sábado, 23 de julho de 2011

A VINDA DA FAMÍLIA REAL PORTUGUESA PARA O BRASIL




Por Cássio Ribeiro


No início do século 19, Napoleão Bonaparte dominava quase todos os países da Europa. O imperador francês conseguiu estabelecer seu controle econômico e político na Europa, graças ao poder militar significativo da França naqueles tempos.



Bonaparte só não conseguiu vencer a poderosa marinha da Inglaterra, que era a principal inimiga e concorrente comercial da França. Nas Ilhas Britânicas, os franceses não conseguiram entrar. Napoleão então decretou o Bloqueio Continental, que proibia o comércio de todo o continente europeu com a Inglaterra, a fim de enfraquecê-la.



No meio dessa literal briga de cachorros grandes, estava Portugal, que era um grande aliado da Inglaterra. Os ingleses eram os principais fornecedores de produtos manufaturados consumidos em Portugal, e grandes compradores de produtos portugueses e brasileiros.

O rei de Portugal, Dom João 6º, estava sem saída, pois se não aderisse ao Bloqueio Continental, teria que enfrentar o poderoso Napoleão, com o modesto e fraco exército português daqueles tempos.









O rei Dom João 6º: uma cômica figura para uns; um sábio estrategista para outros



Depois de adiar muito a decisão, Dom João 6º foi aconselhado pelo embaixador inglês em Lisboa, Visconde de Strangford, a mudar-se com toda a corte para a colônia brasileira. A idéia foi bem aceita pelo rei português, pois impediria o fim de sua Dinastia de Bragança em Portugal. As tropas de Napoleão, já em território espanhol, avançavam rápido em direção a Portugal.




Em 29 de novembro de 1807, Dom João 6º e toda a corte portuguesa, num total de aproximadamente 15 mil pessoas, partiam para o Brasil escoltados por 4 navios de guerra ingleses. Foram 54 dias no mar, até que em 22 de janeiro de 1808, o rei de Portugal chegou a Salvador, na Bahia. Após a manutenção das embarcações e a reposição de mantimentos, a família real portuguesa embarcou novamente em direção ao Rio de Janeiro, onde chegou em 7 de março de 1808. Começava ai uma nova era na história do Brasil.




Depois de despejarem os moradores das melhores casas da cidade do Rio de Janeiro e ocupá-las, os nobres portugueses passaram a influenciar na forma de vida e nos costumes da cidade. Talheres, navalhas para fazer a barba, facas e muitos produtos ingleses chagavam sos montes. A primeira medida do rei Dom João 6º no Brasil foi abrir os portos ao comércio com as nações amigas, o que acabou beneficiando quase que exclusivamente a economia da Inglaterra de forma significativa.




Os ingleses chegaram até a enviar alguns produtos inúteis ao Brasil, como patins para gelo e carteira para notas (só eram usadas moedas por aqui).




A administração real em território brasileiro possibilitou, além da não derrota formal para a França, a manutenção da unidade colonial e do comércio com a Inglaterra. Alguns historiadores afirmam que se a corte portuguesa não tivesse mudado para o Brasil, nosso país hoje estaria dividido em 5 ou 6 nações distintas, a exemplo do que aconteceu com os territórios da América Espanhola.




Já outra corrente dos historiadores prefere classificar a estada da família real portuguesa no Brasil como uma ação parasita, já que havia a exploração das províncias para a manutenção dos mesmos privilégios reais de que a nobreza portuguesa gozava na Europa.




Para esses historiadores, é necessário e essencial buscar um entendimento do tipo de modelo republicano e constitucional que esse período administrativo da corte no Brasil originou em nosso país, até que chegamos aos dias atuais com a realidade dos escândalos políticos e administrativos do nosso sistema republicano capitalista .




O rei Dom João 6º voltou para Portugal em 1821, mas deixou seu filho Dom Pedro I como príncipe regente do Brasil. Os portugueses exigiam a volta do príncipe, a fim de que o Brasil voltasse à condição de simples colônia portuguesa, como era antes da vinda da corte.




Antes de partir, Dom João 6º recomendou ao filho que liderasse um movimento separatista que tomasse conta do Brasil, para que a Família Real de Bragança não perdesse o novo reino. Em 7 de setembro de 1822, a Independência do Brasil era declarada por Dom Pedro I.




Embora a Família Real de Bragança permaneça no Brasil até hoje, representada na figura do bisneto da princesa Isabel e herdeiro do trono Brasileiro, Dom Luiz de Orleans e Bragança, se o sistema de governo monárquico tivesse permanecido no Brasil e a República não tivesse sido proclamada em 1889, a monarquia naturalmente não teria resistido aos períodos posteriores, que foram marcados por dificuldades econômicas e sociais.








