Roma migrou para a Península Ibérica. Eram operários, comerciantes e soldados, que falavam o latim mais vulgar, diferente daquele falado pela aristocracia e pelos literatos romanos.

Toda cultura mais forte impõe naturalmente certo grau de influência sobre as expressões culturais de um povo menos poderoso em foa bélica e dominado, como aconteceu entre brancos e índios, e ainda acontece entre o Brasil e os EUA, pelo menos no campo da dominação econômica e da dependência científica e tecnológica. Sendo assim, o latim vulgar foi amplamente imposto e difundido por toda Península Ibérica, e é a base principal da formação do português falado hoje. A palavra vírgula, por exemplo, é uma união do termo latino "VIRG", que quer dizer vara e, seguido do sufixo "ULA", equivalente ao nosso diminutivo inha, forma a expressão "VARINHA" ao pé da letra. Eis um lote das conhecidas varinhas: ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,.

Outra palavra da língua portuguesa com origem curiosa no latim vulgar é pílula. Formada pela união entre o termo "PIL", que representa bola, e o diminutivo "ULA", a palavra nomeou nossas "BOLINHAS" tão ingeridas no dia-a-dia como vitaminas, remédios e anticoncepcionais.

Em 300 anos após a invao romana, a Península Ibérica quase inteira falava uma derivação local do latim vulgar, chamada de Romao. A única exceção ocorreu numa região montanhosa ao norte da Espanha, chamada de Vascongada, perto da divisa com o sul da Fraa. Ali, até hoje vive o povo original ibérico chamado de basco. Os bascos conseguiram manter sua cultura geral e sua língua preservadas da o forte influência romana, tendo inclusive influenciado de forma significativa o vocabulário da língua portuguesa com algumas palavras: cama, esquerdo, bizarro e modorra o palavras cuja origem deriva do dialeto basco.

Ainda hoje, em pleno século 21, os bascos usam seu braço armado, o grupo separatista basco ETA, com atividades de ação terrorista em muitos casos, para reivindicarem sua separação da Espanha
A Península Ibérica na parte inferior do mapa, formada pela Espanha, em verde, e Portugal, em Branco, tem ao norte o pequeno território basco em destaque, que se estende até regiões do extremo sul da Fraa, em vermelho

 Embora o latim falado pelo povo tenha sido a principal base de formação do idioma português, nossa língua recebeu, em sua formação, a influência lingüística de outras etnias além dos romanos.

No século 5, os bárbaros germânicos ou escandinavos invadiram a Península vindos do norte. Os germânicos originaram o que hoje é o povo alemão e seus vizinhos no norte da Europa. Suas atividades principais naquela época eram a guerra e a pilhagem dos bens de outros povos.

O germânicos ocuparam toda a Península Ibérica por quase 300 anos e, embora as raízes das influências romanas tenham prevalecido, o vocabulário dos bárbaros contribuiu com muitas palavras que falamos em português hoje: guerra, brandir, gastar, esgrimir, luva, banir, bradar, escaramuça, franco, galope, roubar e trepar são alguns exemplos que mostram, quase sempre por meio da presença rascante do "r" ou "rr", a expressão da natureza violenta e selvagem das raízes germânicas no vocabulário daquele povo dominado cuja expressão falada originou o nosso português.

No século 8, os árabes chegaram à Península Ibérica depois de cruzarem os 14 quilômetros e meio do Estreito de Gibraltar, que separa o sul da Espanha do norte do Marrocos. A ocupação árabe teve início em 711, com a vitória na Batalha de Guadalete.

A Península Ibérica foi quase toda dominada, e os árabes só não exerceram influência sobre as regiões montanhosas da Cantábria e das Astúrias, no extremo norte da Península, onde um pequeno reino católico de resistência se estabeleceu.

Nas Astúrias, uma caverna abrigava o rei e servia como templo de Cristo. Os cristãos desciam as montanhas de repente para atacarem os acampamentos árabes nas planícies. Esses ataques deram origem à Guerra da Reconquista, e foram empurrando os árabes de volta para o sul, a a expulsão total no século 15, em 1492.