Brasão da Família Real de Bragança...





e o bisneto da princesa Isabel, Dom Luiz de Orleans e Bragança, herdeiro do trono brasileiro




A monarquia teria caído durante uma daquelas agitações e revoltas que tomaram conta do Brasil nas primeiras décadas do século 20, e culminaram com a tomada do poder por Getúlio Vargas na Revolução de 1930; mas essa já é uma outra história.




Em 1993, foi realizado um plebiscito para que o povo brasileiro pudesse decidir entre 3 sistemas de governo: presidencialismo, parlamentarismo ou monarquia. Os monarquistas somaram 13% dos votos válidos e a maioria dos brasileiros optou pela manutenção do presidencialismo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

ALDIR BLANC: EQUILIBRADO ENTRE A PSIQUIATRIA E A POESIA




Por Cássio Ribeiro


"Caía, a tarde feito um viaduto, e um bêbado trajando luto, me lembrou Carlitos"..."Meu Brasil, que sonha, com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete"..."A esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista, tem que continuar".





Embora o ex-psquiatra, cronista, letrista e poeta Aldir Blanc tenha mais de 600 músicas gravadas, quase todo brasileiro já ouviu a canção 'O Bêbado e a Equilibrista', gravada em 1979, na inconfundível interpretação de nossa saudosa Elis Regina.




Na canção, a letra lírica de Blanc se casa com o tom que lembra um clamor triste na voz de Elis. A música transformou-se num símbolo de reivindicação pela abertura política durante o Regime Militar brasileiro. O trecho da letra que fala sobre a volta do irmão do Henfil refere-se ao já falecido sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, fora do Brasil como exilado político na época.





O autor Aldir Blanc nasceu em 1946 e foi criado no bairro carioca do Estácio. Fez sua primeira composição aos 16 anos. Ingressou na faculdade de medicina em 1966 e especializou-se em psiquiatria. Abandonou a medicina em 1973 para dedicar-se exclusivamente à música. Outras canções famosas, nascidas da parceria com João Bosco, são: 'Bala com Bala', 'De Frente pro Crime', 'Caça à Raposa' e 'Mestre Sala dos Mares'.



Como escritor, Aldir Blanc publicou o livro 'Brasil Passado a Sujo', em 1993. No livro, Blanc se revela contista, poeta e cronista, ao abordar com um misto de aspereza e ternura, alguns personagens dos conturbados cenários carioca e nacional.




TIRADAS DE BLANC



"É no boteco da esquina que arquitetamos nossos projetos mais sublimes, nossos sonhos mais elevados - os mesmos que desmoronam assim que enfiamos a chave na fechadura do que convencionamos chamar residência." Jornal do Brasil, 05/05/2005




"Apesar de seu poder devastador, a morte morre de inveja dos frágeis seres humanos: enquanto os desvalidos acharem graça na desgraça, sua vitória não será completa." Jornal do Brasil, 07/07/2005




"Neto cura ressaca, depressão, unha encravada, vontade de misturar soda cáustica com Campari. Até pegar piolho de neto vira uma festa cheia de desdobramentos imprevisíveis. E o vô, já entrando aos tropeços na terceirona, ri, ri, ri etc." Jornal do Brasil, 23/06/2005





A tecnologia de ponta já deveria ter inventado um detector de corrupção. Era só passar uma tabuinha com nota de dólares na ponta: os olhos do cara se esbugalhariam e as mãos, ainda que algemadas, procurariam as verdinhas." Jornal do Brasil, 09/06/2005




Fechada dentro de um taxi, numa transversal do tempo, acho que o amor é uma ausência de engarrafamento." Transversal do tempo, gravada por Elis Regina



"O pior cego é o que, além de não querer ver o próprio rabo, tenta enfiar o dedo no olho dos outros." Jornal do Brasil, 21/08/1998



"Vocês sabem porque eu ainda não morri? Porque eu leio, porque o dia seguinte trará um novo livro." Jornal do Brasil, 24/06/2005

domingo, 17 de julho de 2011

A ÁGUA: SEUS ASPECTOS FÍSICOS MUNDIAIS E HUMANOS





Cachoeira Véu de Noiva, no Parque Nacional do Itatiaia / RJ



Por Cássio Ribeiro (Esta postagem é dedicada ao meu querido irmão Fábio Cox).




Um jardim frondoso que cresce, uma mina que brota no meio de uma praça florida, o fluxo que jorra pelas comportas de uma hidrelétrica e movimenta seu imenso gerador de energia num rápido giro, a chuva que cai do céu, o sangue, a lágrima, o suor, o gelo, o vapor que movimentou as locomotivas e as máquinas que impulsionaram a Revolução Industrial da Inglaterra no século 19; tudo isso diz respeito ao principal mantenedor da vida sobre a Terra, a água.