Caverna que abrigou os cristãos nas Astúrias, localizada em Covadonga, ao noroeste da Espanha. Os cristãos levaram com eles uma imagem da Virgem Maria na ocasião em que se refugiaram na caverna. A vantagem numérica dos árabes não lhes adiantava muito, pois era difícil penetrar na estreita entrada da gruta ...



 Durante a batalha, diz a lenda que houve um terremoto e parte da montanha desabou, soterrando um terço dos árabes em combate. O triunfo em Covadonga, no ano de 718, foi a primeira vitória do cristianismo ibérico sobre os árabes invasores, e marcou o início da formação da Espanha. No local da entrada da caverna, há atualmente um santuário dedicado à Virgem das Batalhas. 




Foram quase 7 séculos de ocupação árabe, período em que muçulmanos e cristãos conviveram juntos, mas não se misturaram, principalmente por causa da diferença religiosa. O Romao permaneceu falado pelos cristãos, embora os árabes tenham influenciado na formação da língua portuguesa com muitas palavras: alambique, álcool, alfaiate, azul, armazém, fatia, garrafa e xarope são algumas delas.

Outro sinal marcante da cultura árabe presente na Península pode ser observado nos tradicionais panos que as portuguesas usam sobre a cabeça durante suas daas folclóricas lusitanas. A viola e o pandeiro trazidos pelos portugueses e tão abrasileirados por aqui posteriormente, também têm origem na presença da cultura árabe na Península Ibérica.
 


Além da influência na formação da língua portuguesa, os traços da cultura árabe podem ser notados na vestimenta e ...
 na dança do folclore português



Outra marcante influência árabe na Península Ibérica pode ser observada na arquitetura, como neste prédio à direita da foto, localizado em Toledo, na Espanha e ...


 nesta ponde em Alcântara, também na Espanha




O francês Henrique de Borgonha atuou de forma intensa e significativa na Reconquista, liderando a expulsão dos árabes do Reino da Galiza, que tinha o norte de Portugal em suas terras. Por isso, o rei de Leão e Castela, Afonso VI, presenteou o infante francês com a mão de sua filha Catarina de Aragão e as terras do Condado de Portucale, que deu origem ao território atual de Portugal.

Falado por grupos étnicos com tradições e costumes tão diferentes dentro da Península, o Romanço sofreu variações e adaptações distintas em muitas regiões, dando origem ao galego-português, onde hoje é Portugal, e ao castelhano em toda Espanha, com exceção do nordeste daquele país, onde se fala o catalão, que é bem parecido com o castelhano, mas definido como uma expressão lingüística à parte.


A expansão marítima portuguesa em busca de novos pólos para comércio teve início no século 15, e difundiu a língua falada em Portugal por países de todo o mundo, como Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissal e até Macau, na China.

No Brasil, a língua portuguesa ainda recebeu a influência dos dialetos falados pelos escravos africanos, de onde derivam palavras como moleque e quitanda, entre outras.O tupi-guarani, falado pelos índios que aqui viviam, foi outro dialeto que contribuiu com palavras para o vocabulário português brasileiro: mandioca, mingau, guri e abacaxi são alguns exemplos.

O português falado no Brasil recebeu algumas influências não observadas em Portugal, o que ocasionou algumas diferenças em formas de expressão da língua falada nos dois países. Uma delas está no uso do nosso gerúndio (saindo, andando e subindo), que não é aplicado em Portugal, onde é dito estou a sair, estou a andar e estou a subir. Nós brasileiros costumamos dizer que vamos entrar no fim da fila; já os lusitanos caminham até o rabo da bicha, onde entram.

Nossa identidade, nossos costumes, nosso folclore, nossa culinária, nossa religião, nossos valores e nossa cultura em geral só existem graças a nossa rica língua portuguesa, que é o principal agente unificador, promotor e propagador de tudo o que é nosso, ou seja, nossas mais variadas expressões do dia a dia através dos tempos.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O MARACANAÇO DE 1950


Por Cássio Ribeiro


Faltam dois anos para realizarmos a Copa do Mundo de 2014. A abertura será realizada no estádio Itaquerão, em São Paulo. Já a grande final será jogada no Maracanã, no RJ. Quando o pontapé inicial da 20ª Copa do Mundo for dado no estádio paulista, em 12 de junho de 2014, terão se passado 64 anos desde que o Brasil sediou a outra copa de sua história, e que, sem dúvida, entrou definitivamente para a memória dos mundiais de futebol de forma bastante curiosa e trágica para nós.

Duzentas mil pessoas lotavam o Maracanã na tarde do dia 16 de julho de 1950, a fim de verem a Seleção Brasileira pelo menos empatar com o modesto time do Uruguai na ocasião para ser campeã. Se fosse levado em conta o retrospecto das duas seleções durante aquela Copa, o Brasil até já poderia ser aclamado como campeão do mundo bem antes do jogo; e foi ai que morou o perigo.

A Copa de 1950 teve a participação de 13 seleções. Na primeira fase, o Brasil venceu o México por 4 x 0, empatou com a Suíça em 2 x 2 e derrotou a Iugoslávia por 2 x 0. Na segunda fase, foi realizada uma disputa entre os primeiros colocados de cada um dos 4 grupos daquela Copa: Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai (A Espanha eliminou a toda poderosa Inglaterra, a Suécia desbancou o Itália e o Uruguai só precisou vencer a fraquíssima seleção da Bolívia por 8 x 0 em Recife, para garantir presença no quadrangular final da segunda fase).

O Brasil foi arrasador na segunda fase da Copa de 1950. Venceu a Espanha por 6 x 1 e a Suécia por 7 x 1; já o Uruguai, conseguiu um empate com a Espanha e uma sofrida vitória por 3 x 2 diante da Suécia, na mesma fase. Sendo assim, Brasil e Uruguai acabaram se enfrentando na partida decisiva do Mundial de 50. Com a embalada Seleção Brasileira precisando apenas de um empate para sagrar-se campeã do mundo, um intenso clima de vitória antecipada tomou conta da imprensa e do povo.
Na manhã do dia da final da Copa de 1950, as primeiras páginas dos jornais estampavam manchetes como: “Brasil campeão” e “Ninguém tira a Copa do Brasil”. A Comissão técnica da seleção uruguaia colou as primeiras páginas na parede do local onde os jogadores uruguaios se reuniam para o desjejum. Nas ruas do Rio de Janeiro, um carnaval se espalhava por todos os lados com gritos contagiantes de “É campeão”!!!!!

A multidão seguiu em festa para lotar o estádio Jornalista Mário Filho (O Maracanã). Eram mais de duzentas mil pessoas que representavam 10% da população carioca naquela época. Jamais outra partida de futebol reuniu tanta gente de uma só vez, em todos os tempos.

Pouco antes do início do jogo, o técnico uruguaio Juan Lopes mandou a equipe jogar de forma defensiva e recuada. Quando o técnico saiu, o jogador e capitão do time, Obdulio Varela, falou para a equipe: "Juancito é um bom homem, mas hoje, ele está errado. Se nós jogarmos defensivamente contra o Brasil, nosso destino não será diferente de Espanha e Suécia." Varela então fez um emocionado discurso sobre como eles precisavam encarar todas as dificuldades e não ser intimidados pela torcida brasileira. O discurso, como depois foi confirmado, teve uma enorme importância no final que teria a partida. Algo que ele disse foi "Muchachos, los de afuera son de palo. Que comience la funcion", que poderia ser traduzido como "Rapazes, quem está do lado de fora não joga. Que comece o jogo".