Dois simples átomos de hidrogênio que se ligam a um solitário átomo de oxigênio para formar a molécula do elemento da natureza responsável por 70% da composição do corpo humano. São 43 litros de água em média que cada ser humano adulto carrega em sua individualidade física durante toda a vida.




Não é ao acaso que a existência da lenda sobre a fonte da juventude, que rejuvenesce que bebe das suas águas, povoe o imaginário popular em todo o mundo. É dito na lenda, que os árabes teriam encontrado tal fonte e que, posteriormente, ela fôra roubada por inimigos bárbaros, desaparecendo no fundo do mar após um naufrágio.




De certa forma, a água é mesmo uma natural e milagrosa fonte da juventude, pois está entre 50% e 90% da composição de todo organismo vivo. Trata-se do único alimento verdadeiramente com zero caloria que existe, e que fornece nutrientes não encontrados em nenhuma outra substância ingerida durante a alimentação humana. Cada ser humano adulto deve beber entre 2 e 3 litros de água todos os dias, sendo ideal que o consumo seja feito em doses de 200 ml.



Para que todo o corpo humano funcione em equilíbrio, é necessário que a água seja consumida diariamente de forma regular, independente de haver sede ou não. Também é necessário um vital equilíbrio entre a quantidade de água que eliminamos do corpo (suor, urina, lágrimas etc) e a água que ingerimos. O desequilíbrio pode ser observado na coloração da urina que, quanto mais escura for, indicará o grau de deficiência na ingestão de água. Um corpo que é mantido com a quantidade ideal diária de água costuma expelir urina quase incolor.



É curioso notar que a proporção de água que compõe o corpo humano tenha o mesmo valor dos 70% de água que compõe a superfície do planeta Terra. 97% da água da Terra é salgada e os 3% doces que restantes são mal distribuídos pelo mundo. Só o Brasil possui 11,6% da água doce mundial. Países como África do Sul, Egito, Israel, Paquistão, Haiti, Índia, Turquia e Iraque já sofrem com escassez de água. Uma parte da água consumida no Japão é importada da Coréia do Sul.




Nos países em desenvolvimento, cerca de 60% da água distribuída para a população se perde em gotas e vazamentos. No Brasil, 70% da água doce existente está na Amazônia, que é habitada por apenas 7% da população do país. O desequilíbrio da distribuição fica claro quando se observa que o nordeste brasileiro, mesmo cortado pelo rio São Francisco, tem só 3% de toda a água doce brasileira.




A manutenção das nascentes de água limpa e fresca depende diretamente da preservação das matas presentes nas encostas das montanhas. As águas das chuvas caem e são absorvidas pelo terreno onde estão as matas, se infiltram no solo e literalmente se filtram, entrando muitas vezes em contato com rochas e minerais nas camadas subterrâneas, sendo assim enriquecidas com diversos elementos que contribuem para o perfeito funcionamento do organismo humano.




Formam-se então os lençóis freáticos, que não são piscinas subterrâneas, e sim encharcamentos do solo que lembra as esponjas de pia saturadas de água. Essas águas acabam aflorando límpidas em superfícies de rochas e em pontos localizados em pequenos vales do terreno, geralmente no alto do relevo. Surge então um pequeno olho d'água que escorre, junta-se a outro filete e depois a outro mais abaixo, formando assim um pequeno riacho, que se une a uma rede de outros córregos para formar o curso de um rio que corre no fundo do maior vale próximo a região das nascentes, chamado tecnicamente na ciência cartográfica ou Cartografia de linha de reunião de águas.




Também existem milhões de litros de água espalhados pelo mundo em forma de aqüíferos subterrâneos; um dos maiores deles, o Aqüífero Guarani, fica sob o Brasil e se estende pelo centro sul da América do Sul, por baixo de terras do Paraguai, Argentina e Uruguai, num total de 55 mil metros cúbicos de água distribuídos em 255 mil quilômetros quadrados.



Existe inclusive uma base dos Estados Undos no Paraguai, bem ao lado do Aquífero. Os estadunidenses afirmam estar no local para treinar tropas paraguaias, e para fiscalizar uma suposta rede de conexão de atividade terrorista na região.



As águas dos aquíferos ainda não podem ser usadas, pois a tecnologia atual disponível não permite ao homem chegar aos reservatórios localizados nas profundezas da Terra, bem mais fundo que as bacias petrolíferas exploradas atualmente.



A visita do secretário de defesa dos EUA, Robert Gates, à América Latina há alguns anos, teve como um dos principais propósitos tratar da instalação de bases aéreas americanas na região onde está boa parte de toda a água doce do mundo, além de outro local para abrigar a base de Manta, localizada atualmente no Equador, onde o governo recusou renovação da licença de uso daquela base pelos americanos. A agência de notícias Reuters publicou que Colômbia e Peru se ofereceram para a instalação da base americana, porém seus governos negam.


A escassez de água atrapalha o desenvolvimento de um país, principalmente comproblemas sociais e de saúde, que prejudicam diretamente a economia de uma nação. É essencial proteger os mananciais em todos os sentidos, a fim de tê-los no futuro e evitar um possível caos na humanidade, em que homens de todos os continentes entrariam em guerra para conquistar um elemento que pode vir a se tornar tão raro: a água.



A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou o dia 22 de março como o dia mundial da água, por meio de um documento chamado "Declaração Universal dos Direitos da Água", que foi publicado na ECO RIO 92, realizada entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, no Rio de Janeiro. Eis um pequeno trecho do documento:



"A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela, não poderíamos conceber como seriam a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado no Art. 30 da Declaração Universal dos Direitos Humanos".



Nas regiões onde os recursos hídricos são encontrados em abundância, a população no geral acredita que a água é um bem natural infinito e, por isso, pode até ser desperdiçada: ledo engano. Natural sim, e indispensável para a manutenção da vida em todos os aspectos, porém finito e dependente da conscientização das pessoas e da preservação das matas.



São alarmantes os dados que mostram que 90% do esgoto produzido no Brasil é jogado sem tratamento nos mares, lagos e rios. Cada vez que são utilizados mil litros de água, outros dez mil litros são poluídos.



O consumo de água hoje no mundo é três vezes maior do que em 1950. Havia aproximadamente 500 mil pessoas sobre a Terra em 1650. Em 2010, ja eram cerca de 8 bilhões de pessoas sobre o planeta, e chegará aos 16 bilhões apenas em algumas décadas mais adiante em relação a hoje.



No ritmo em que "caminha" a humanidade, calcula-se por meio de dados fornecidos pelo International Water Management Institute (IWMI) dos EUA, 1,8 bilhão de pessoas ou 30% da população mundial estará vivendo em condições de absoluta falta de água no ano de 2025.



Se os 5 bilhões de anos de existência do mundo pudesses ser representados por apenas um ano, só ouviríamos falar do Homo Sapiens quando estivessem faltando 10 minutos para a meia-noite do dia 31 de dezembro do ano comparado, guardadas as proporções de escala, aos 5 bilhões de anos da Terra. Em tão pouco tempo, o homem já criou a incerteza sobre a preservação de sua existencia sobre o Planeta.




A manutenção da sobrevivência da espécie humana está direta e intimamente ligada à preservação da substância que compõe quase toda a nossa individualidade corporal: ela, sua excelência, a água.




O texto acima é um trecho extraído do livro "Mantiqueira: Ecologia, Cultura e Aventura na Montanha que Chora", de autoria do jornalista Cássio Ribeiro.

A TROPICÁLIA OU TROPICALISMO




Por Cássio Ribeiro

Imagine um tempo em que nada podia ser dito, principalmente a verdade. Congresso Nacional fechado e a imprensa censurada. Foi num mundo assim, ou melhor, num Brasil assim, aquele da Ditadura Militar (1964-1985), que a Tropicália vicejou.




O Tropicalismo nasceu quando um grupo de artistas baianos (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, e o grupo Os Mutantes, que contava então com uma jovem vocalista chamada Rita Lee) se uniu nas apresentações dos festivais de música popular brasileira, promovidos pelas emisoras de TV, entre os anos de 1967 e 1969.




Na impossibilidade de falar abertamente contra a Ditadura Militar em suas canções, os tropicalistas tinham como sua principal característica o deboche e a ironia. Não faziam e nem poderiam fazer suas críticas de oposição ao Regime Militar abertamente.











Os tropicalistas reunidos na foto que virou capa do disco Tropicália, considerado um manifesto do movimento

O deboche era expressado por meio da atitude na vestimenta e nos arranjos. As experimentações exóticas nas canções tropicalistas chocavam o público erudito, acostumado com um padrão musical que a tropicália teve a ousadia de quebrar naqueles anos, mudando assim, de forma indireta e por meio da sua expressão cultural inovadora, as regras e os padrões estabelecidos como normais nos padrões das músicas daqueles tempos.


O tropicalismo tinha manifestações de oposição política em seu comportamento e expressão musical, porém, as músicas expressavam oposição à Ditadura de forma indireta, ao acrescentar o acorde hilário de um instrumento musical no meio de uma letra séria.