A partida começou e os uruguaios conseguiram resistir à avalanche de ataques brasileiros durante todo o primeiro tempo, que terminou sem gols. Se o empate já dava a Copa do Mundo de 1950 ao Brasil, aos 2 minutos do segundo tempo, um gol do brasileiro Friaça colocou a Seleção Brasileira muito mais perto de seu primeiro título mundial, e inflamou a imensa torcida.
Novamente, o capitão uruguaio Varela teve importante participação motivadora sobre sua equipe, ao questionar a validade do gol com o juiz, alegando que o jogador brasileiro estava impedido. Após a confirmação do árbitro sobre a validade do gol, Varela pegou a bola, correu para o centro do campo e gritou para os uruguaios: “Agora é a hora de vencer”!!
O Brasil tinha um ataque avassalador, mas as deficiências de sua defesa começaram a aparecer aos 21 minutos do segundo tempo, quando o uruguaio Juan Alberto Schiaffino empatou o jogo. A multidão ficou em silêncio por uns instantes mas logo voltou a se inflamar, pois o Brasil ainda seria campeão com o placar de 1 x 1.
Eram quase 17h daquela tarde do dia 16 de julho de 1950. Ainda faltavam 11 minutos para o fim da partida, e o uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia fôra lançado e corria “esticando” a bola pelo lado direito do campo. O goleiro brasileiro Barbosa estava adiantado e o atacante Ghiggia deu um chute seco, rasteiro, e certeiro bem rente à trave direita, no canto esquerdo de Barbosa.



Segundo gol uruguaio, que pôs fim ao sonho brasileiro da conquista da Copa de 1950





o "carrasco" uruguaio Ghiggia

O goleiro mergulhou para trás e ainda tocou a bola antes de cair. Acreditava ter desviado o chute até o momento em que ficou novamente de pé. Percebeu um silêncio que incomodava e a bola no fundo da rede. Final de jogo; 2 x 1 para a Seleção Uruguaia, a Celeste, em alusão ao tom azul claro de seu uniforme.


O presidente da FIFA naquela ocasião, o francês Jules Rimet, falou depois sobre o momento da premiação: “Eu seguia pelo túnel, em direção ao campo. Na saída do túnel, um silêncio desolador havia tomado o lugar de todo aquele júbilo. Não havia guarda de honra, nem hino nacional, nem entrega solene. Achei-me sozinho, no meio da multidão, empurrado para todos os lados, com a Copa debaixo do braço". Rimet precisou chamar o capitão uruguaio Varela para entregar-lhe a taça da Copa.



Na tentativa de justificar a surpreendente e inesperada derrota, muito foi dito pela imprensa especializada posteriormente. Primeiro, o fato de a seleção ter mudado o local da concentração do Joá para o estádio do Vasco da Gama, em São Jenuário. Outros culparam o técnico Flávio Costa por ter obrigado os jogadores brasileiros, na manhã do dia da final, a assistirem uma missa de 2 horas em pé. Porém, O mais criticado e responsabilizado pela derrota foi o goleiro Barbosa.



Varela, Schiaffino e Ghiggia comemoram o título






O goleiro Barbosa
O goleiro contou posteriormente que ao voltar para casa, depois do jogo, encontrou a mesa, que tinha sido preparada pela vizinhança ao ar livre, completamente abandonada. A cena da comida e da bebida do banquete rodeadas por cachorros marcou Barbosa.

Apesar dos anos, Barbosa, hoje falecido, nunca foi perdoado. Em 1993, durante as eliminatórias para a Copa dos Estados Unidos (1994), Barbosa foi visitar a concentração do time de Parreira a fim de dar apoio e ânimo aos jogadores, mas foi proibido de entrar na concentração. Na ocasião, Barbosa comentou: “No Brasil, a pena maior por um crime é de 30 anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi”. O ex-goleiro terminou seus dias morando de favor e recebendo uma modesta aposentadoria.

MATÉRIA DO BLOG É CITADA NO TRABALHO "A LOCUÇÃO FEMININA NO RÁDIO CARIOCA".