A grande influencia para o surgimento do Tropicalismo na década de 60 veio do Movimento Antropofágico das décadas de 1920 e 1930. Ligado ao movimento da Arte Moderna, que tinha ícones artísticos e culturais como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Anita Malfatti, o Antropofagismo pregava uma absorção das culturas exportadas pelos EUA e pela Europa, seguida por uma digestão repleta da introdução de manifestações e valores culturais brasileiros, para em seguida expressar um novo produto cultural modificado e cheio de características nacionais.


A grande diferença entre o Movimento Antropofágico e o Tropicalismo foi que o segundo digeria cultura popular também, enquanto que o primeiro modificava apenas aquilo que era erudito e exportado pelas potências culturais norte americana e européia.



Numa época em que os artistas que faziam oposição ao Regime Militar com manifestações diretas e incisivas em seus trabalhos eram torturados, perseguidos e deportados, o comportamento debochado tropicalista, embora tenha tido contribuições criativas dos maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia, não foi bem aceito pelos intelectuais e por grande parcela da juventude que militava no movimento estudantil de oposição política à Ditadura Militar.




Os tropicalistas foram tachados de alienados por absorverem e fazerem uso de influências culturais dos EUA e da Europa, num tempo em que as manifestações nacionalistas, norteadas pela oposição à Ditadura Militar, não via com bons olhos o que vinha de fora e fugia do tradicionalmente brasileiro.

Confira a música Tropicalia, de Caetano Veloso, no Link http://www.youtube.com/watch?v=yiwx1oPnEM4



Com o tempo, os militares perceberam o tom debochado de oposição empregado pelos tropicalistas e, com a prisão e a deportação de Gilberto Gil e Caetano Veloso, o Tropicalismo chegou ao fim após uma curta e intensa duração de cerca de 3 anos.



O compositor, cantor, ator, arranjador e eterno tropicalista Tom Zé




Outras manifestações do Tropicalismo também foram observadas nas artes plásticas, no teatro e no cinema, com o chamado Cinema Novo de Glauber Rocha. Atualmente, Tom Zé é um dos principais nomes da MPB que ainda emprega o estilo tropicalista em suas letras e nos arranjos de suas músicas.

domingo, 19 de junho de 2011

FUSCA: A SAGA DE UM SETENTÃO IMORTAL




Por Cássio Ribeiro



O barulho do motor soa inconfundível quando o elegante e arredondado senhor passa pela rua ainda hoje. É apertado sim, é antiquado se comparado com os modelos automotivos do século 21, mas também é danado de forte e possui uma lataria muito resistente. É um dos carros preferidos nas regiões rurais e montanhosas do Brasil, graças ao vigoroso e tradicional motor boxer refrigerado a ar. Possui o carinhoso apelido de "besouro" e tem o dia 20 de janeiro dedicado em sua homenagem. Trata-se do carro que quem ainda não andou, seguramente já o viu trafegando pelas ruas; o fuca, o fusquete, o fuscão, o simpático fusca.











O engenheiro austríaco Ferdinand Porsche se inspirou em uma gota para desenvolver o carro em 1936, associando as características de eficiência e baixo custo para produzir um veículo capaz de, ao preço acessível de 990 marcos, possibilitar que cada trabalhador alemão tivesse um automóvel.Era o tempo da Alemanha Nazista, e Hitler não estava preocupado com o lucro; queria a promoção da popularidade do regime, por meio de um projeto que reunia no Volkswagem (carro do povo em alemão), a simplicidade do motor boxer refrigerado a ar, e a caixa de marcha compactada em uma mesma unidade.





Uma das raras fotos em que Hitler aparece sorrindo, no momento em que é apresentado à miniatura do protótipo do "besouro"


Cada cidadão alemão que quisesse adquirir o carro, tinha que pagar 5 marcos por semana e só receberia o veículo após o término do pagamento do valor total de 990 marcos. Cerca de 175 mil alemães aderiram ao plano, porém, nenhum deles chegou a receber seu tão esperado fusca. Todas as 640 unidades produzidas até 1944 foram dadas aos integrantes mais importantes do Partido Nazista. A Alemanha saiu derrotada da 2ª Guerra Mundial, que terminou em 1945. A região do país onde os fuscas eram fabricados ficou sob domínio da Inglaterra.





Nos Estados Unidos, o fusca começou a ser produzido em 1949. No início, contou com a antipatia do povo americano que, no começo dos anos 1950, ainda o associava ao odiado e não esquecido nazismo de Hitler. Os americanos também estavam acostumados com automóveis grandes e a modelos com frente e traseira quadrados. Logo, o fusca recebeu o apelido pejorativo de beatle (besouro em inglês), nos Estados Unidos.




Foi o americano Bill Bernback — considerado o maior publicitário da historia — quem popularizou o carro na terra do Tio San. O estilo de seus anúncios fez o fusca ficar famoso em todo o mundo e deu origem a um novo jeito de fazer propaganda, que tratava o consumidor como se fosse um amigo próximo. O título da campanha de Bill era "pense pequeno". Os consumidores chegavam às lojas de automóveis repetindo os textos da campanha publicitária.





No Brasil, o primeiro fusca foi fabricado em 02 de fevereiro de 1953. Porém, a produção em série só começou em 1957, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek. Era a época da Bossa Nova e do desenvolvimento econômico. O fusca chegou como um símbolo da industrialização nacional.




Nos anos 70 e 80, o fusca era produzido em 140 países. Quebrou um recorde de 15 milhões de carros vendidos, pertencente à Ford até 1972. O carro foi produzido no Brasil até 1986. Teve a produção retomada durante o governo Itamar Franco, entre 1994 e 1996, ano em que sua fabricação foi novamente extinta no país. Atualmente, o motor boxer só é fabricado no Brasil para atender as encomendas das fábricas de buggy e embarcações.




O México foi o último país a encerrar a produção de fuscas, em 2003, graças a uma sobrevida sustentada pela grande aceitação do modelo pelos taxistas daquele país.





Fusca é um mito, uma poesia, uma nostalgia em quatro rodas auto afirmada pelo exemplar mais ilustre, o Herbie de Hollywood. O carro sempre foi comparado a insetos; de carochinha em Portugal à joaninha, nos tempos em que era usado como viatura da Polícia Militar em alguns estados brasileiros. O fato é que, em pleno século 21, o besouro na verdade lembra as formigas. Não importa em qual cidade se esteja, sempre há um fusca por perto.




Assim como as estrelas que chegam ao fim de seu ciclo no universo permanecem visíveis na Terra, graças ao último raio de luz emitido que viaja pelo espaço em nossa direção, o astro fusca insiste em não se ofuscar ainda hoje. Quem dera se eles falassem.

domingo, 12 de junho de 2011

ÂNGULOS DIFERENTES DAS QUEDAS NO SURF. ÂNGULOS ATRAVÉS DOS QUAIS, TALVEZ, VOCÊ NUNCA TENHA VISTO





Por Cássio Ribeiro


Todos os dias, acordamos e entramos em contato com um mundo que é velho conhecido nosso. Vemos carros nas ruas, pessoas que andam apressadas nos centros das grandes cidades, crianças que brincam e tudo o mais que o leitor já viu, guardou em sua memória e é capaz de lembrar-se agora; pense só!




Só que também existem acontecimentos que se repetem periodicamente em nosso mundo vivente e nós não podemos perceber, seja pelo local impróprio onde acontece tal fato, seja pela própria rapidez do acontecimento em si, que não permite ao nosso limitado aparelho visual humano registrar. São momentos mágicos, únicos, lindos e, infelizmente, não testemunhados de forma ocular pela maioria dos humanos.




É por esses momentos e acontecimentos que não podemos ver que o fotógrafo australiano Mark Tipple é fascinado. Mark, que tornou-se especialista em registrar imagens de banhistas e surfistas no fundo do mar, conta que sempre foi atraído pelo que acontece abaixo da superfície; aquilo que está acontecendo e não podemos ver.





"Como vim com um repertório de surfe, eu costumava imaginar o que acontece quando estamos mergulhando, como é a aparência de um ângulo diferente do que costumamos ver. Eu costumava surfar com uma pequena câmera de vídeo presa ao meu capacete. Funcionou surpreendentemente bem, mas meu pescoço não conseguia absorver o impacto enquanto eu tentava mergulhar e capturar o ângulo certo. Tentei uma nova abordagem para capturar aquilo que queria; o que, basicamente, significava sair da prancha de surfe. Sem prancha, eu virava a câmera para os surfistas e os fotografava enquanto eles se contorciam e lutavam para evitar a água acima (da onda). Chegando à superfície, olhei a tela de led (da câmera) e a primeira imagem desse meu novo trabalho estava lá", conta o fotógrafo. Mark também afirma que, em 2011, está trabalhando para associar seus trabalhos com causas humanitárias.



Nesta semana, o Blog da Rádio Web Matrix apresenta uma matéria diferente. Publicamos neste domingo 12/06, um ensaio fotográfico do australiano Mark Tipple. As fotos sensacionais falarão por si, não sendo necessários textos muito aprofundados além de alguns comentários em forma de legenda embaixo das fotos. Nessa semana, a expressão do trabalho deste Blog fica apenas a cargo das imagens do australiano Mark Tipple, confira abaixo:




Acho que vi uma gatinha sendo "tragada" pelo tubo ali à esquerda




Congestionamento aliviado por diferentes níveis de "navegação"

Um "caldo" solidário e espelhado




A tempestade 1





A tempestade 2




Depois de toda tempestade ...




sempre vem ...



a bonança

Em situações como essa, no Havaí por exemplo, a rasa e afiada bancada de coral faz picadinho de surfista




E viva o Sol

domingo, 5 de junho de 2011

A ARTE SUBTERRÂNEA DE ZEZÃO




Por Cássio Ribeiro


Imagine ruínas abandonadas que já foram antigos prédios. Imagine acomodações rústicas embaixo de viadutos que são habitadas por mendigos. Imagine também o sistema subterrâneo de escoamento das águas da megalópole São Paulo, que drena os fluídos dos esgotos e as correntezas das chuvas da superfície asfáltica e concretada da capital paulistana para o poluído e agonizante Rio Tietê.