 
 
 
Matéria do blog da Rádio Web Matrix é citada no trabalho "A LOCUÇÃO FEMININA NO RÁDIO CARIOCA" - das radialistas Fátima Regina Oliveira Cerqueira e Dirce Maria Drummond Xavier, ambas da Escola de Comunicação – ECO - Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ - Orientador: Fernando Mansur.

http://alocucaofemininanoradiocarioca.blogspot.com.br/2011/08/as-bem-ditas-ondas-de-uma-certa-maldita.html

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

GATO PELO CURTO BRASILEIRO: UM FELINO GENUINAMENTE NACIONAL



Por Cássio Ribeiro

 

Viralatas, ladrão, arruaceiro e barulhento quando acasala durante as madrugadas sobre os telhados das casas formadoras das cidades em todas as regiões do Brasil. Muita gente classifica assim os felinos tão comuns em nossas ruas, praças, jardins e muros, mas o que pouca gente sabe, é que esse tal bichano tão comum no cotidiano Brasileiro é reconhecido internacionalmente pela World Cat Federation, desde 1998, como o Pêlo Curto Brasileiro (Brazilian Shorthair), a primeira raça de gatos tipicamente nacional.


O Pêlo Curto Brasileiro, que já tem até um selo do Correio lançado em sua homenagem, é descendente dos exemplares da subespécie Felis Silvestris Iberica, trazida pelos portugueses a partir do início da colonização. Porém, no Brasil, a espécie desenvolveu um padrão específico e não é mais enquadrada na mesma classificação dos primeiros felinos trazidos da Europa.



Pêlo Curto Brasileiro, ...



uma raça genuinamente nacional


A mobilização para reconhecer nossos gatos como formadores de uma raça específica teve início em 1985, quando o criador Paulo Ruschi, então presidente da Federação Brasileira do Gato, sediada no Rio de Janeiro, organizou equipes de 3 e 4 criadores, para que fossem observadas e relacionadas as características comuns de nossos felinos, a fim de que pudessem ser estabelecidos os padrões que originariam a reivindicação de que o Pêlo Curto Brasileiro pudesse ser reconhecido internacionalmente como uma nova raça.

As pesquisas foram realizadas no Rio de Janeiro, no Ceará e no Rio Grande do Sul. Os criadores andaram pelas ruas e cadastraram 40 gatos, que tiveram estudados a forma do corpo, o nariz, a cabeça, as patas, os olhos, a cauda, o focinho e a pelugem. Apesar da distância entre as regiões onde os bichanos foram observados, muitos aspectos comuns entre as características dos felinos foram constatados. A partir dessas caraterísticas comuns, foram estabelecidos os padrões da nova raça batizada com o nome de Pêlo Curto Brasileiro.


Para que uma nova raça seja aceita como tal, é necessário que características físicas comuns tenham sido transmitidas pelos ancestrais à atual geração, e continuem a ser passadas aos descendestes desta.








Foi observado que as características comuns responsáveis pela classificação de um gato como sendo Pêlo Curto Brasileiro são: peito largo, pernas de tamanho médio e patas arredondadas, cabeça de tamanho médio ou pequeno, mais comprida do que arredondada.

O pêlo é bem deitado junto ao corpo, sedoso, com cores vivas e brilhantes; apresentam cores creme, dourada, castanho clara, cinza, amarelo, preto e mesclado bicolor. Não há subpêlo. O corpo é longo e elegante, sem aspecto excessivamente musculoso.

As orelhas são médias ou grandes, arredondadas nas pontas; sua altura é sempre maior que a largura da base, e são posicionadas acima da cabeça levemente para o lado. A cauda é média ou longa, não é grossa na base e vai afinando até a ponta, que possui característica arredondada.

Os olhos são bem abertos e redondos, com sutil obliqüidade e geralmente combinando com a cor dos pêlos. Alguns gatos brancos da raça podem apresentar um olho de cada cor.