Esses locais certamente não são o lugar mais apropriado para um artista expor seus trabalhos, contudo, foram escolhidos pelo ex-punk e ex-motoboy paulistano José Augusto Capela, o Zezão, para criar e fazer sua arte.




Nos tempos em que era punk e motoboy, nos idos da primeira metade da década de 1990, Zezão começou praticando sua expressão por meio da pichação comum. Sua assinatura era “Vicio Pif Dst” (“vicious pintores infratores ferroviários destroy) e Zezão escalava prédios públicos para grafitar.

Com o tempo, sua caligrafia foi ganhando forma arredondada e as letras acabaram virando desenhos abstratos com caráter mais incrementado e artístico, lembrando uma espécie de língua tribal que não pode ser entendida de forma direta por nós, mas que possui expressivo significado de comunicação como veremos. Convido o agora, de certo, indignado leitor, a seguir até o fim desta matéria.




Zezão no início praticava a pichação comum, como esses jovens de São Paulo...



Com o passar do tempo, as letras de suas expressões ganharam novos contornos,...




até chegarem à forma atual e abstrata de seus flops, que hoje são reconhecidos como obras de arte em todo o mundo


O cenário da galeria, que não é especificamente aquela das artes, sem dúvida também não é dos mais agradáveis. Na parede, um “revestimento” com centenas de baratas saúda Zezão, que caminha.

Certa vez, a lanterna falhou subitamente e Zezão se viu envolto pela escuridão em pleno labirinto de túneis. Nenhum problema para o grafiteiro que conhece como ninguém a São Paulo que o cidadão comum, em suas idas e vindas pela cidade, não vê; aquela do subsolo.

Outro problema que pode atingir Zezão, de forma fatal, é amenizado pelo inseparável telefone Celular que o artista carrega sempre que se aventura nas galerias em tardes de verão na capital paulista.

Zezão deixa sempre um amigo de plantão para verificar a formação de nuvens sobre a cidade, a fim de avisá-lo via ligação sobre a iminente chegada de um temporal, o que encheria rapidamente os túneis até o teto com violentas correntes de água e arrastaria o grafiteiro indefeso para a calha do Rio Tietê, num afogamento certo e muito poluído.





Zezão afirma que seus maiores inimigos no ambiente onde grafita são os pregos enferrujados pelas águas do esgoto, ...


mas também sabe que corre muito perigo com a subida repentina do nível das águas que correm rumo ao Rio Tietê em dias de chuva forte


O grafiteiro conta que certa vez, ao ser avisado sobre a chegada de uma forte chuva, saiu rápido pela tampa de um bueiro em uma famosa via pública da capital paulista, para surpresa dos pedestres e motoristas que transitavam pelo local no momento.

Zezão agora caminha com uma lanterna nas mãos no interior de uma galeria. A água urbana passa ligeira e turvamente poluída na altura das canelas do grafiteiro, e só não entra em contato com a pele do artista graças a uma bota de borracha (galocha) que zezão usa como calçado para percorrer os caminhos subterrâneos da cidade de São Paulo.

O grafiteiro sabe de cór o ranking de velocidade da corrida aquática do esgoto que sempre assistiu fluir numa espécie de mix entre regata e fórmula 1, e cujas campeãs absolutas com melhores tempos de chegada ao Rio Tietê são as garrafas pet.




Zezão costuma dizer que embora não sejam dos mais limpos, os lugares onde ele grafita, diferentes de outras regiões da cidade, são calmos e cheios de paz, apenas com o som das águas lembrando os riachos e cachoeiras que corriam por ali antes de serem canalizados e poluídos pela urbanização desenfreada


Os outros “participantes” da fórmula 1 da má educação e da sujeira promovidos e patrocinados pelos habitantes de São Paulo são frutas estragadas, pacotes de petiscos, caixas de pasta de dente, dezenas de cachorros e alguns cavalos, além de muitos outros “corredores” anônimos que concorrem nas “provas” de má cidadania que não acontecem apenas em São Paulo, mas também em toda grande cidade onde haja a concentração do animal, muitas vezes “irracional”, ser humano.