Depois que essas características físicas foram estabelecidas como o padrão da raça, os criadores brasileiros solicitaram à Word Cat Federation (WCF), com sede na Alemanha e representada em 17 países, o reconhecimento internacional do Pêlo Curto Brasileiro como uma nova raça genuinamente nacional. O reconhecimento da WCF não ocorreu num primeiro momento, porém, a Federação Brasileira do Gato (FBG) começou a emitir o Registro Inicial (RI), que é uma espécie de pedigree concedido a novas raças. Gatos de rua que se enquadrassem no padrão estabelecido recebiam o RI da FBG.





Apesar dos esforços iniciais para o reconhecimento de uma nova raça genuinamente brasileira, o número de criadores profissionais era bem pequeno, já que o gato brasileiro, encontrado tão facilmente nas ruas, não tinha expressivo valor comercial.

Em 1997, o criador Paulo Ruschi foi convidado para dar uma palestra para juizes e dirigentes da World Cat Federation, na Alemanha. O estudo foi apresentado e, um ano depois, em 1998, nosso gato "verde e amarelo" foi reconhecido como a raça Pêlo Curto Brasileiro pela WCF, que recomendou que as particularidades físicas da nova raça fossem aceitas como o padrão oficial do gato brasileiro.











A raça Pêlo Curto Brasileiro obedece a um padrão internacional rígido. Sendo assim, nem todo gato encontrado no Brasil é um Pêlo Curto Brasileiro puro. A criadora Sylvia Roris, dona do Gatil Syarte, foi a primeira a exportar exemplares da raça. Ela afirma que o Pêlo Curto é muito dócil com estranhos: "Só o dono pode mudar esse comportamento. Uma pessoa agressiva tem grandes chances de ter um gato da mesma forma", diz Sylvia, e completa contando que eles chegam perto das visitas, pulam no colo, se enlaçam nas pernas e trocam afagos e carinhos.

Sylvia também recomenda que os criadores dêem, além da ração comum, uma porção de ração úmida pelo menos uma vez ao dia, pois como o gato é um animal originário do deserto, às vezes não bebe água e o alimento úmido acaba ajudando na hidratação, sendo excelente para manter a saúde dos bichanos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

OS MISTÉRIOS DA PEDRA DA GÁVEA




Por Cássio Ribeiro


As 13 caravelas com mais de mil homens comandados pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral estavam bem próximas da costa brasileira. Depois de mais de 40 dias navegando pelo Atlântico, os lusitanos avistaram o Monte Pascoal, próximo a Porto Seguro, na Bahia, em 22 de abril de 1500.


Os portugueses então seguiram para o norte e atracaram na baía Cabrália, dois dias depois, em 24 de abril. A primeira missa em território brasileiro foi rezada na manhã do dia 26 de abril, um domingo, pelo frei Henrique de Coimbra. Depois da missa, os portugueses seguiram viagem para as índias.


O início da História do Brasil começa oficialmente no breve relato acima. Pouco é sabido sobre o Brasil antes da chegada de Cabral, mas é certo que a seqüência histórica a partir do Descobrimento revelou alguns enigmas, ainda não muito bem esclarecidos, sobre a suposta estada de povos navegadores da antigüidade na costa Brasileira, muito antes dos portugueses.


Os lusitanos retornaram ao Brasil em 1501, para um reconhecimento mais detalhado da costa das terras recém-descobertas. Navegaram em três grandes caravelas pelo litoral brasileiro entre 10 de maio de 1501 e 7 de setembro de 1502, dando nome aos acidentes geográficos que mais se destacavam na vista que tinham da costa.


Em 1 de janeiro de 1502, os portugueses chegaram ao local que achavam ser a foz de um grande rio, e deram-no o nome de Rio de Janeiro. Porém, na vista do relevo daquele lugar, uma elevação se erguia a partir da beira do mar e se destacava com seu topo de granito, a 842 metros de altitude, ao lembrar o formato das gáveas das caravelas, que eram plataformas nos topos dos mastros, de onde os navegadores buscavam avistar ilhas ou continentes no horizonte. A curiosa formação rochosa acabou batizada com o nome de Pedra da Gávea pelos portugueses.