Pode-se observar por meio do lixo urbano preso, o nível que a água corrente chega nos dias de chuva forte.


A iluminação que incide através dos bueiros empresta um ar de galeria de arte sofisticada às obras de Zezão nos subterrâneos paulistanos


A forma como Zezão produz um grafite seu é descrita abaixo num trecho de texto publicado na Revista piauí, um ícone do jornalismo literário brasileiro, em http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-12/grafiteiro/zezao-sai-do-esgoto:
“Zezão tira o menor rolinho de espuma, o de 4 centímetros de largura, da sacola que leva atravessada no peito, e o mergulha na tinta azul- clarinha. Na parede interna da galeria de esgoto, pinta um pequeno círculo. Do meio dele faz sair um traço horizontal para a esquerda e, com agilidade, pinta ao redor uns arabescos. Uma das pernas encaracoladas do desenho, a mais magricela, segue como um pega-rapaz em direção às águas opacas e malcheirosas do córrego Carandiru. "Por esse esgoto correu o sangue dos detentos, por isso gosto de voltar aqui", diz, em tom reflexivo, enquanto agita, como se fosse um chocalho, uma latinha de tinta. É sempre assim. Com o rolinho, ele faz desenhos sinuosos com o azul-claro. Com o spray azul-escuro, faz o contorno.” Crédito: Revista piauí.





O que Zezão faz nem tem muito apego com a estética e na verdade é uma forma de intervenção urbana, que mostra, através do contraste entre o azul cheio de vida dos desenhos do grafiteiro e o meio urbano degradado, como um lugar que já abrigou um rio limpo cheio de peixes e vida foi destruído pela ocupação desequilibrada e cruel de uma grande cidade como São Paulo. Os grafites abstratos de Zezão expressam ao mesmo tempo vergonha, saudade, crítica ao sistema e muito mais.



Nesta imagem, por meio do reflexo do trabalho de Zezão na água poluída, pode ser observada a essência da obra artística urbana do grafiteiro, que traz novamente, através de suas cores vivas, um pouco de alegria e vida para um lugar completamente degradado. Trata-se de uma espécie de curativo para cidade ferida pela poluíção, pela violência e pela morte




Trata-se da Folkcomunicação (comunicação do povo), que a jornalista brasileira Márcia Campos, de Pindamonhangaba-SP, que vive atualmente na Irlanda e é estudiosa de Folkcomunicação explica: “Folkcomunicação é um termo cunhado por Luiz Beltrão nos anos 60 para definir a comunicação realizada pelos marginalizados (público que está a parte da grande mídia). Ela pode estar diretamente ou indiretamente ligada ao folclore. Trocando em míudos, folkcomunicação nada mais é do que a expressão comunicativa dos grupos marginalizados através de seus próprios canais e agentes. Além do grafite, a pichação comum também é uma expressão comunicativa dada por inscrições que assumem diferentes formas como assinaturas, desenhos, frases de efeitos, etc. Geralmente suas mensagens são de cunho politico e tomam como canal vias publicas, monumentos e edificios (midia externa), tal expressão tem como objetivos desafiar a ordem publica, chocar e expressar idéias, e ideais de um grupo marginalizado, que toma para si um meio público e massivo como canal. Assim sendo, todo o processo comunicativo da pichação envolve todos os agentes destacados por Beltrão na Folkcomunicação”, completa a jornalista.


Vale lembrar que, embora a pichação comum também faça parte da Folkcomunicação, sua prática, quando expressada em prédios e monumentos urbanos, é considerada crime no Brasil



Quando questionado sobre o motivo que o levou às ruas, Zezão afirma:“Eu desenhava sem pretensão. Queria só rabiscar. Eu sempre gostei das ruas, queria deixar a cidade mais bonita."



Zezão já expôs seus trabalhos pelo mundo: em Londres, em Nova Iorque, nas Catacumbas de Paris, em Praga, capital da República Tcheca e em diversos outros países.



Para ele, sua obra só é considerada grafite quando é realizada no meio urbano, e não quando é exposta em galerias ou vendidas em placas de concreto com o propósito de decoração em ambientes, por preços que chegam a variar entre 1000 e 4000 reais.


Zezão em túnel de Londres




Sua obra em exposição no RJ...




e em uma galeria de arte em Nova Iorque. Em exposições como essa, Zezão não considera suas obras grafite...





ficando a definição "grafite" reservada apenas para as práticas públicas no meio urbano, como nesse trabalho no bairro do Bronx, em Nova Iorque



Em diferentes e curiosas ocasiões, sendo elas grafite ou não, é certo que as obras de arte de Zezão saíram dos esgotos e subterrâneos para ganharam literalmente o mundo.