A singular forma da Pedra da Gávea lembra, mesmo que desgastada pela ação erosiva do tempo, um rosto enrugado, com longas barbas, e que pertence ao corpo de um leão montado no topo do morro. Essa suposta forma de uma antiga esfinge deixou o rei português Dom João 6º ainda mais curioso, quando um grupo de investigadores relatou a existência de estranhos sinais medindo 15 metros de altura por 4 metros de largura, entalhados na rocha do lado direito da 'têmpora' da imensa figura 'humana'.

Em 1839, uma expedição liderada pelo historiador Manoel Araújo Porto Alegre confirmou a localização dos estranhos sinais. A surpresa geral veio a público quase um século depois, em 1928, quando o arqueólogo amazonense Bernardo da Silva Ramos (1858–1931) publicou o livro 'Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica, Especialmente do Brasil', onde afirma que os sinais são inscrições fenícias, cuja tradução para o português revela: "Tyro, Fenícia, Badezir, primogênito de Jethbaal". Em 856 Antes de Cristo, Badezir sucedeu o pai no trono da cidade de Tiro, capital da Fenícia, e reinou até 850 AC, quando desapareceu misteriosamente.



Inscrições existentes na "têmpora" direita da suposta "esfinge", e a tradução para o hebraico e o português




Bernardo Ramos revela ainda no livro, que várias palavras indígenas brasileiras possuem origem no antigo idioma fenício. Em vários lugares do Brasil, além da Pedra da Gávea, foram encontradas supostas inscrições fenícias gravadas em rochas.
Em Pouso Alto, na Paraíba, um conjunto dessas misteriosas inscrições teve a curiosa tradução:


'Somos filhos de Caná, de saída, a cidade do rei. O comércio nos trouxe a esta distante praia, uma terra de montanhas. Sacrificamos um jovem aos deuses e deusas exaltados no ano de 19 de Hiram, nosso poderoso rei. Embarcamos em Ezion Geber, no mar Vermelho, e viajamos com 10 navios. Permanecemos no mar juntos por 2 anos, em volta da terra pertencente a Ham (África), mas fomos separados por uma tempestade, nos afastamos de nossos companheiros e, assim, aportamos aqui: 12 homens e 3 mulheres. Numa nova praia que eu, o almirante, controlo. Mas auspiciosamente passam os exaltados deuses e deusas intercederem em nosso favor'.

Outro achado curioso aconteceu nas margens do lago Pensiva, no Maranhão, onde foram encontrados estaleiros de madeira petrificada, com espessos pregos de bronze. O pesquisador maranhense Raimundo Lopes encontrou utensílios tipicamente fenícios no lugar, na década de 1920. Na ilha de Marajó, foram encontrados tipos de portos tipicamente fenícios, parecidos com muralhas de pedras, iguais aos encontrados na costa do território da antiga Fenícia.

Os fenícios formavam um povo da antigüidade que não possuía exército poderoso e nem se dedicava à literatura, porém, ficaram famosos por serem os melhores navegadores de sua época. Viviam em uma faixa de terra de 200 quilômetros, entre o mar Mediterrâneo e as montanhas do oeste do Líbano, onde havia fartura de madeira de cedro própria para a construção de embarcações.



Ilustração de uma embarcação fenícia


Os fenícios foram influenciados pelas bases da cultura egípcia. No início, os fenícios adoravam rochedos, árvores e pedras negras ovais; depois, passaram a adorar os astros e as forças da natureza, chamados de baals; o Sol era o grande baal. O culto a esses deuses era realizado em templos erguidos em lugares elevados ou perto de nascentes de rios. Na iminência de um grande perigo, ou quando se construía uma cidade ou um templo fenício novo, os fenícios sacrificavam crianças, que eram lançadas vivas aos braços incandescentes da estátua de bronze do Baal, aquecida por uma fornalha.



Navio fenício


Tiro foi a cidade mais importante do império comercial fenício e era chamada de 'A Rainha dos Mares'. Com o propósito de enriquecer sem limites, os fenícios foram grandes negociantes marítimos e piratas ao mesmo tempo. Quando estavam em menor número ao desembarcarem em um lugar, apresentavam suas mercadorias e ficavam satisfeitos com o lucro de suas vendas; mas, se eram numerosos e mais fortes que os habitantes da região onde chegavam, incendiavam e saqueavam os povoados, além de raptarem mulheres e crianças que eram vendidas posteriormente em Tiro, Mênfis e Babilônia.




Como exímios navegadores de seu tempo, os fenícios fundaram importantes cidades como Lisboa, atual capital de Portugal, que era uma colônia fenícia e foi fundada há mais de 3 mil anos, sendo a 2ª cidade mais antiga da Europa, mais antiga do que Roma inclusive, só perdendo para Atenas. A palavra Lisboa é de origem fenícia e queria dizer "bom porto"


Os fenícios também defendiam seu controle absoluto sobre os mares que exploravam, exterminando, sem piedade, seus concorrentes. O apego dos fenícios pelo monopólio do lucro de seu comércio chegava a níveis inimagináveis. Conta-se a história de um navio fenício que ia buscar estanho na Sicília e, ao perceberem que eram seguidos por uma embarcação estrangeira, os fenícios preferiram afundar seu navio a mostrarem o caminho do estanho aos inimigos.




Moeda fenícia


Para afastarem os possíveis concorrentes de seus territórios, os fenícios contavam lendas fantásticas sobre as terras que exploravam; diziam que a Sicília era habitada por gigantes que se alimentavam de carne humana; e que a África era cheia de monstros horrendos.




Utensílios fenícios

Teria esse curioso povo da antigüidade estado no Rio de Janeiro e esculpido uma esfinge na Pedra da Gávea para realizar ali sacrifícios religiosos e sepultar seu rei Badezir muito antes do século 1 da era cristã? Para muitos pesquisadores modernos, a resposta é não.




Pedra da Gávea com a Barra da Tijuca à direita ...





e vista a partir do mesmo bairro carioca


O geólogo Marco André Malmann Medeiros, da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) afirma que as supostas inscrições são falhas geológicas na pedra, resultantes do desgaste dos minérios mais sensíveis ao longo do tempo. Já o antropólogo cultural e professor Francisco Otávio da Silva Bezerra, um dos fundadores do Centro Brasileiro de Arqueologia, afirmou que não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil.




No outro extremo das explicações relativas aos mistérios sobre a Pedra da Gávea, os membros da Sociedade Brasileira de Eubiose definem o local como um ícone da presença fenícia no Brasil. Outra expressão dos mistérios da Pedra da Gávea é um suposto 'portal' de quinze metros de altura, marcado por uma reentrância próxima ao topo da Pedra, do lado voltado para a Barra da Tijuca. Para muitos místicos, trata-se de um portal que dá acesso à outra dimensão, ou à entrada para Agharta, que seria um império subterrâneo com milhares de habitantes. A revista 'O Cruzeiro', que marcou época na história do jornalismo brasileiro, publicou, em 1952, uma foto em que aparece um suposto disco voador ao lado da Pedra da Gávea.




Entre o ceticismo e a crença de que os mistérios da Pedra da Gávea são marcos físicos e históricos que comprovam teorias sobre a presença fenícia nas américas, olhar para a forma tão particular da Pedra, a partir do oceano ou das areias da orla carioca, deixa a dúvida que, talvez, jamais seja esclarecida pelo simples fato de suas verdades plenas estarem perdidas em algum lugar muito além das primeiras páginas dos livros de História do Brasil, que definem o começo como sendo a chegada das 13 caravelas de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, em 22 de abril de 1500.